
O uso frequente de maconha danifica a memória de trabalho do cérebro, o que pode levar a problemas com segurança, comunicações e sucesso no trabalho, diz um estudo realizado pela Escola de Medicina Anschutz da Universidade do Colorado em Aurora, Colorado.
Os pesquisadores descobriram que o uso frequente de cannabis reduziu a atividade cerebral em certas áreas do cérebro responsáveis pela tomada de decisão, memória, atenção e processamento emocional. No entanto, o único teste que alcançou significância estatística foi a memória de trabalho, como lembrar uma lista de compras ou seguir instruções verbais.
“A memória de trabalho é a capacidade de reter informações por um curto período de tempo e utilizá-las”, disse o autor principal do estudo, Joshua Gowin, professor assistente de radiologia na Escola de Medicina Anschutz.
O novo estudo observacional, com mais de mil participantes foi publicado nesta terça-feira 28 de janeiro no periódico JAMA Network Open. A pesquisa mostra que usuários frequentes de cannabis apresentam redução significativa na atividade cerebral relacionada à memória de trabalho.
“Um exemplo é verificar o ponto cego ao dirigir na estrada”, disse o professor Gowin. “Quando você olha de volta para frente, precisa lembrar o que viu no ponto cego antes de poder tomar uma boa decisão se quer mudar de faixa ou não”.
“Quando você está no meio de uma conversa com seu chefe, precisa lembrar o que ele disse por tempo suficiente para responder. Perder a memória de trabalho significa que reter essa informação pode exigir mais esforço e ser mais desafiador”, diz Joshua.
O estudo analisou dados do Human Connctome Project, que reúne dados brutos de estudos que focam em como idade, desenvolvimento, doença e outros fatores impactam o cérebro. No que os pesquisadores estão chamando de maior conjunto de dados usado para estudar cannabis e função cerebral, mais de 1.000 ex-usuários ou usuários atuais de cannabis foram submetidos a exames cerebrais enquanto completavam sete diferentes tipos de testes cognitivos entre 2012 e 2015.
Esses testes mediram sua memória de trabalho, como eles usavam emoção e recompensas em seu pensamento, e como o cérebro respondia à linguagem. Além disso, os pesquisadores testaram como o cérebro lidava com habilidades motoras, bem como a maneira que o cérebro de cada pessoa respondia aos outros em um ambiente social.
Os participantes do estudo, que tinham entre 22 e 36 anos de idade, forneceram amostras de urina no dia do teste para avaliar o uso recente. O tetra-hidrocanabinol, ou THC, que é o que fornece a euforia associada ao uso de cannabis, pode ser detectado “por até 2 semanas no usuário casual e possivelmente mais tempo no usuário crônico”, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA.
Indivíduos foram considerados usuários pesados de cannabis se tivessem usado maconha mais de 1.000 vezes em suas vidas; usuários moderados se tivessem usado entre 10 e 999 vezes; e não usuários se o uso fosse menor que 10 vezes.
Os pesquisadores descobriram que 63% dos usuários pesados de cannabis ao longo da vida exibiram atividade cerebral reduzida durante uma tarefa de memória de trabalho, enquanto 68% das pessoas que testaram positivo para uso recente de cannabis também demonstraram um impacto similar. “No entanto, quando comparamos usuários recentes e crônicos de cannabis lado a lado, descobrimos que o uso crônico parecia ser mais importante do que o uso recente quando se tratava de problemas com a memória de trabalho”, disse Gowin. “A redução na ativação cerebral para usuários pesados em relação a não usuários foi de aproximadamente 14%”, afirmou.
O estudo não identificou o período do uso pesado de cannabis — será que todos os 1.000 usos ocorreram quando alguém estava no início dos 20 anos e depois se absteve por 10 anos? Ou teriam se tornado usuários pesados recentemente?
“Mesmo que um usuário crônico tenha parado de usar, ainda apresentava declínio cognitivo na memória de trabalho”, disse ele. “Então, não parecia estar relacionado ao uso recente, mas sim ao uso crônico ao longo da vida.”
“E certamente fumar ou inalar cannabis significa que ela atravessa a barreira sangue-cérebro mais rapidamente do que se você consumir um comestível”, disse Gowin.
Especialistas asseguram que o uso frequente da maconha, sobretudo na adolescência, pode afetar a memória, a concentração e outras funções cerebrais. De acordo com o psiquiatra e professor da USP Jaime Hallak, o uso da substância pode causar transtornos mentais.
“Além das psicoses, sabemos hoje que a maconha pode provocar quadros de ansiedade, como o transtorno de pânico; prejuízo na memória e na coordenação motora e julgamento alterado”, disse, ao Jornal da Universidade.
É claro que esses problemas causados pela maconha dependem da frequência, intensidade e idade de início do uso da mesma, além de fatores genéticos e ambientais, lembra o professor.
As evidências científicas dessa história não são nem um pouco tímidas. Uma prova incontestável de que o cérebro adolescente é realmente mais sensível aos efeitos tóxicos da maconha é o estudo publicado pela revista Brain em que foram demonstradas alterações microestruturais que reduzem a eficiência das conexões cerebrais entre usuários crônicos de maconha. Mais uma vez, as perdas foram maiores naqueles que começaram a fumar já no início da adolescência.
Fotos: Reprodução e Elsa Olofsson/Unsplash
