
Hoje celebramos o Dia Nacional da Consciência Negra. Uma data que relembra a força de Zumbi dos Palmares, ícone da resistência e da busca por justiça. Zumbi, que dedicou sua existência à construção de um sonho coletivo de emancipação, nos lembra que a trajetória do Brasil está marcada pela coração, determinação e pelo sacrifício de um povo.
A data enfatiza a relevância de reconhecer e valorizar as raízes, a ancestralidade e a história da população afrodescendente no Brasil. É um convite à reflexão sobre a luta por igualdade e respeito, honrando o passado e valorizando a contribuição da comunidade negra na formação do Estado brasileiro, a fim de construir um futuro de respeito, justiça e equidade para todos. Afinal, somos filhos de uma mesma raiz.
Consciência negra é a valorização da identidade, cultura e história das pessoas negras. O dia 20 de novembro faz referência ao dia em que Zumbi dos Palmares foi morto.
Zumbi nasceu no início de 1655, em uma das aldeias do Quilombo de Palmares, que fica na Serra da Barriga, em Alagoas – e à época fazia parte da Capitania de Pernambuco. Os quilombos eram espaços de liberdade e resistência criados para abrigar pessoas escravizadas.
Com poucos dias de vida, Zumbi foi capturado por soldados portugueses e entregue ao padre Antônio Melo, que o batizou com o nome de Francisco. O padre ensinou Zumbi a ler e escrever em português e latim.
Quando Zumbi tinha 15 anos, fugiu e voltou para o Quilombo de Palmares, abandonando seu nome cristão Francisco. Ele se tornou um guerreiro e estrategista militar na luta para defender Palmares contra os soldados portugueses.
Em 1678, Ganga-Zumba, então chefe do quilombo, morreu após a tentativa de um acordo de paz com o governo de Pernambuco, e Zumbi se transformou no grande chefe.
Durante os anos de 1680 a 1691, Zumbi conseguiu derrotar todas as expedições enviadas contra o Quilombo dos Palmares. Ele só foi capturado no dia 20 de novembro de 1695, quando foi traído por um dos seus comandantes, Antônio Soares. Zumbi foi morto, esquartejado e teve a sua cabeça exposta em praça pública na cidade de Olinda, em Pernambuco.
Em Brasília, o líder negro de todas as raças é reverenciado no coração da capital. O busto de um homem negro que lutou pela libertação dos escravizados: Zumbi dos Palmares, está exposto no coração de Brasília. A escultura localizada na praça que leva o mesmo nome, em frente ao CONIC, nos convoca a pensar na memória negra do Distrito Federal.
A homenagem foi idealizada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) para demarcar um espaço de encontro do movimento negro em Brasília. Foi inaugurado em 1995, ano do tricentenário da morte de Zumbi.
Povo quilombola ocupou Brasília antes da chegada de Juscelino Kubitschek e ajudou a erguer capital. A comunidade quilombola ocupava parte do território onde foi construída a capital do país. O Quilombo Mesquita, formado há cerca de 270 anos, resistiu ao longo do tempo e hoje luta por preservação de identidade, a 45 km do centro do poder.
A pesquisadora Antônia Samir, que é filha de pai quilombola e autora do livro “O Quilombo que gerou Brasília”, diz que as terras do povo de Mesquita foram desconsideradas no processo de demarcação do Distrito Federal.
Quilombola é um termo usado para identificar aqueles “remanescentes de comunidades dos quilombos”. Os quilombos eram espaços de liberdade e resistência criados para abrigar pessoas escravizadas.
O fotógrafo Wallison Braga, de 27 anos, líder comunitário no Quilombo Mesquita e membro da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (CONAQ), a história do seu povo foi tirada da narrativa da construção de Brasília.
“A primeira comunidade a acolher Juscelino [Kubitschek] foi o Quilombo Mesquita. O Catetinho, que foi uma das primeiras construções, tem mãos quilombolas”, diz Wallison.
Wallison Braga nasceu no Quilombo Mesquita. Ele conta que o povoado mantém atividades tradicionais, como a produção de marmelo, que vem desde a época da colonização. Também há festas ancestrais, como a Folia Nossa Senhora de Abadia.
Wallison conta ainda que os saberes dos mais velhos são sempre passados aos mais novos. Ele lembra que, quando era criança, seus avós contavam sobre como o povo de Mesquita ajudou a erguer Brasília.
Wallison explica que quando entrou na universidade assumiu um compromisso: “Levar a minha a história e do meu povo. Eu faço isso através da fotografia”.
A historiadora Cristiane Assis Portela, da Universidade de Brasília, diz que o povoado do Mesquita fica na região onde atualmente está na Cidade Ocidental, em Goiás, no Entorno do DF. Com pouco mais de 2 mil habitantes, o quilombo comporta descendentes de escravizados trazidos na época da mineração para a antiga cidade de Santa Luzia, hoje Luziânia, em meados do século 18.
Com o processo de esgotamento das minas de ouro no território goiano, os proprietários de terra da região começaram a migrar para outros locais. As terras abandonadas acabaram sendo adquiridas por pessoas que haviam sido escravizadas.
Um desses territórios é onde está localizado o Distrito Federal, explica a historiadora. “A gente tem então uma ocupação dessas terras pelos quilombolas do Mesquita”, diz.
“Sem dúvida, o que nós temos não é um vazio na região do Planalto Central antes da construção de Brasília. O que nós temos, e podemos afirmar dessa forma, é um imaginário ideologicamente construído de vazio”, afirma a professora da UnB.
Está registrado nos relatórios da Fundação Palmares que o quilombo Mesquita nasceu quando três escravas herdaram parte das terras do fazendeiro José Correia de Mesquita. Libertas do regime escravocrata, elas permaneceram no local, onde formaram suas famílias e mantiveram as tradições da cultura negra.
Como surgiu a celebração do Dia da Consciência Negra
- O Dia da Consciência Negra foi idealizado em 1971, pela mobilização de um grupo de jovens estudantes negros do Rio Grande do Sul, o Grupo Palmares;
- Em 2003, o presidente Lula lei federal que considera o 20 de novembro como “Dia Nacional da Consciência Negra” no calendário escolar. A lei também tornou obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas;
- A celebração do “Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra” em todo o país foi oficializada em 2011, pela então presidenta Dilma Rousseff, por meio de lei federal.
- O presidente Lula sancionou lei federal de 2023 que transformou o 20 de novembro em feriado nacional.
Fotos: Wallison Braga e Reprodução do Acervo do Museu Antonio Parreiras
