
O Brasil está de luto com o falecimento de Ziraldo, criador do Menino Maluquinho (1980), autor do clássico Flicts (1969) e de centenas de outras histórias e personagens que povoam o imaginário das crianças há gerações. Segundo a família ele faleceu enquanto dormia, em sua residência na zona sul do Rio de Janeiro.
O maior cartunista brasileiro tinha 91 anos e sua saúde debilitou-se após três acidentes vasculares cerebrais sofridos a partir de 2018, quando passou a não dar mais entrevistas por recomendação médica. Em um vídeo gravado em 2019 para divulgação de uma exposição dedicada a ele.
“Vocês podem achar que eu estou um pouco triste, falando devagar, porque não é meu estilo. Acontece que eu de repente fiquei velho. Foi outro dia. Eu acordei de manhã e estava velho”, disse ele, vestindo um de seus indefectíveis coletes. “Mas eu estou alegre, estou feliz da vida”, declarou o pai do Menino Maluquinho.
Ziraldo foi casado com Vilma Gontijo Alves Pinto, com quem teve os três filhos: a cenógrafa e cineasta Daniela Thomas, o músico e compositor Antônio Pinto e a também cineasta Fabrizia Alves Pinto, além de quatro netos.
Desde 2002, estava casado com a produtora Márcia Martins. Recluso nos últimos anos, o cartunista chegou aos 90 em 2022 cercado de homenagens à sua obra. O Menino Maluquinho se tornou série de animação da Netflix e dois de seus livros ganharam relançamento em edições especiais: O Bichinho da Maçã e Menina Nina.
Um livro-homenagem foi lançado pelo cartunista Edra, com 45 cartuns e 45 depoimentos de pessoas que foram influenciados por Ziraldo: 90 Maluquinhos por Ziraldo – Histórias e Causos.
Seus personagens e histórias também ganharam a exposição Mundo Zira – Ziraldo Interativo, que teve curadoria da filha Daniela Thomas em parceria com uma de suas sobrinhas, Adriana Lins. A mostra, que teve início em Brasília, é uma celebração à carreira dele e deve permanecer em cartaz no Rio de Janeiro até 13 de maio.
No lançamento a filha Daniela disse que o Ziraldo afetou e moldou cinco gerações. “Afetivamente e com relação a infância, todo Brasil cresceu junto com as criações do meu pai. Não queremos deixar esse espírito morrer, ele envelheceu, claro. Mas a obra está muito viva.”
Quanta história, quanta luta, quantas crianças fez sonhar com o inesquecível Menino Maluquinho, suas aventuras e travessuras. O ícone dos quadrinhos brasileiros parte, mas sua obra continuará encantando gerações. Uma perda irreparável do autor e cartunista, fonte de inspiração de gerações de “meninos e meninas maluquinhos”.
Nas redes, inúmeras pessoas prestaram homenagem a Ziraldo logo após o anúncio de sua morte. O presidente Lula classificou Ziraldo como um dos “maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país”.
“São inúmeras e diversas as contribuições de Ziraldo, seja com a turma do Pererê, em seu trabalho à frente do Pasquim, nos anos da ditadura, em livros inesquecíveis, como Flicts, e num extenso trabalho em revistas e jornais brasileiros. Na defesa da imaginação, de um Brasil mais justo, com democracia e liberdade de expressão”, escreveu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Maurício de Souza, criador da Turma da Mônica, também lamentou a morte do grande brasileiro. “Perdi mais que um grande amigo. Perdi um irmão. Das letras, dos traços e da vida! Mas ele estará sempre aqui em meu coração. E nos corações de milhões de brasileiros maluquinhos, de todas as idades, que seguirão apaixonados por sua obra. Viva, Ziraldo!”.
Corinthians, Palmeiras e São Paulo, clubes para os quais Ziraldo fez trabalhos pontuais como escritor ou cartunista, e o Flamengo onde o artista participou da criação de logos e marcas comemorativas do Rubro-Negro, incluindo o emblema dos 100 anos do clube, também prestaram homenagem ao imortal poeta e desenhista.
Muitos gestos de reverência e carinho foram feitos também pelos famosos como a ministra da Cultura Margareth Menezes que publicou: “Ziraldo foi muito mais que um autor. Foi uma fonte de inspiração que trouxe o verdadeiro espírito da cultura brasileira para o mundo dos quadrinhos”.
O ator Matheus Nachtergaele escreveu que “não sabe dizer adeus” ao cartunista. Já o apresentador Zeca Camargo publicou foto com a legenda: “Choram todos os meninos maluquinhos – de todas as idades”.
Imaginário Infantil
Desde a infância em Caratinga. Ziraldo era apaixonado por histórias para crianças. Em 1980, lançou O Menino Maluquinho, sucesso de vendas e ganhador do prêmio Jabuti, o principal das nossas letras. O menino com uma panela na cabeça e sua capa e espada improvisadas se converteu num dos maiores fenômenos editoriais da literatura infantil, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos até hoje e adaptações para o teatro, cinema, série de TV e até ópera.
Desde então, foram mais de 100 livros publicados como autor, colaborador ou ilustrador, e muitos outros best-sellers. Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, já vendeu mais de meio milhão de exemplares. O Bichinho da Maçã, de 1982, mais de 300 mil. As histórias de Ziraldo também chegaram a crianças do mundo todo, traduzidas em espanhol, italiano, inglês, alemão e francês, entre outras línguas.
