
Celebra-se neste 17 de abril, o Dia Internacional da Apreciação dos Morcegos os pequenos voadores noturnos essenciais para a manutenção e estabilidade dos ecossistemas. A data tem como meta reforçar a educação das pessoas acerca destes animais, e apostar num ecoturismo sustentável a habitats onde estas espécies podem ser observadas com o mínimo de perturbação.
Devido aos hábitos noturnos, os morcegos são, muitas vezes, tidos como perigosos e causadores de azar. No cinema, na literatura e na ficção são descritos como animais que se alimentam de sangue, eles normalmente são associados a bruxas, vampiros e até ao super-herói Batman, o homem-morcego. Estes pequenos voadores são seres envoltos em crenças místicas e, às vezes, podem causar medo nas pessoas.
Vistos como animais asquerosos e transmissores de doenças, a má fama agravou-se com a pandemia da COVID-19, em que foi disseminado pela comunidade científica que uma espécie de morcego teria servido de intermediária entre outra espécie hospedeira e os humanos. No entanto, bem longe de serem os vilões da história, os mamíferos voadores, na verdade, são animais capazes de se adaptar e equilibrar o meio ambiente.
Estudos mostram que os morcegos são dos animais mais bem-sucedidos do planeta, com mais de 1.400 espécies – representando um quinto de todas as espécies de mamíferos. São os únicos mamíferos a terem desenvolvido o voo ativo, com suas asas formadas pelo alongamento, sobretudo, dos dígitos das mãos, dos quais apenas o primeiro (correspondente ao nosso polegar) não é envolvido pela membrana alar. Esta se constitui de uma pele muito fina, bastante sensível e elástica, que permite aos morcegos manobrar de forma até mais eficiente do que as aves. Esses mamíferos voadores são encontrados em todas regiões do mundo, com exceção das áreas mais geladas, como a Antártica.
Existem fósseis datados de 30 milhões de anos atrás e são os únicos mamíferos que voam. Existem duas subordens:
- Megachiroptera: São os maiores morcegos, que conhecemos como Raposas voadoras. Encontradas na África, Oceania e Ásia. Podem pesar mais de 1,5 kg e possuir uma envergadura de até 2 metros. A maior espécie conhecida é a Pteropus vampyrus, da Indonésia. As raposas voadoras se alimentam de frutas.
- Microchiroptera: São os morcegos que pesam de 2 a 200 gramas, podendo ter uma envergadura de 1 metro, sendo a maior espécie a Vampyrum spectrum e a menor a Craseonycteris thonglongyai.
A dieta deles é diversa: folhas, frutos, sementes, insetos, néctar, pequenos vertebrados e sangue. São animais muito importantes para o equilíbrio dos ecossistemas terrestres. Os insetívoros encontrados em quase todo o mundo representam a maior parte das espécies e fazem o controle populacional de pragas, sendo que cada um pode comer 600 insetos por hora.
Os frugívoros espalham sementes dos frutos que comem através de suas fezes ou regurgito. Já os nectarívoros fazem a polinização de mais de 500 espécies de plantas, sendo essenciais na reprodução de muitas espécies. Dentre mais de 1200 espécies, apenas três são hematófagas e se restringem à América do Sul, sendo que uma delas ataca apenas aves.
Para a Biologia os morcegos são classificados como essenciais para a estabilidade dos ecossistemas, desempenhando tarefas vitais como polinização, dispersão de sementes e controle das populações de insetos.
O biólogo André Witt, da Vigilância Ambiental em Saúde, destaca que a legislação brasileira protege os morcegos e as ações do poder público incluem a orientação sobre a importância biológica e os riscos à saúde pública nos casos de acidentes. Segundo ele, os animais têm um importante papel ecológico, especialmente, por terem hábitos alimentares diversos. Há espécies que se alimentam exclusivamente de insetos, outras, de frutos, nectar, pólen e parte das flores. “Essas características tornam os morcegos responsáveis, por exemplo, pelo controle das populações de insetos e pela regeneração de áreas reflorestadas”.
