
A escritora Ana Maria Gonçalves, de 55 anos, tomou posse na noite de sexta-feira (7/11), como a primeira mulher negra a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL). A escritora mineira passa a ocupar a Cadeira 33, ocupada anteriormente pelo gramático Evanildo Bechara, que faleceu em maio deste ano.
Ana Maria Gonçalves foi conduzida pelas imortais: Fernanda Montenegro, Rosiska Darcy de Oliveira e Miriam Leitão e foi aplaudida intensamente.
Autora do romance histórico Um defeito de cor, Ana Maria tornou-se a 13ª mulher a ocupar uma cadeira na instituição fundada em 1897. A mais nova acadêmica recebeu o diploma das mãos de Gilberto Gil e o colar acadêmico foi entregue por Ana Maria Machado.
A apresentação da nova imortal foi feita por Lilia Schwarcz, quinta ocupante da cadeira nº 9, eleita em 2024. A historiadora destacou o impacto de Um defeito de cor e fez um paralelo entre passado e presente, ao lembrar as recentes operações policiais nas comunidades do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro.
“As mães que hoje choram seus filhos nas favelas do Rio são ecos das mulheres que, no tempo da escravidão, também perderam os seus. Ana Maria traz essas vozes para dentro da literatura e, agora, para dentro da Academia.”
“Que você entre nessa ABL trazendo toda uma diáspora negra, africana e afro-brasileira, que fez da ficção literária uma forma de memória, cobrindo lacunas dessa história ainda tão ocidental e masculina, presente nessa e em outras instituições. Que você chegue abrindo as portas e nos ajude a imaginar um país mais digno para todas e todos nós”, disse a imortal Lilia Schwarcz em seu discurso de recepção.
“Traga, por favor, Ana, o sopro nos ouvidos que recebeu de Kehinde, a força e a coragem dela, que também são suas. Passado e presente marcam o encontro nessa tua literatura, Ana, que refaz a sina de um matriarcado e carrega a voz das ancestralidades femininas. Conforme menciona Kehinde, a memória é mesmo o mais generoso dos retratistas. Embala Eu, de Clara Nunes e Clementina de Jesus, é indo o que a própria Ana recomenda na trilha sonora que incluiu no final do livro. Que você seja muito feliz por aqui na ABL, pois como diz Juliana Borges, ‘Uma Mulher Negra Feliz é Um Ato Revolucionário'”, completou a saudação.
Ana Maria Gonçalves, emocionada, evocou suas raízes e à ancestralidade, agradeceu às mulheres negras que abriram caminhos e destacou a responsabilidade de ocupar um espaço que, por muito tempo, excluiu vozes como a dela. “Benção, mãe. Benção, pai.” Foi com essa saudação, e após palmas emocionadas, que a escritora Ana Maria Gonçalves iniciou seu discurso de posse.
Autora do romance histórico Um defeito de cor, Ana Maria tornou-se a 13ª mulher a ocupar uma cadeira na instituição fundada em 1897 e a primeira mulher negra eleita para o quadro de imortais. Em um discurso comovente e contundente, celebrou sua chegada à Casa de Machado de Assis e dedicou o momento à memória dos que vieram antes. “Agradeço à minha ancestralidade, fonte inesgotável de conforto, fé, paciência e sabedoria.”
A escritora também resgatou a história da exclusão feminina na Academia. “A não admissão de mulheres foi inicialmente um acordo entre cavalheiros, já que não havia nada impeditivo no estatuto”, lembrou, referindo-se à candidatura vetada da escritora Amélia Beviláqua, em 1930.
“Depois do apagamento de Júlia Lopes de Almeida, das candidaturas negadas de Amélia Beviláqua e Diná Silveira de Queiroz, viemos nós: Raquel, Lygia, Nélida, Zélia, Ana, Cleonice, Rosiska, Fernanda, Lília, Miriam e eu. Ainda somos poucas para tanto trabalho de reconstrução do imaginário sobre o que representamos.”
“Durante muito tempo, o acadêmico Domício Proença foi o único negro na Academia Brasileira de Letras. E durante muito mais tempo ainda, a negritude de Machado lhe foi negada.” A escritora reconheceu o papel das candidaturas de Conceição Evaristo e Ailton Krenak no debate sobre diversidade: “A discussão em torno da candidatura de Conceição Evaristo, em 2018, contribuiu para que eu esteja aqui hoje. Fez com que a Academia se olhasse no espelho e percebesse o quanto ainda falhava em representar todas as línguas faladas pelo nosso povo.”
Ana Maria assumiu um compromisso com a diversidade e a abertura da Casa: “Cá estou eu, 128 anos depois de sua fundação, como a primeira escritora negra eleita para a Academia Brasileira de Letras, falando português e escrevendo a partir de noções de oralidade e escrevivência. Assumo como missão promover a diversidade nesta Casa, abrir suas portas ao público — verdadeiro dono da língua — e ampliar o empenho na divulgação e promoção da literatura brasileira.”
“Saber-se negra é viver a experiência de ter sido massacrada em sua identidade, mas também a experiência de comprometer-se a resgatar sua história e recriar-se em suas potencialidades e venho trabalhar para que não sejamos empobrecidos pela contação de uma história única”, declarou a mais nova imortal da ABL.
A cerimônia, no tradicional Petit Trianon, no Centro do Rio de Janeiro, uniu gerações de personalidades, artistas e intelectuais comprometidos com a diversidade e a cultura brasileira. dentre as presenças especiais Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, Afrânio Vilela, ministro do Superior Tribunal de Justiça, a escritora e professora Conceição Evaristo, o ator, diretor e escritor Lázaro Ramos, atriz Regina Casé entre outras importantes presenças.
A comissão de saída da cerimônia de posse da acedêmica Ana Maria Gonçalves, foi formada pelos acadêmicos Domício Proença Filho, Geraldo Carneiro e Eduardo Giannetti.
O fardão da escritora, agora imortal da ABL, foi confeccionado por profissionais de costura e adereço da Portela, que a homenageou em 2024, e foi adaptado ao seu estilo pessoal. Tradicionalmente a veste é uma calça e casaca feminina, mas ela optou por um vestido longo. Ela se inspirou no modelo de vestido usado por Rachel de Queiroz quando tomou posse na instituição, em 1977, e se tornou a primeira mulher membro da instituição e imortal.
Fotos: Academia Brasileira de Letras/Dani Paiva e André Feltes
