Brasília recebe Acampamento Terra Livre: maior mobilização indígena do país em prol da vida

Indígenas de todo o Brasil estão em Brasília desde o dia 7, para o Acampamento Terra Livre 2025, um espaço fundamental de articulação, debate e resistência. Esta é a 21ª edição do maior evento de mobilização indígena do país, que reúne diferentes etnias e discute direitos e políticas para os povos originários.

O tema da mobilização em 2025 é “Apib somos todos nós: em defesa da Constituição e da vida”. O objetivo, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, é destacar o empenho dos povos indígenas na garantia dos seus direitos previstos na Constituição Federal.

As atividades do Acampamento Terra Livre 2025 vão até sexta-feira (11). Dentre os temas debatidos neste ano, estão:
- conflitos em territórios indígenas;
- a criação da Comissão Nacional da Verdade Indígena;
- a Câmara de Conciliação do Supremo Tribunal Federal;
- a transição energética justa;
- a resistência LGBTQIA+.

“Nossa programação está muito pautada na demarcação das terras indígenas, mas também na cobrança de políticas públicas. Nós provocamos o Estado brasileiro a fazer entregas“, segundo Dinamam Tuxá, coordenador da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas.

O acampamento é um espaço para o encontro de culturas e para discussões importantes. O principal tema é a demarcação das terras, ameaçada pelo Marco Temporal, e reúne organizações indígenas de todas regiões do país.

O evento também contou com a participação da ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara. Para ela, a resolução representa um marco significativo para simplificar o processo de alteração do registro civil e reforça os direitos dos povos indígenas.

Na terça-feira, dia 8 , a Câmara dos Deputados promoveu sessão solene para celebrar o 21º Acampamento Terra Livre, realizado em Brasília. A deputada Célia Xakriabá, autora do pedido, falou para um plenário repleto de indígenas. “Este é o Congresso Nacional que nós sonhamos para o futuro, este é o Congresso de um Brasil que começa por nós. Nós somos os primeiros brasileiros e, no entanto, somos os últimos a chegar ao Congresso Nacional”.

A deputada lembrou que levou mais de 30 anos depois da eleição do primeiro parlamentar indígena, Mário Juruna Xavante, em 1982, para que fosse eleita uma mulher indígena para a Câmara – a atual presidente da Fundação Nacional dos Indígenas (Funai), ex-deputada Joênia Wapichana.

Dentre os presentes no plenário da Câmara, estava o cacique Raoni Metuktire, liderança histórica do povo Kayapó, a ex-deputada Joênia Wapichana, presidente da Funai e a ministra Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas.
A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, também pediu a revogação do marco temporal. “Nossas raízes são profundas, pois tocam uma ancestralidade de cada homem, de cada mulher que nasceu no chão deste Brasil tão grande e diverso. A luta dos povos indígenas é a mãe de todas as lutas, e por isso nós seguimos falando “não” à mineração nos territórios indígenas, “não” ao marco temporal, nunca mais o Brasil sem nós.”

Segundo a ministra Sonia Guajajara, o Acampamento Terra Livre é a maior mobilização indígena do mundo e o Brasil conta com mais de 305 povos. O último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostrou que a população originária quase dobrou de tamanho desde 2010. Hoje, vive no país quase 1,7 milhão de indígenas, que ocupam cerca de 14% do território nacional.

Joênia Wapichana reivindicou a demarcação de territórios indígenas. Ela também reclamou do chamado marco temporal. Decorrente de uma lei aprovada pelo Congresso, o marco estabelece que os povos indígenas têm direito apenas à posse das terras que ocupavam ou já disputavam em 5 de outubro de 1988, data de promulgação da Constituição Federal. A constitucionalidade da norma está sendo questionada no Supremo Tribunal Federal.

O cacique Raoni, que tem 93 anos e não fala português em solenidades públicas, fez seu discurso na língua Kayapó. Pediu aos povos indígenas que continuem na luta pela defesa de seus territórios e de seu modo de vida.
“Há muito tempo, comecei a ter esse papel para defender o nosso povo e até hoje eu luto para defender o nosso direito, para que haja uma terra, para que a nova geração tenha seu próprio modo de vida dentro do território. E é isso que eu peço para vocês, que continuem lutando, que tenham força”, afirmou Raoni.

Canções e danças tradicionais e a defesa da demarcação dos territórios abriram a vigésima primeira edição do Acampamento Terra Livre, no Complexo Funarte, em Brasília. O movimento Terra Livre reúne cerca de 9 mil lideranças indígenas em Brasília até sexta-feira.

Fotos: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputado, Eline Luz/ Andes e Reprodução