Os morcegos, também chamados pelo nome científico quirópteros (por conta da classificação na Ordem Chiroptera) são criaturas capazes de dizimar uma série de insetos que atacam lavouras e, assim, manter uma plantação bem cuidada sem o uso de pesticidas. Dessa forma, os morcegos polinizadores e os predadores de insetos auxiliam o mercado que movimenta bilhões de dólares por ano: o da agricultura.
Os morcegos frugívoros possuem um papel importante no reflorestamento de áreas desmatadas. Quando eles voam para se alimentar, eles acabam eliminando sementes viáveis de plantio pelas fezes. Em razão disso pesquisadores da Unesp e da Embrapa desenvolveram aromas de frutas para atrair morcegos que possam espalhar sementes em regiões devastadas. As áreas escolhidas para o replantio foram o sul da Mata Atlântica e a parte central da Floresta Amazônica. Esse reflorestamento realizado por morcegos é mais completo do que se fosse utilizado o método tradicional.
A principal região que abriga os morcegos é a neotropical, que envolve a América do Sul e uma porção da América Central. Ainda, é entre os trópicos que vivem as mais diferentes espécies de morcegos. O local é propício para a vida dos animais, pois oferece uma abundância de insetos e frutos, e o clima contribui para a sobrevivência e reprodução dessas espécies.
Eles são bem adaptáveis e enquanto uns não dispensam a rusticidade de uma caverna, outros encontram espaço no conforto do centro urbano. Muitos morcegos ainda se abrigam em furnas (manifestação geológica natural que libera vapor d’água), árvores e cascas de árvores (soltas ou acopladas). No geral, os morcegos precisam de um ambiente natural e não impactado pelo homem para poderem encontrar comida mais facilmente e viverem em harmonia com a natureza. Estudos apontam que determinadas espécies se dão melhor no ambiente urbano do que no ambiente natural.
Até as décadas de 80 e 90, o cão era o principal agente transmissor do vírus da raiva, contudo, esta situação mudou depois de iniciadas as campanhas massivas de vacinação de animais domésticos. A partir do ano de 2004 a importância do morcego como transmissor da raiva aumentou e hoje ele é considerado a principal espécie agressora no Brasil, explica o biólogo André Witt. “Existem várias hipóteses para explicar a mudança no perfil epidemiológico da doença, entre eles, a expansão das áreas urbanas, o desmatamento, a falta de planejamento da arborização nas cidades”.
Desde 2011, a Divisão de Vigilância Ambiental em Saúde / CEVS desenvolve o Projeto Monitoramento de Morcegos no Rio Grande do Sul com a finalidade de identificar e organizar informações sobre o papel destes animais na transmissão de doenças de relevância para a saúde pública em áreas urbanas. Entre as ações do programa está a captura e marcação com anilhas com o objetivo de permitir a posterior identificação do indivíduo.
“Temos espécies de morcegos bem adaptados ao meio urbano. O monitoramento destes indivíduos é fundamental para identificarmos em que áreas eles se concentram, como se dispersam e para onde se deslocam durante o ano, uma vez que algumas espécies têm comportamento migratório”. Neste sentido, o CEVS fez contato com especialistas no assunto em países da América Latina visando à identificação das rotas migratórias destes animais.
Além da marcação, periodicamente também é feita a coleta de material biológico para investigar a presença de doenças. A partir dos dados coletados, os técnicos do CEVS estabelecem ações sobre o manejo correto e o controle de morcegos em áreas urbanas. Graças ao projeto e a parcerias estabelecidas com universidades, mais de 800 morcegos já estão marcados e identificados no RS. “A ideia é desenvolver pesquisas em saúde pública sobre a presença de morcegos em áreas urbanas”.
