Ziraldo, um dos maiores nomes da cultura brasileira, morre aos 91 anos

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Ziraldo, maior cartunista brasileiro, deixa legião de gerações de luto

O Brasil está de luto com o falecimento de Ziraldo, criador do Menino Maluquinho (1980), autor do clássico Flicts (1969) e de centenas de outras histórias e personagens que povoam o imaginário das crianças há gerações. Segundo a família ele faleceu enquanto dormia, em sua residência na zona sul do Rio de Janeiro.

O maior cartunista brasileiro tinha 91 anos e sua saúde debilitou-se após três acidentes vasculares cerebrais sofridos a partir de 2018, quando passou a não dar mais entrevistas por recomendação médica. Em um vídeo gravado em 2019 para divulgação de uma exposição dedicada a ele.

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Ziraldo, ícone dos quadrinhos brasileiros, morre aos 91 anos e deixa o país de luto

“Vocês podem achar que eu estou um pouco triste, falando devagar, porque não é meu estilo. Acontece que eu de repente fiquei velho. Foi outro dia. Eu acordei de manhã e estava velho”, disse ele, vestindo um de seus indefectíveis coletes. “Mas eu estou alegre, estou feliz da vida”, declarou o pai do Menino Maluquinho.

Ziraldo foi casado com Vilma Gontijo Alves Pinto, com quem teve os três filhos: a cenógrafa e cineasta Daniela Thomas, o músico e compositor Antônio Pinto e a também cineasta Fabrizia Alves Pinto, além de quatro netos.

Desde 2002, estava casado com a produtora Márcia Martins. Recluso nos últimos anos, o cartunista chegou aos 90 em 2022 cercado de homenagens à sua obra. O Menino Maluquinho se tornou série de animação da Netflix e dois de seus livros ganharam relançamento em edições especiais: O Bichinho da Maçã e Menina Nina.

Um livro-homenagem foi lançado pelo cartunista Edra, com 45 cartuns e 45 depoimentos de pessoas que foram influenciados por Ziraldo: 90 Maluquinhos por Ziraldo – Histórias e Causos.

Seus personagens e histórias também ganharam a exposição Mundo Zira – Ziraldo Interativo, que teve curadoria da filha Daniela Thomas em parceria com uma de suas sobrinhas, Adriana Lins. A mostra, que teve início em Brasília, é uma celebração à carreira dele e deve permanecer em cartaz no Rio de Janeiro até 13 de maio.

No lançamento a filha Daniela disse que o Ziraldo afetou e moldou cinco gerações. “Afetivamente e com relação a infância, todo Brasil cresceu junto com as criações do meu pai. Não queremos deixar esse espírito morrer, ele envelheceu, claro. Mas a obra está muito viva.”

Quanta história, quanta luta, quantas crianças fez sonhar com o inesquecível Menino Maluquinho, suas aventuras e travessuras. O ícone dos quadrinhos brasileiros parte, mas sua obra continuará encantando gerações. Uma perda irreparável do autor e cartunista, fonte de inspiração de gerações de “meninos e meninas maluquinhos”.

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Ziraldo, cartunista e escritor, com personagens que criou e encantou gerações

Nas redes, inúmeras pessoas prestaram homenagem a Ziraldo logo após o anúncio de sua morte. O presidente Lula classificou Ziraldo como um dos “maiores expoentes da cultura, da imprensa, da literatura infantil e do imaginário do país”.

“São inúmeras e diversas as contribuições de Ziraldo, seja com a turma do Pererê, em seu trabalho à frente do Pasquim, nos anos da ditadura, em livros inesquecíveis, como Flicts, e num extenso trabalho em revistas e jornais brasileiros. Na defesa da imaginação, de um Brasil mais justo, com democracia e liberdade de expressão”, escreveu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Maurício de Souza, criador da Turma da Mônica, também lamentou a morte do grande brasileiro. “Perdi mais que um grande amigo. Perdi um irmão. Das letras, dos traços e da vida! Mas ele estará sempre aqui em meu coração. E nos corações de milhões de brasileiros maluquinhos, de todas as idades, que seguirão apaixonados por sua obra. Viva, Ziraldo!”.

