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“Moradia não é privilégio, mas condição básica para cidadania”, afirma CNBB

Bernadete Alves

A Campanha da Fraternidade 2026 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), lança uma reflexão sobre o estado atual da habitação no país. Dados oficiais apontam que, embora haja avanços estatísticos, milhões de brasileiros ainda enfrentam condições precárias de vida.

A Campanha da Fraternidade deste ano reflete sobre a grave realidade da falta de moradias que afeta milhões de famílias no Brasil. Fato que sensibilizou o Papa Leão XIV ao encaminhar mensagem para os brasileiros que foi lida pelo secretário-executivo de Campanhas, padre Jean Poul Hansen, no início da cerimônia. O Pontífice expressou seu desejo de que a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradias gere a consciência sobre a necessidade da partilha.

“Moradia não é privilégio, mas condição básica para cidadania”, afirma CNBB

Na campanha de 2026, o convite é voltar o olhar para quem sofre com a falta de moradia digna, pontua o Papa. “Desejo que as iniciativas nascidas a partir da Campanha da Fraternidade possam inspirar as autoridades governamentais a promover políticas públicas, a fim de que, trabalhando todos em conjunto, seja possível oferecer à população mais carente melhorias significativas nas condições de habitação.”.

“O meu santo predecessor, São João Paulo II, convidava a voltar a atenção «para os milhões de seres humanos privados de uma habitação conveniente, ou até mesmo sem qualquer habitação, a fim de despertar a consciência de todos e encontrar uma solução para este grave problema, que tem consequências negativas no plano individual, familiar e social», afirmando que «a falta de habitações, que é um problema de per si muito grave, deve ser considerada como o sinal e a síntese de uma série de insuficiências econômicas, sociais, culturais ou simplesmente humanas» (Sollicitudo Rei Socialis, 17)”.

“Neste sentido, é meu desejo que a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradia digna, que afeta tantos irmãos nossos, leve não somente a ações isoladas sem dúvida, necessárias — que venham de modo emergencial em seu auxílio, mas gere em todos a consciência de que a partilha dos dons que o Senhor generosamente nos concede não pode restringir-se a um período do ano, a uma campanha ou a algumas ações pontuais, mas deve ser uma atitude constante, que nos compromete a ir ao encontro de Cristo presente naqueles que não tem onde morar.”

“Desejo igualmente, queridos irmãos e irmãs, que as iniciativas nascidas a partir da Campanha da Fraternidade possam inspirar as autoridades governamentais a promover políticas públicas, a fim de que, trabalhando todos em conjunto, seja possível oferecer à população mais carente melhorias significativas nas condições de habitação.”

“Confio estes votos aos cuidados de Nossa Senhora, que não encontrou morada em Belém para dar à luz ao Redentor, mas que tem sua casa, como Rainha e Padroeira do Brasil, no Santuário Nacional de Aparecida. E, como penhor de abundantes graças, concedo de bom grado aos filhos e filhas da querida nação brasileira, de modo especial àqueles que se empenham para que todos tenham moradia digna, a Bênção Apostólica”, diz o Pontífice.

Dom Ricardo Hoerpers, secretário-geral da CNBB, na abertura da Campanha da Fraternidade 2026

A Campanha da Fraternidade é promovida há mais de 60 anos no Brasil e, em 2026, reforça que a moradia segura não é um privilégio, mas uma condição básica para a cidadania. O secretário-geral da CNBB, Dom Ricardo Hoerpers destacou que o Brasil enfrenta uma grave crise habitacional que afeta 6,4 milhões de famílias. E afirmou que não se tratam apenas de números, mas de rostos, de vidas marcadas pela insegurança, pela precariedade e exclusão.

“Nossa conversão começa com a consciência de que isso não é natural. Não podemos naturalizar que alguém viva sem teto e aceitar que crianças cresçam em áreas de risco. Não podemos considerar inevitável que a desigualdade determine quem tem direito a morar com dignidade. A moradia não é privilégio”, disse o secretário-geral da CNBB.

Dom Ricardo ressalta que as políticas públicas habitacionais são deveres do Estado e não concessões. “A política é a forma mais excelente da caridade. (…) Nós devemos também fazer ações sociopolíticas em todos os âmbitos de governo e da sociedade, no município, no estado, na nação. O Brasil espera de nós ações que promovam políticas públicas de habitação em todos os âmbitos”.  

Campanha da Fraternidade 2026 prioriza a moradia como um direito digno para todos

O secretário-executivo de Campanhas, padre Jean Poul Hansen, disse durante a coletiva de imprensa que enxerga a iniciativa dessa Campanha com admiração pela Igreja que, há mais de 60 anos, tem a coragem de pautar anualmente um tema necessário e urgente para a sociedade brasileira. “A questão da moradia, embora inviabilizada, é urgente para a dignidade humana dos cidadãos e das cidadãs brasileiras, visto que é um elemento necessário para o seu desenvolvimento integral. E, mesmo sendo um direito previsto no art. 6 da Constituição Federal, não é garantido a todas as pessoas”.

Ao final da cerimônia, o secretário-geral da CNBB, Dom Ricardo Hoepers, convidou o subsecretário-geral, Padre Leandro Megeto, e o diretor geral da Edições CNBB, Monsenhor Jamil Alves de Souza, para fixar o quadro com o cartaz da CF 2026 na galeria das Campanhas da Fraternidade, localizada no corredor externo ao auditório, marcando oficialmente sua integração à memória histórica da iniciativa.

Os participantes também visitaram a exposição “Caminhos da Fraternidade”, com projetos apoiados pelo Fundo Nacional da Solidariedade nos últimos três anos. A mostra apresentou dados sobre os recursos arrecadados e iniciativas financiadas, evidenciando os frutos concretos da Campanha.

A visita foi acompanhada por cantos que marcaram a história das Campanhas da Fraternidade, conduzidos pelo assessor do Setor de Música Litúrgica da CNBB, Padre Jair Oliveira.

Com o lançamento da CF 2026, a CNBB reafirma o compromisso da Igreja no Brasil com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna, onde todos tenham acesso à terra, teto e trabalho- sinais visíveis do Deus que “veio morar entre nós”.

Fotos: Francisco Coelho/CNBB

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