A entrada acidental de morcegos em residências é comum nas áreas urbanas, principalmente na primavera e no verão, período de reprodução e de crescimento dos filhotes. Em casos de incidentes envolvendo morcegos em área urbana, recomenda-se as seguintes ações:
- Não capture animais com as mãos, pois a mordida é inevitável. Use sempre luvas, máscaras, botas de borracha;
- Nos casos de contato com o morcego, limpe o ferimento com água e sabão e procure orientação junto ao serviço de saúde de sua cidade.
Reprodução
Geralmente as fêmeas dão a luz a um filhote por ano. A gestação dura de 44 dias a 11 meses e o nascimento da cria se dá em épocas com maior oferta de alimento. Normalmente nasce um filhote por vez, já que a mãe o carrega grudado nela. Os cuidados parentais são estendidos até os três meses de vida do filhote.
Todo mamífero mama, mas nem todas as espécies amamentam do mesmo jeito. Os morcegos, por exemplo, ao longo da evolução, desenvolveram características únicas para conseguir gerar e alimentar os filhotes. A mama fica embaixo do braço, na região axilar. Amamentar é um processo que demanda alto gasto energético. Por conta disso, as fêmeas precisam comer o equivalente ao próprio peso diariamente para dar conta de alimentar o filhote.
Em cavernas, tocas de pedras e em ocos de árvores é que costumam construir seu lar. Em áreas urbanas, se abrigam na maior variedade de locais, incluindo pontes, toldos de construções e até interior de churrasqueiras.
Os filhotes se tornam independentes entre 6 e 8 semanas e atingem a maturidade sexual por volta dos dois anos de idade. Na maioria das espécies há um macho dominante que reproduz com várias fêmeas da colônia. O comportamento sexual entre as espécies varia muito.
Características
Possuem os cinco dedos e entre eles e o metacarpo alongado existe uma membrana, formando a asa que chamamos de patágio. Em algumas espécies existe outra membrana entre os membros posteriores e a cauda, que chamamos de uropatágio. A grande parte de morcegos é crepuscular e ou noturna (muitas espécies de raposas voadoras são diurnas) e vivem em locais escondidos e escuros, como cavernas.
Possuem olfato, paladar e audição aguçados e os microchiropteras possuem um “sexto sentido” chamado de ecolocalização (biossonar que inspirou a produção dos ultrassons e sonares de navios). O morcego emite ondas ultrassônicas pela boca ou narinas, elas batem nos obstáculos e voltam na forma de eco. Ele capta esses sons e assim se orienta. Os hematófagos utilizam mais um sistema que é a termopercepção. Alguns morcegos hibernam, no período de escassez de comida, baixando seu metabolismo e usando gordura corporal como energia.
Morcegos dormem de cabeça para baixo
O principal para compreender a posição peculiar que estes pequenos animais escolhem quando se trata de descansar é a sua forma de voar. Ao contrário da maioria das aves, os morcegos precisam de ser pendurados e em altura para poderem voar. Se não dormissem ao contrário e no ar, não seriam capazes de fechar as asas e estendê-las para iniciar a força motora necessária. Além disso, as pernas deles são muito curtas para correr.
Graças aos tendões especializados dos seus calcanhares, que se ligam diretamente ao resto do corpo sem necessidade de músculos, as suas pernas ficam bloqueadas nas superfícies onde são colocadas e conseguem manter-se no lugar sem qualquer esforço. Assim, quando acordam, abrem as asas e podem voar. É tão natural e sem esforço para eles que, mesmo que pereçam, ainda podem ficar pendurados de cabeça para baixo. Se estás a pensar se dormir de barriga para baixo não te vai dar o sangue na cabeça, há uma razão para não dar. Graças às válvulas venosas no seu sistema circulatório, muito semelhantes às que nós humanos temos nas nossas pernas, elas impedem que a gravidade produza esta acumulação.
A outra razão da escolha da postura em que os morcegos dormem é influenciada pelo seu instinto de sobrevivência. Pendurados em ramos de árvores ou nas fendas criadas em cavernas, chaminés ou telhados, eles evitam os ataques de predadores. Esta posição curiosa também lhes permite amontoarem-se para se protegerem do frio. É por causa de tudo isto que vimos tantas imagens de centenas de morcegos juntos e pendurados no teto.
