Navi Pillay Nobel da Paz 2026: jurista sul-africana referência na promoção da paz e do direito internacional

Ao escolher o Prêmio Nobel da Paz 2026, o Comitê Norueguês decidiu premiar o mundo pela persistência, pela perseverança em seguir vivendo e buscando a harmonia possível. A jurista sul-africana Navi Pillay personifica o sistema multilateral. Em particular, o Tribunal Penal Internacional (TPI), que julga governantes e outras autoridades de Estado acusadas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
O presidente do comitê, Jorgen Watne Frydnes, declarou que Pillay foi laureada “por sua coragem e integridade excepcionais em sua atuação jurídica e por seus esforços para promover a paz e o direito internacional”. “O Prêmio Nobel da Paz de 2026 é concedido a uma pessoa que, com coragem e integridade excepcionais, liderou o caminho rumo a uma ordem jurídica global mais abrangente. A laureada deste ano desempenhou um papel fundamental para garantir que crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio sejam processados”.
“O compromisso de Navi Pillay com os princípios jurídicos universais e sua firme bússola moral são constantes ao longo de sua extensa carreira. Nascida em uma família de origem tâmil indiana, durante o apartheid, em Durban, na África do Sul, Pillay tornou-se advogada e pioneira no campo jurídico, enfrentando a profunda discriminação estrutural, a segregação e a exclusão”, acrescentou o presidente do Comitê.

Pillay foi a 21ª mulher a ser laureada com o Nobel da Paz, de um total de 144 vencedores. Ela tem uma carreira de cinco décadas como advogada e juíza. Além de uma medalha, a jurista também receberá 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6 milhões).
Pillay não sabia que havia sido vencido o Nobel da Paz no momento em que o prêmio foi anunciado, segundo Frydnes. Geralmente, o comitê norueguês costuma ligar para o laureado antes do anúncio.

Ao premiar a jurista sul-africana, a primeira a presidir a Corte Suprema da África do Sul, com papel decisivo na transição do regime segregacionsita do apartheid para a democracia racial, reconhece o trabalho de instituições que colocam em vigência o direito internacional, em um mundo onde potências militares seguem impondo – ou tentando impor – pela força agendas próprias, à revelia da comunidade das nações.
A laureada Navi Pillay, além de ter sido a Alta Comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos, presidiu o tribunal especial para a chacina étnica em Ruanda e, mais recentemente, esteve à frente do comitê da ONU que acusou Israel de cometer genocídio contra os palestinos na Faixa de Gaza. Aos 85 anos, Navi Pillay, um exemplo na promoção da paz e do direito internacional, há de luzir como esperança para milhões de jovens.

Navi Pillay dedicou o prêmio a “todos os sobreviventes de crimes internacionais”. A declaração foi dada durante coletiva de imprensa na histórica sala de audiências do Tribunal de Nuremberg, na Alemanha, onde foram julgados os principais líderes nazistas após a Segunda Guerra Mundial. “Gostaria de dedicar este prêmio a todos os sobreviventes de crimes internacionais”, disse Pillay, de 85 anos de idade.
A jurista também denunciou os ataques contra o Tribunal Penal Internacional (TPI) de Haia, cujos membros foram sancionados pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em represália pela emissão de um mandado de prisão contra o premiê de Israel, Benjamin Netanyahu.
“Estamos atravessando uma época em que o direito internacional e os direitos humanos são objeto de pesados ataques políticos. Essa deterioração é particularmente evidente nos ataques dirigidos ao Tribunal Penal Internacional”, lamentou Pillay, lembrando que, no mês passado, Trump chamou a instituição de “maléfica” e “fora da lei”.

A ganhadora do Nobel da Paz 2026 ainda fez um apelo a líderes internacionais para abdicarem de conflitos armados. “Vocês estão sujeitos a uma obrigação jurídica. Quaisquer que sejam os outros deveres morais que tenham, vocês têm a obrigação legal de proteger os direitos humanos e de se abster de fazer a guerra”, disse a jurista sul-africana Navi Pillay.
Trajetória

Nascida em 23 de setembro de 1941, em Durban, em uma família de origem indiana tâmil, Navi Pillay se tornou advogada e enfrentou a discriminação estrutural do regime segregacionista, defendendo Nelson Mandela e outros opositores do apartheid.
Ela foi a primeira mulher não branca a ocupar o cargo de juíza na Alta Corte da África do Sul. Também atuou como magistrada do Tribunal Penal Internacional para Ruanda e do TPI, além de ter sido alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos entre 2008 e 2014.
Mais recentemente, presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado, função em que acusou Israel de genocídio na Faixa de Gaza. Atualmente, é juíza da Corte Internacional de Justiça (CIJ) no caso em que Mianmar é acusado de genocídio.
Fotos: NTB/Javad Parsa/via REUTERS, Patrick Semansky/AP