Corinthians, Palmeiras e São Paulo, clubes para os quais Ziraldo fez trabalhos pontuais como escritor ou cartunista, e o Flamengo onde o artista participou da criação de logos e marcas comemorativas do Rubro-Negro, incluindo o emblema dos 100 anos do clube, também prestaram homenagem ao imortal poeta e desenhista.

Muitos gestos de reverência e carinho foram feitos também pelos famosos como a ministra da Cultura Margareth Menezes que publicou: “Ziraldo foi muito mais que um autor. Foi uma fonte de inspiração que trouxe o verdadeiro espírito da cultura brasileira para o mundo dos quadrinhos”.

O ator Matheus Nachtergaele escreveu que “não sabe dizer adeus” ao cartunista. Já o apresentador Zeca Camargo publicou foto com a legenda: “Choram todos os meninos maluquinhos – de todas as idades”.

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Ziraldo, cartunista e escritor, com personagens que criou e encantou gerações, morre aos 91 anos

Desde a infância em Caratinga. Ziraldo era apaixonado por histórias para crianças. Em 1980, lançou O Menino Maluquinho, sucesso de vendas e ganhador do prêmio Jabuti, o principal das nossas letras. O menino com uma panela na cabeça e sua capa e espada improvisadas se converteu num dos maiores fenômenos editoriais da literatura infantil, com mais de 4 milhões de exemplares vendidos até hoje e adaptações para o teatro, cinema, série de TV e até ópera.

Desde então, foram mais de 100 livros publicados como autor, colaborador ou ilustrador, e muitos outros best-sellers. Uma Professora Muito Maluquinha, de 1995, já vendeu mais de meio milhão de exemplares. O Bichinho da Maçã, de 1982, mais de 300 mil. As histórias de Ziraldo também chegaram a crianças do mundo todo, traduzidas em espanhol, italiano, inglês, alemão e francês, entre outras línguas.

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Morre Ziraldo, o desenhista criativo que mostrou o espírito da cultura brasileira em seus quadrinhos

Ao longo dos anos 1960, expandiu seus talentos como chargista, caricaturista e artista gráfico, criando cartazes para filmes hoje considerados clássicos do cinema nacional, como Os Cafajestes e Os Fuzis, de Ruy Guerra.

Foi também a época em que se consagrou com seus cartuns e charges políticas na revista O Cruzeiro e no Jornal do Brasil. Personagens como Jeremias, o Bom, a Supermãe e o Mineirinho tornaram-se populares.

Em paralelo, o artista realizava um antigo sonho de infância: se tornava o primeiro autor de uma revista em quadrinhos brasileira de um só criador, reunindo personagens da turma do Saci Pererê, importante personagem do folclore brasileiro, que já publicava nas páginas de O Cruzeiro.

Com personagens como uma criança indígena, e animais típicos da nossa fauna, como a onça, o jabuti e o tatu, a Turma do Pererê marcou época na história dos quadrinhos no país, apesar de ter circulado só até 1964.

Em 1973, a editora carioca Primor reeditou uma seleção de suas melhores histórias, que passaram a fazer parte de vários livros didáticos.

Ziraldo tinha uma criatividade ímpar que fez gerações e gerações desfrutar de sua inesgotável sensibilidade e talento. Descanse em paz, grande e admirado brasileiro. Que tenha vida eterna e que o Pai o acolha em seus braços. Que Nossa Senhora conforte o coração dos familiares, amigos e fãs.

O ano de 1969 marcou para sempre a carreira de Ziraldo. Em meio a prisões e perseguições, o artista foi contemplado com o principal prêmio do 32º Salão Internacional de Caricaturas de Bruxelas, considerado o Oscar do humor, depois de ter trabalhos publicados em revistas na Europa e Estados Unidos.

