Álamo Saraiva: o 1º brasileiro a ganhar prêmio inédito na paleontologia

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Antônio Álamo Saraiva: o 1º brasileiro a ganhar prêmio inédito na paleontologia

Conhecido como “Oscar da paleontologia”, o prêmio Morris F. Skinner é concedido pela Sociedade de Paleontologia de Vertebrados (SVP) a pesquisadores que fizeram contribuições relevantes para construção de conhecimento científico na área, assim como incentivaram e compartilharam conhecimento com outros estudantes e profissionais.

O primeiro brasileiro a conquistar a honraria é o pesquisador Antônio Álamo Feitosa Saraiva, de 63 anos, pelo trabalho desenvolvido há mais de 25 anos na Bacia do Araripe, no município de Crato (CE), principalmente, na escavação, descrição e no combate ao comércio ilegal de fósseis, com publicações relacionadas, também, ao aquecimento global.

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Chapada do Araripe: região entre Ceará, Piauí e Pernambuco

Antônio Álamo é professor do curso de ciências biológicas e coordenador do laboratório de paleontologia na Universidade Regional do Cariri (Urca), no Ceará. Paleontologia é a ciência que estuda antigos habitantes da Terra, como plantas, animais e micro-organismos.

A cerimônia de premiação ocorreu ontem, em Minneapolis, nos Estados Unidos, durante o 84° encontro anual da SVP.

Antônio espera que trazer o prêmio para o Brasil chame a atenção para a falta de recursos financeiros para trabalhos em campo, atraindo mais investimentos nas áreas de ciência e paleontologia, e propondo uma reformulação nas leis. Com isso, ele acredita que será possível valorizar o trabalho dos pesquisadores, promover a troca de conhecimentos e uma sensação de pertencimento para sua terra, o Cariri. 

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Professor Álamo Saraiva: o 1º brasileiro a ganhar o prêmio inédito na paleontologia

“Que isso traga um olhar mais sério para a paleontologia nacional pela nossa comunidade política. Eu espero que a realidade mude e, sobretudo ajude essa região do Cariri a ser alavancada até ter igualdade de condições como qualquer outro grande centro do país, em relação à ciência, aprendizado e a uma ação de pertencimento do que é seu”, deseja o cientista brasileiro.

O pesquisador diz que ganhar o prêmio é inovador e espera estimular novas gerações pela paleontologia. Hoje, o professor se orgulha do menino que foi quase vaqueiro e escolheu ser cientista, mostrando que todos que se interessem pela área são capazes de alcançar grandes projetos. “Se eu consegui esse reconhecimento internacional, então qualquer criança ou adolescente do Cariri, se quiser, pode chegar lá. Espero que o prêmio sirva de estímulo para eles”.

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Álamo Saraiva: o 1º cientista brasileiro a ganhar prêmio inédito na paleontologia

A Bacia do Araripe, região entre Ceará, Piauí e Pernambuco, é conhecida pela variedade de espécies do período cretáceo (de 110 a 115 milhões de anos atrás), contando com nove sítios paleontológicos, onde há registros de arte rupestre e fósseis de dinossauros. Antônio começou a fazer pesquisas no local em 1998 e acredita que seus estudos sobre o aquecimento global envolvendo as comunidades do passado tiveram grande peso na escolha do seu nome para o “Oscar da paleontologia”, além de outras questões. 

“Não foi só uma pesquisa, mas o conjunto da obra. Muitas das minhas publicações envolvem aquecimento global e mortandade no cretáceo. O que essas mortes têm a nos dizer, hoje, em relação ao clima? Então, eu acho que acabei tendo um destaque por causa disso, o que pesou junto com o trabalho que eu faço contra a exportação ilegal de fósseis e os vários alunos que já formei”, declara o brasileiro reconhecido no exterior.

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Sítios paleontológicos na Bacia do Araripe

Apesar do destaque dado ao seu nome, o professor só se considera merecedor do título porque houve um trabalho em equipe por trás das pesquisas: “Paleontologia se faz, no mínimo, a quatro mãos”. Ele e a equipe já desenvolveram trabalhos em diversos países, como China, Rússia, México, Uruguai e Portugal. “Tudo isso nos deu aparato para que conseguíssemos esse destaque. É muito surpreendente, mas, ao mesmo tempo, é uma coisa muito ‘suada”, relata, afirmando que é uma honra ser o primeiro brasileiro a receber o prêmio. “Eu nunca acreditei, nem nos mais delirantes sonhos, que ia receber uma honraria dessas”.

Antônio Saraiva cresceu na área rural junto da natureza. Seu pai, agrônomo, era criador de gado. O pesquisador considera que foi um menino curioso, que queria “saber o porquê de tudo”. Assim, o primeiro desejo profissional dele foi ser vaqueiro, “mas vi que eles (vaqueiros) não tinham uma vida tão glamourosa”. Antes de entrar na faculdade, pensou em cursar medicina veterinária para dar continuidade aos trabalhos do pai, mas acabou optando por biologia. “Eu acho que era o único curso que responderia aos questionamentos da minha infância e adolescência”, conta.

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Paleontólogo Álamo Saraiva da Universidade de Cariri recebe prêmio inédito nos EUA

Antônio ingressou na primeira turma de biologia da Urca, em 1980. Na época a instituição se chamava Faculdade de Filosofia do Crato: “Havia uns 10 cursos espalhados pelo Cariri, que depois foram unidos pelo governo na Urca”, relata. Depois de formado deu aulas no pré-vestibular na região e fora do estado, como na Paraíba e em Sergipe. Fez mestrado em botânica de vegetais inferiores. Apaixonado pela profissão, enxergava-se como “caixeiro viajante de aulas”. Porém, chegou um momento em que resolveu seguir o rumo dos estudos, passando em primeiro lugar no concurso para professor de biologia da Urca, em 1994.

Como professor da Urca, começou a se interessar pela paleontologia por influência de um amigo da faculdade. “Fui sendo provocado a fazer paleontologia e, quando me dei conta, já estava acompanhando grandes paleontólogos”, conta. Assim, em 2000, quando iniciou um doutorado, já estava decidido a seguir na área, fazendo um pós-doutorado em seguida. Seus estudos foram voltados para o resgate das comunidades que viveram em cada período histórico e as condições ambientais nas quais estavam inseridas. 

Fotos: Arquivo pessoal, Aline M. Ghilardi / Ministério do Turismo e Flaviana Lima