Destaques de Ziraldo
Ao longo dos anos 1960, expandiu seus talentos como chargista, caricaturista e artista gráfico, criando cartazes para filmes hoje considerados clássicos do cinema nacional, como Os Cafajestes e Os Fuzis, de Ruy Guerra.
Foi também a época em que se consagrou com seus cartuns e charges políticas na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Personagens como Jeremias, o Bom, a Supermãe e o Mineirinho tornaram-se populares.
Em paralelo, o artista realizava um antigo sonho de infância: se tornava o primeiro autor de uma revista em quadrinhos brasileira de um só criador, reunindo personagens da turma do Saci Pererê, importante personagem do folclore brasileiro, que já publicava nas páginas de O Cruzeiro.
Com personagens como uma criança indígena, e animais típicos da nossa fauna, como a onça, o jabuti e o tatu, a Turma do Pererê marcou época na história dos quadrinhos no país, apesar de ter circulado só até 1964.
Em 1973, a editora carioca Primor reeditou uma seleção de suas melhores histórias, que passaram a fazer parte de vários livros didáticos.
Ziraldo tinha uma criatividade ímpar que fez gerações e gerações desfrutar de sua inesgotável sensibilidade e talento. Descanse em paz, grande e admirado brasileiro. Que tenha vida eterna e que o Pai o acolha em seus braços. Que Nossa Senhora conforte o coração dos familiares, amigos e fãs.
Reconhecimento Internacional
O ano de 1969 marcou para sempre a carreira de Ziraldo. Em meio a prisões e perseguições, o artista foi contemplado com o principal prêmio do 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas, considerado o Oscar do humor, depois de ter trabalhos publicados em revistas na Europa e Estados Unidos.
Foi também em 1969 que recebeu o Merghantealler, prêmio que homenageia o trabalho pela imprensa livre na América Latina dado pela Associação Internacional de Imprensa.
Ziraldo ainda se tornou o primeiro artista latino convidado a desenhar o cartaz da campanha anual do Unicef.
Antes do fim daquele ano, publicou ainda seu primeiro livro infantil, Flicts. A história de uma cor que não encontrava seu lugar no mundo, contada como um poema gráfico, com o mínimo de palavras, encantou crianças e adultos.
Dado de presente pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil aos astronautas americanos que fizeram parte da primeira expedição à lua na sua visita ao país, o livro comoveu Neil Armstrong, que escreveu ao autor: “A lua é Flicts”.
Trajetória de Ziraldo
Ziraldo Alves Pinto nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, Minas Gerais. Mais velho de sete irmãos, seu nome é a combinação dos nomes da mãe, Zizinha, com o do pai, Geraldo, como é comum no interior do Brasil.
O cartunista passou a infância em Caratinga, onde cedo revelou sua paixão pelo desenho e pela leitura, principalmente de revistas em quadrinhos. O menino Ziraldo, diz sua página oficial, desenhava em todos os lugares: na calçada, nas paredes, na sala de aula. Em 1939, com apenas 6 anos, viu seu primeiro desenho ser publicado no jornal Folha de Minas.
Adolescente, mudou-se com o avô para o Rio de Janeiro, onde viveu por dois anos. Retornou a Minas para terminar o curso científico (atual ensino médio) e, em 1957, formou-se em direito em Belo Horizonte. Nessa época, no entanto, sua carreira já estava totalmente voltada para o desenho.
Ziraldo começou a colaborar mensalmente com a revista Era uma Vez. Em 1954, passou a publicar uma página de humor na Folha de Minas, o mesmo jornal que havia veiculado seu primeiro desenho ainda criança.
Ao terminar a faculdade, começou a publicar suas criações em revistas nacionais como O Cruzeiro, publicação dos Diários Associados, e no Jornal do Brasil, veículos que ficavam no Rio de Janeiro, onde voltou a morar.
Talento, amor pelo Brasil e um braço forte contra a ditadura
Ziraldo foi uma das grandes vozes da resistência ao autoritarismo e da defesa da democracia. Durante a ditadura militar (1964-1985) ele continuou a publicar suas charges e cartuns políticos. Seu engajamento o levou a ser preso três vezes durante o período, a primeira delas em dezembro de 1968, apenas um dia após a decretação do Ato Institucional Número 5, o AI-5, que deu início ao momento mais duro do regime.
No ano seguinte, fundou junto com o colega Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral “O Pasquim”, semanário de humor que virou fenômeno editorial brasileiro ao se tornar o veículo da contracultura da época (abordando temas como sexo, drogas, feminismo e divórcio) e de oposição ao regime militar. O jornal foi também, na descrição de Ziraldo, o grande celeiro de humoristas do pós-1968.
No ano seguinte, ele e toda a equipe do jornal foram presos, na primeira de muitas perseguições que O Pasquim sofreu. Até o fim da ditadura, houve ainda ataques a bomba à redação e a algumas bancas onde o jornal era vendido. “Ter podido atravessar os anos de chumbo fazendo o Pasquim foi uma dádiva. Morríamos de medo, mas fazíamos de tudo”, disse Ziraldo à Folha de S.Paulo em 2007.
Figura sempre ligada à esquerda, o artista foi membro do Partido Comunista Brasileiro. Em 2005, se filiou ao recém-criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), para o qual desenhou o logo. Nas eleições, declarou apoio público a candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), como nas duas vezes em que Dilma Rousseff ganhou a eleição e em 2018, quando Fernando Haddad ficou em segundo lugar.
Fotos: Reprodução/ Instagram
