
A Academia de Cinema anunciou os indicados ao Oscar 2025 nesta quinta-feira, 23 de janeiro, e o brasileiro “Ainda Estou Aqui” conseguiu conquistar três nomeações. A premiação é considerada a mais importante da indústria cinematográfica no mundo e está programada para ocorrer em 2 de março. O evento será exibido no Brasil a partir das 21h pela TNT e pela Max.
O anúncio foi feito durante uma transmissão online apresentada por Bowen Yang (“Wicked” e esquetes do Saturday Night Live) e Rachel Sennott (“Shiva Baby”).
As indicações de “Ainda Estou Aqui” no Oscar 2025 são:
- Melhor Filme Internacional
- Melhor Atriz, com Fernanda Torres
- Melhor Filme
Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, conta a história da família Paiva sob o ponto de vista de Eunice (Fernanda Torres/Fernanda Montenegro), mãe que teve de assumir o cuidado dos cinco filhos e a luta por justiça depois que o marido, o deputado Rubens Paiva (Selton Mello), foi torturado e morto pela ditadura militar, em janeiro de 1971.
Baseado no livro de memórias homônimo de Marcelo Rubens Paiva, único filho homem do casal, a trama é bem fiel à realidade. Rubens foi de fato dirigindo o próprio carro para o depoimento do qual nunca voltou. Eunice e a filha Eliana, de apenas 15 anos, foram levadas encapuzadas para as dependências do Exército; a casa da família passou dias ocupada por militares; um policial realmente disse a Eunice, pouco antes de libertá-la do DOI-Codi, que não concordava com o que acontecia ali.
Rubens Paiva, um pai raptado de dentro de casa, arrancado da sua família, pelo estado brasileiro. Subtraído da companhia da mulher, Eunice, e dos cinco filhos, que viram o pai desaparecer diante dos seus olhos, sem saber que jamais o veriam novamente, quando tinham entre 9 e 16 anos.
Começava ali a jornada de uma esposa e mãe desafiada pela tragédia. Um homem que teve sua vida sumariamente terminada, de forma clandestina e covarde nos porões no Destacamento de Operações de Informações (DOI) do I Exército, na Rua Barão de Mesquita, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, menos de um mês depois de completar 41 anos. A morte de Rubens Paiva foi negada, escamoteada, mentida, por sucessivos governos brasileiros, ao longo de 25 anos . A certidão de óbito só foi expedida em 1996, um quarto de século depois do seu assassinato, graças à luta de uma vida inteira de Eunice.
No Filme “Ainda Estou Aqui”, Walter Salles deixou que os fatos falassem por si, as sutilezas se revelassem com força, e as verdades emergissem ao natural. Ele dá uma aula sobre como contar bem
O filme é imenso pela atuação de Fernanda Torres, de Selton Mello, a direção de Walter Salles, o roteiro de Murilo Hauser e Heitor Lorega. Sem falar da participação impecável de Fernanda Montenegro e com trilha sonora que reapresenta pérolas de Erasmo Carlos, Tom Zé e Juca Chaves.
Parabéns à toda produção e elenco. Viva a cultura e a sétima arte. Obrigada Walter Salles por investir e acreditar no Brasil e apresentar na tela os princípios mais básicos de decência e humanidade. É o cinema brasileiro resgatando a memória do nosso país e fazendo história no cinema internacional ao disputar a indicação de melhor filme do Oscar. O “Ainda Estou Aqui” é um abraço à Democracia.
O filme mostra o Brasil da Eunice, do Rubens, do Marcelo. E da Fernanda, do Selton, do Walter. E de tanta gente boa, que não se rendeu, que não desistiu, que continua na luta por mais humanidade, espalhando o bem e respeitando o semelhante. Um país que resiste ao ódio, a insensibilidade, ao egoísmo, a irracionalidade, gente incensando o absurdo e vibrando com o caos e usando mentiras como estratégia.
A indicação a Melhor Filme Internacional ocorre 26 anos após “Central do Brasil” disputar a categoria na premiação, em 1999. Já a categoria de Melhor Atriz indicou uma brasileira no mesmo ano: Fernanda Montenegro, mãe de Torres. É a história se repetindo.
Esta é a primeira vez que o Brasil é indicado na categoria de Melhor Filme. Com isso, a obra brasileira “Ainda Estou Aqui” faz história no cinema nacional principalmente pelo belíssimo papel de Fernanda Torres como Eunice Paiva. A indicação já enche o coração dos brasileiros de alegria.
Fernanda Montenegro, após a divulgação, disse em suas redes sociais: “Eu, Fernanda Montenegro e Fernando Torres, – onde quer que ele esteja – estamos felizes e realizados, em estado de Aleluia, pelas indicações de Fernanda Torres e Walter Salles ao importante prêmio do Oscar. Um ganho cultural para o Brasil. meu coração de mãe está em estado de Graça”.
Selton Melo e parte do elenco vibraram com as indicações. Selton interpreta Rubens Paiva, marido de Eunice Paiva, na produção. Ele publicou uma foto ao lado dos colegas Fernanda Tores e do diretor Walter Salles. “Nosso país precisava desse filme, o mundo todo precisava desse filme”, escreveu o ator.
“Fizemos um filme. Ele nasceu vitorioso por motivos variados: por lembrar o que jamais pode ser esquecido, por comover com uma beleza austera, por encher as salas de cinema de novo, por levar nossa sensibilidade para o mundo, por recuperar nossa autoestima cultural, por abrir tantas portas para outros que virão, por restaurar o amor pelo cinema brasileiro, por ter criado algo emocionalmente poderoso, por alcançar o raro equilíbrio entre estética e ética, por ser sublime em sua justa simplicidade”, escreveu
Selton, no Instagram.
A imprensa internacional repercutiu as indicações de “Ainda Estou Aqui” no Oscar 2025. “Ela está excelente no drama de época de Walter Salles, interpretando uma mulher desafiadora que mantém sua família unida depois que um regime repressivo leva seu marido embora. Suspeito que a vaga final na concorrida categoria de atriz principal ficou entre Torres e Marianne Jean-Baptiste em ‘Hard Truths’. Os eleitores foram com Torres e o filme mais acessível”, destacou o LA Times.
Britânico The Guardian citou “surpresas” na lista de indicados a melhor atriz. “Agora, Demi Moore se torna a favorita na categoria. Tanto ela quanto Karla Sofía Gascón, que atua em ‘Emilia Pérez’, vão enfrentar Cynthia Erivo por ‘Wicked’, Mikey Madison por ‘Anora’ e Fernanda Torres, que protagoniza a história real dirigida por Walter Salles, em ‘Ainda Estou Aqui”.
O Brasil estreou na premiação em 1944, mas nunca levou uma estatueta no Oscar. Ary Barroso foi o primeiro brasileiro indicado ao Oscar.
Fotos: Reprodução/ Sony Pictures Brasil
