Lilia Schwarcz é eleita para a ABL e se torna 11ª mulher a ganhar título de imortal

A antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, 66, foi eleita no dia 7, véspera do Dia Internacional das Mulheres, para a cadeira número nove da Academia Brasileira de Letras, a ABL. Escolhida por 24 dos 38 acadêmicos aptos a participar da votação, ela é a 11ª mulher a integrar a organização desde a sua fundação, 127 anos atrás.
Além de ter escrito mais de 30 livros, Schwarcz é professora sênior do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, a USP, é professora convidada na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e é membro do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Iphan, e do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da República.
Lilia Schwarcz venceu pelo menos cinco vezes o Jabuti e é autora de livros como “As Barbas do Imperador”, “Lima Barreto – Triste Visionário”, “Dicionário da Escravidão e da Liberdade”, com Flávio dos Santos Gomes, e “Brasil: Uma Biografia”, com Heloisa Starling, além de ser uma das fundadoras da editora Companhia das Letras.

A vaga havia sido aberta em dezembro de 2023, quando morreu, aos 92 anos, o também historiador Alberto da Costa e Silva, um dos maiores especialistas em cultura africana do país. Ele ocupava a Cadeira 9.
O fato de a cadeira ter pertencido a ele foi um dos fatores que levou Schwarcz a se candidatar em primeiro lugar. Em entrevista após a votação, Lilia afirmou que esta foi a maneira que encontrou para “honrar seu pai intelectual”, que como ela se dedicou a pensar a desigualdade racial no país. “Se eu puder, quero seguir os passos dele.”

“Alberto era meu pai afetivo, meu pai emocional, meu pai intelectual. Eu herdei dele essa paixão pela equidade, essa ideia de que o Brasil é um país muito desigual, tanto no critério mulheres como no critério racial propriamente dito”, diz Lilia.
Costa e Silva, que ainda atuou como diplomata, deixou como legado estudos como “A Enxada e a Lança: a África Antes dos Portugueses”, de 1992, e “A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700”, de 2002.

Há uma tradição na ABL de preencher cadeiras vagas com nomes cujo perfil sejam de alguma maneira similares aos de seus antecessores. O alinhamento de interesses entre Costa e Silva e Schwarcz foi destacado pelo atual presidente da academia, o jornalista Merval Pereira, após a divulgação do resultado da votação.
“É importante que a gente mantenha a nossa tradição de ter os maiores historiadores brasileiros aqui. Nós já temos vários deles, e a Lilia é uma grande historiadora que vai render bons frutos aqui para a academia”, disse Merval Pereira, presidente da Academia Brasileira de Letras.

A eleição de Lilia Schwarcz, ocorrida na véspera do Dia Internacional da Mulher, é também uma resposta a uma demanda cada vez mais premente na ABL, de uma maior representatividade feminina.
A instituição fundada em 1897 por Machado de Assis previa até pelo menos os anos 1970 que apenas “brasileiros”, no masculino, podiam se candidatar a suas 40 vagas, e só foi aceitar uma mulher entre seus membros em 1977, quando a escritora Rachel de Queiroz foi eleita.

Desde 2000, a eleição de mulheres tem sido mais frequente, ainda que sua presença na instituição seja irrisória em relação a de homens. Hoje, quatro mulheres —Rosiska Darcy de Oliveira, Ana Maria Machado, Fernanda Montenegro e Heloisa Teixeira— integram a academia, ante 35 homens. Schwarcz será a quinta.
O jornalista Merval Pereira, presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), já deu a primeira missão à nova integrante da casa: a historiadora Lília Katri Moritz Schwarcz. Ela vai ficar à frente da iconografia de Machado de Assis – ou seja, o percurso visual de sua vida e obra, reunião de imagens relativas ao escritor feita até hoje -, que começou a ser produzida pelo também acadêmico e historiador José Murilo de Carvalho (1939-2023), cuja vaga foi preenchida pelo indígena Ailton Krenak.

Após a votação na sede da ABL, no Centro do Rio de Janeiro, foram comemorar a nova imortal no apartamento da artista plástica Adriana Varejão e do produtor de cinema Pedro Buarque de Hollanda, na Avenida Atlântica, em frente ao mar de Copacabana. Pedro é filho da escritora e imortal Heloísa Buarque de Hollanda.
Lilia Schwarcz ficou feliz com a recepção e o convívio com a intelectualidade carioca.

Fotos: Reprodução