Foi também em 1969 que recebeu o Merghantealler, prêmio que homenageia o trabalho pela imprensa livre na América Latina dado pela Associação Internacional de Imprensa.

Ziraldo ainda se tornou o primeiro artista latino convidado a desenhar o cartaz da campanha anual do Unicef.

Antes do fim daquele ano, publicou ainda seu primeiro livro infantil, Flicts. A história de uma cor que não encontrava seu lugar no mundo, contada como um poema gráfico, com o mínimo de palavras, encantou crianças e adultos.

Dado de presente pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil aos astronautas americanos que fizeram parte da primeira expedição à lua na sua visita ao país, o livro comoveu Neil Armstrong, que escreveu ao autor: “A lua é Flicts”.

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Ziraldo, um dos maiores nomes da cultura brasileira, morre aos 91 anos

Ziraldo Alves Pinto nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, Minas Gerais. Mais velho de sete irmãos, seu nome é a combinação dos nomes da mãe, Zizinha, com o do pai, Geraldo, como é comum no interior do Brasil.

O cartunista passou a infância em Caratinga, onde cedo revelou sua paixão pelo desenho e pela leitura, principalmente de revistas em quadrinhos. O menino Ziraldo, diz sua página oficial, desenhava em todos os lugares: na calçada, nas paredes, na sala de aula. Em 1939, com apenas 6 anos, viu seu primeiro desenho ser publicado no jornal Folha de Minas.

Adolescente, mudou-se com o avô para o Rio de Janeiro, onde viveu por dois anos. Retornou a Minas para terminar o curso científico (atual ensino médio) e, em 1957, formou-se em direito em Belo Horizonte. Nessa época, no entanto, sua carreira já estava totalmente voltada para o desenho.

Ziraldo começou a colaborar mensalmente com a revista Era uma Vez. Em 1954, passou a publicar uma página de humor na Folha de Minas, o mesmo jornal que havia veiculado seu primeiro desenho ainda criança.

Ao terminar a faculdade, começou a publicar suas criações em revistas nacionais como O Cruzeiro, publicação dos Diários Associados, e no Jornal do Brasil, veículos que ficavam no Rio de Janeiro, onde voltou a morar.

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Ziraldo em 1962: feliz com seu primeiro quadrinho nacional na Revista da Turma do Pererê

Ziraldo foi uma das grandes vozes da resistência ao autoritarismo e da defesa da democracia. Durante a ditadura militar (1964-1985) ele continuou a publicar suas charges e cartuns políticos. Seu engajamento o levou a ser preso três vezes durante o período, a primeira delas em dezembro de 1968, apenas um dia após a decretação do Ato Institucional Número 5, o AI-5, que deu início ao momento mais duro do regime.

No ano seguinte, fundou junto com o colega Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral “O Pasquim”, semanário de humor que virou fenômeno editorial brasileiro ao se tornar o veículo da contracultura da época (abordando temas como sexo, drogas, feminismo e divórcio) e de oposição ao regime militar. O jornal foi também, na descrição de Ziraldo, o grande celeiro de humoristas do pós-1968.

No ano seguinte, ele e toda a equipe do jornal foram presos, na primeira de muitas perseguições que O Pasquim sofreu. Até o fim da ditadura, houve ainda ataques a bomba à redação e a algumas bancas onde o jornal era vendido. “Ter podido atravessar os anos de chumbo fazendo o Pasquim foi uma dádiva. Morríamos de medo, mas fazíamos de tudo”, disse Ziraldo à Folha de S.Paulo em 2007.

Figura sempre ligada à esquerda, o artista foi membro do Partido Comunista Brasileiro. Em 2005, se filiou ao recém-criado Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), para o qual desenhou o logo. Nas eleições, declarou apoio público a candidatos do Partido dos Trabalhadores (PT), como nas duas vezes em que Dilma Rousseff ganhou a eleição e em 2018, quando Fernando Haddad ficou em segundo lugar.

Fotos: Reprodução/ Instagram