Dia Nacional do Bioma Pampa chama atenção para o desaparecimento da fauna e flora

O Bioma Pampa representa mais de 68% da área total do Rio Grande do Sul. É um bioma que contém grande biodiversidade, apresentando inclusive inúmeras espécies endêmicas, sendo assim importante fonte de recursos genéticos. Além disso, essa biodiversidade é responsável por inúmeros serviços ecossistêmicos, como: purificação das águas, controle da erosão do solo, estocagem de carbono, reposição de sua fertilidade e controle de pragas agrícolas.
Mesmo com toda esta importância os Pampas só foram reconhecidos como bioma brasileiro em 2004, quando o IBGE e o Ministério do Meio Ambiente (MMA) definiram o Mapa de Biomas Brasileiros. Infelizmente, é o menos protegido do país.

Segundo estudo da MapBiomas Pampa o bioma sofre com o rápido desaparecimento de sua fauna e flora. Entre 1985 e 2022, este bioma que só há no RS, perdeu 2,9 milhões de hectares. A perda corresponde a 58 vezes a área da capital Porto Alegre, o que representa uma redução de 32% da área que existia em 1985.
Neste domingo, 17 de dezembro, Dia Nacional do Bioma Pampa, tem-se muito pouco a comemorar, alertam os especialistas. O avanço da monocultura de grãos e a silvicultura são as principais ameaças às áreas de vegetação campestre, com pouco mais de um metro de altura.

A palavra Pampa é de origem indígena quíchua e significa região plana. O termo descreve bem a paisagem de campos naturais de gramíneas, também conhecida como Campos do Sul ou Campos Sulinos, e que, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), ocupa, no Brasil, uma área de 178 mil quilômetros quadrados.

Localizado no extremo Sul do país com clima subtropical com estações definidas: quente no verão e apresenta um inverno rigoroso. Em casos extremos, o termômetro pode atingir 40°C no verão e descer a 0°C no inverno. Nos meses mais frios, sopra o minuano (ou pampeiro), um vento gelado e seco que vem da Argentina. As chuvas se distribuem com regularidade ao longo do ano. As secas prolongadas são raras.

O Pampa se caracteriza por apresentar um relevo pouco acidentado, e sua vegetação é composta por plantas herbáceas, arbustos e árvores de pequeno porte, como o capim-forquilha, o trevo-nativo e o algarrobo. São cerca de 3 mil espécies de plantas, sendo 450 delas espécies de gramíneas; 70 tipos de cactos; 100 tipos de árvores e 150 espécies de leguminosas.

Nos pampas há grande variedade de insetos e de pequenos animais, o que favorece o crescimento dos pássaros, sendo assim considerada uma das regiões do planeta onde a fauna de pássaros está mais conservada.

Dentre os animais que vivem no Pampa, estão: jacu, saíra, macuco, jacutinga, corruíra-do-campo, papa-mosca-do-campo, quero-quero, joão-de-barro, sabiá-do-campo, pica-pau do campo, pica-pau-chorão, beija-flor-de-barba-azul, caboclinho-de-barriga-verde, perdigão, perdiz, gavião-chimango, caminheiro-de-espora, gaturamo-verdadeiro, tiê-sangue, araponga, sanhaço, ema, ratão-do-banhado, capivara, tatu-mulita, veado campeiro, lobo guará, graxaim, zorrilho, furão, preá, tuco-tuco, sapinho-de-barriga-vermelha, dentre outros.

A fauna do Pampa é extensa, com espécies raras de animais do qual possui uma grande variedade de aves, mamíferos, artrópodes, répteis e anfíbios. É composta por 102 espécies de mamíferos, 476 espécies de aves, 50 espécies de anfíbios; 97 espécies de répteis, 50 espécies de peixes. As aves mais comuns são o cisne-de-pescoço-preto, o marreco, a perdiz, o quero-quero, o pica-pau do campo, caturrita, João de barro, e a coruja-buraqueira, que foi batizada assim por fazer ninhos em buracos cavados no solo.