Tal como os animais noturnos, o morcego é ativado quando a noite se aproxima. É aí que a sua atividade cresce, eles também se tornam predadores e começam a procurar alimentos sob a forma de insetos. Graças a estes horários, eles evitam ameaças que só puderam encontrar durante o dia e evitam a “competição” das espécies diurnas.
Os morcegos não passam a noite inteira à procura de comida e normalmente vão para as suas áreas de descanso após uma ou duas horas de busca. Isto resulta em longos dias de sono, tornando-os num dos animais mais sonolentos do planeta – uma média de quase 20 horas por dia (ou 83% da sua vida)!
Com respeito às espécies que hibernam, suas funções vitais diminuem ao ponto de o coração bater apenas dez vezes por minuto, em comparação com os 600 pulsos que alcançam durante a caça ao alimento. Com quase mil categorias diferentes de morcegos, alguns podem hibernar por até 183 dias. Enquanto estiverem neste estado, só acordam por razões fisiológicas ou se movem, e podem dormir por até 90 dias de cada vez.
Ameaças
Como todas as criaturas vivas, o morcego faz parte de uma cadeia alimentar que harmoniza o ambiente. São predados por animais, como aves maiores, cobras e felinos e também por corujas, gaviões, morcegos carnívoros e a ave anu-branco. Os gaviões capturam os morcegos durante o forrageio (momento em que o animal sai para procurar alimentos próximos da terra) ou nos abrigos em que ambas espécies dividem. O anu-branco entra nos abrigos dos morcegos e costuma predar principalmente os filhotes do grupo.
São mortos pelo homem pela falta de informação quanto a sua importância. A família Desmodontinae é a mais acometida pela raiva e a contaminação é principalmente a animais de fazenda. Um morcego contaminado pela raiva apresenta mudanças em seu comportamento, como atividade diurna, desorientação e quedas no chão. Onde a doença raiva não é endêmica eles são inofensivos. O acúmulo de suas fezes pode ter fungos que causam a histoplasmose.
A histoplasmose é adquirida pela inalação de esporos do fungo. A maioria das pessoas não tem sintomas, mas algumas se sentem doentes e têm febre e tosse, às vezes com dificuldade de respiração. Por vezes, a infecção se espalha, causando o aumento do fígado, baço e linfonodos e dano a outros órgãos. Por isso todo cuidado é pouco.
Entre as 181 espécies de morcegos brasileiros, apenas três são “vampiros”. O termo científico é hematófago, ou seja, que se alimenta de sangue. Apesar do nome, o Vampyrum spectrum não é um morcego hematófago. A espécie é carnívora, sua dieta inclui aves, roedores e até mesmo outros morcegos, eventualmente também insetos e frutos.
Habitante de áreas de floresta bem preservadas desde o México até a Amazônia e Pantanal, o morcego-fantasma-gigante se refugia durante o dia em ocos de grandes árvores. Vivem em pequenos grupos familiares, compostos geralmente por um casal e seus filhotes ainda jovens. O casal costuma ser monogâmico e se reveza nos cuidados com os filhotes. Algumas observações apontam que os machos frequentemente envolvem a fêmea e o filhote com as asas, como se estivesse os abraçando. Um gigante protetor e injustiçado.
Muita gente já arregala o olho só de ouvir a palavra morcego. Eu também era assim até entrevistar biólogos e especialistas no assunto e estudar mais sobre a espécie. A antipatia e o medo por estes mamíferos curiosos e intrigantes se deve, em grande parte, pelo desconhecimento sobre eles. Espero com esta publicação ter mostrado um pouco do quanto eles ajudam o ecossistema.
Fotos: Alexander Kellner, US-Government, Hendra Xu e Lovely Bird / Shutterstock.com e Patrício Adriano da Rocha