Entre os mamíferos, há o tatu, o guaxinim, o zorrilho e o graxaim. O gato-dos-pampas ou gato palheiro e a preguiça-de-coleira são espécies em risco de extinção. Entre as espécies estão a ema, sapinho-de-barriga-vermelha, furões e veados-campeiros, pequenos roedores, como o tuco-tuco, uma espécie endêmica, entre outros.
O Pampa, embora possua grande biodiversidade e diversos serviços ecossistêmicos importantes, tem sido bastante afetado pela ação humana, principalmente para a utilização das terras para a agricultura e pecuária.
Um total de 49 espécies da fauna e 146 espécies de plantas estão ameaçadas de extinção.

Um estudo elaborado a partir da análise de imagens de satélite, aponta ainda que a vegetação campestre do Pampa Sul-Americano, bioma composto por mais de 1 milhão de quilômetros quadrados entre Brasil, Argentina e Uruguai, sofreu a perda de 20%, incluindo 9,1 milhões de hectares de campos nativos no mesmo período. Nas áreas mapeadas, 66% estão na Argentina (72 milhões de hectares), 18% no Brasil (19,4 milhões de hectares) e 16% no Uruguai (17,8 milhões de hectares). O Pampa Sul-Americano ocupa 6,1% da América do Sul.

O biólogo, mestre em Botânica, doutor em Ecologia e Recursos Naturais e professor titular do Departamento de Botânica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Paulo Brack alerta que a situação é grave.

“A situação do bioma Pampa está bem grave, no sentido de que, por exemplo, no ano passado o MapBiomas, que é essa rede de informação que reúne uma série de entidades e instituições que avaliam a situação dos biomas brasileiros, colocou o bioma Pampa em primeiro lugar em perda de remanescentes nos últimos 37 anos, desde 1985 até 2021, sendo que 29,5% tinham sido perdidos nesse período de praticamente três décadas e meia. A gente verifica que os campos nativos estão rapidamente sendo substituídos principalmente por plantios de soja, a expansão da soja é impressionante. Ela se dá não só na parte do Pampa, mas também no Planalto, nos campos de altitude também, que é outra situação bem preocupante”, disse o professor para a Agência Brasil.
Conforme o mapeamento, entre 1985 e 2022, o uso agrícola do solo avançou 2,1 milhões de hectares. Já a silvicultura, aumentou a sua extensão em mais de 720 mil hectares no período, crescimento que equivale a 1.667%. A área total ocupada pelos campos em 1985 era de 9 milhões de hectares, enquanto em 2022 é de cerca de 6,2 milhões de hectares.

“Por essa situação de perda acelerada e pela inexistência de mecanismos que facilitem atividades mais compatíveis, que não seja a conversão para a agricultura e também para a silvicultura, considerando que a silvicultura cresceu mais de 1600% nesse período de 1985 até 2021, não se tem, infelizmente, tido atenção dos governos em relação ao que fazer para evitar essa impressionante conversão do Pampa em atividades como plantios na agricultura, inclusive as pastagens exóticas, monoculturas de forrageiras, e isso vem contribuindo muito para a acelerada perda do Pampa. Em poucas décadas a gente não terá mais condições de possuir esse bioma, praticamente ele estará perdido, restando pequenas áreas”, lamenta Paulo Brack doutor em Ecologia e Recursos Naturais.

Segundo o professor, o investimento em outras atividades como o turismo ecológico, a criação de frutíferas nativas e a agricultura familiar também têm potencial de ajudar na preservação do Pampa.
“Diríamos que, além da pecuária, o turismo relacionado a locais com patrimônio paisagístico e também formações como os butiazais [matas da fruta butiá] na parte sul do estado. Temos formações rochosas também na parte mais sudeste do bioma, que é chamada Serra do Sudeste, uma área belíssima, são áreas também com potencial de turismo fantástico e, ao mesmo tempo, também os produtos que existem lá”, aponta.


Fotos: MapBiomas.Org e Philippe Clément/Arterra/Universal Images Group via Getty Images















