Maria da Conceição Tavares: economista que priorizou a justiça social no Brasil, morre aos 94 anos

É com pesar que registro o falecimento da economista Maria da Conceição de Almeida Tavares, matemática e escritora luso-brasileira, aos 94 anos, na manhã de 8 de junho em Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro. Ela deixa dois filhos, dois netos e um bisneto.
A notícia do falecimento da portuguesa de Aveiro, naturalizada brasileira e referência no pensamento desenvolvimentista, abalou não apenas a família e os amigos, mas também autoridades, políticos, ex-alunos e outras pessoas que tiveram a honra de conviver com a mulher que priorizou a justiça social no Brasil.
A figura icônica e inspiradora, uma verdadeira mestra fundadora do Instituto de Economia da Unicamp, Maria da Conceição Tavares trabalhou na elaboração do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e foi professora titular da Universidade Estadual de Campinas e professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua sabedoria e vocação para ensinar marcou a trajetória de seus incontáveis alunos. Dentre eles Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff, Guido Mantega, Pedro Malan, Luciano Coutinho, João Manuel Cardoso de Melo, Carlos Lessa, Luís Gonzaga Beluzzo, José Luis Fiori, José Serra e Aloizio Mercadante.
“Tive dezenas de alunos, dos quais a metade se corrompeu, outra parte desistiu, cansou, e umas poucas dezenas continuaram lutando, estudando e batalhando“, Maria da Conceição Tavares.

A intelectual, de voz grossa e tom enérgico, foi uma das principais responsáveis pela difusão do pensamento desenvolvimentista no país durante o final do século 20, com a publicação de diversos livros e artigos, durante os anos 1980 e 1990. O mais famoso deles foi a obra Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil – Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro, de 1972, que, segundo a Universidade de São Paulo (USP), tornou-se um “clássico na literatura especializada”.
A professora Tavares ficou conhecida como defensora fervorosa do Plano Cruzado e do combate à inflação. Nos anos 1980, chorou em frente às câmeras de TV na defesa do Plano Cruzado, em um dos momentos mais marcantes daquela época de euforia que o congelamento de preços trouxe ao povo brasileiro.
A intelectual, revolucionária e educadora que influenciou gerações e formou economistas deixa uma enorme contribuição para a sociedade brasileira e marca a história do país por sua busca incansável pela igualdade. Com um perfil progressista e desenvolvimentista, era forte defensora da atuação do Estado como impulsionadora do bem-estar social e da promoção econômica.
Foi uma das principais opositoras ao Plano Real, durante a gestão do então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Não se intimidou e se envolveu em diversas críticas durante a presidência do tucano, nos anos seguintes. A premiada economista influenciou uma série de outros economistas e políticos.

Na mesma eleição em que FHC se tornou presidente, Maria da Conceição Tavares foi eleita deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro. Neste cargo, permaneceu durante quatro anos (1995-1999). Ela ainda exerceu a função de consultora no Ministério do Planejamento e trabalhou no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) — e foi homenageada neste ano pelo presidente Aloizio Mercadante, durante a celebração do Dia Internacional da Mulher.
Em sua famosa participação no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1995, a então deputada federal recém-empossada criticou a distribuição de renda no país e afirmou que o país estava regredindo socialmente. Até os os dias de hoje, o vídeo repercute com suas falas. “Quantas vezes a massa desse país já foi às ruas? Quanta coragem vocês querem que esse povo tenha? Tem que ter uma coragem infinita”, disse na ocasião.
“Uma economia que diz que precisa primeiro estabilizar, depois crescer, depois distribuir, é uma falácia, e tem sido uma falácia. Nem estabiliza, cresce aos solavancos e não distribui. E esta é a história da economia brasileira, desde a pós guerra“, disse Tavares na TV Cultura.

A professora que marcou a história do país por sua busca incansável pela igualdade, virou referência do pensamento desenvolvimentista no Brasil e inspirou até personagem na Escolinha do Professor Raimundo, programa da TV Globo: Maria da Recessão Colares, criada pela humorista Nádia Maria, que morreu no ano 2000.
Personalidade brasileiras como o presidente Lula, Dilma Rousseff, usaram as redes sociais para homenagear a defensora do desenvolvimento com justiça social.

“Maria da Conceição de Almeida Tavares foi professora, deputada federal pelo Partido dos Trabalhadores, economista e matemática, uma das maiores da nossa história. Nascida em Portugal, adotou o Brasil e nosso povo com o seu coração e paixão pelo debate público e pelas causas populares. Foi uma economista que nunca esqueceu a política e a defesa de um desenvolvimento econômico com justiça social. Formou gerações de economistas na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Trabalhou no BNDES, em projetos importantes para a industrialização do nosso país e com a CEPAL em defesa do desenvolvimento da América Latina. Escreveu centenas de artigos e muitos livros. Até hoje suas aulas são consultadas pelos jovens em vídeos na internet, pela sua fala sempre franca e direta. Tive o prazer e a honra de conviver e conversar muito com minha amiga ao longo dos anos, debatendo o Brasil e os nossos desafios sociais e econômicos no Instituto Cidadania, em conversas no Rio de Janeiro ou em viagens pelo Brasil. Nesse momento de despedida, meus sentimentos aos familiares, em especial aos filhos, aos muitos amigos, alunos e admiradores de Maria da Conceição Tavares”, disse o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva.
“É com grande pesar que recebo a a notícia da morte da economista Maria da Conceição Tavares. Meus sentimentos à família e aos muitos amigos e alunos. Todos ficamos tristes pela sua passagem. Uma das mais importantes e influentes intelectuais de nosso tempo, Maria da Conceição amou profundamente o Brasil e o povo brasileiro, tendo sido uma das grandes pensadoras sobre o destino do país, os rumos da nossa economia e os caminhos para o desenvolvimento com Justiça Social.
Minha amiga e professora era uma mulher brilhante e profundamente comprometida com a soberania nacional, tendo atuado decisivamente na construção de um Brasil menos desigual. Era uma portuguesa que veio para o país ainda criança e virou uma brasileira de coração e de compromisso firme com o nosso povo.
Minha companheira de lutas e sonhos. Maria da Conceição Tavares, presente!”, declarou Dilma Rousseff, ex-presidente da República.

“O Ministério da Fazenda recebeu com tristeza a notícia do falecimento da economista Maria da Conceição Tavares. Professora, escritora, ex-deputada Federal, Maria da Conceição se notabilizou por sua contribuição inestimável ao pensamento econômico brasileiro. Corajosa, criticou de forma arguta decisões de política econômica implantadas em descompasso com a justiça social. Seu forte espírito público inspirou centenas de economistas no país. Neste momento de dor, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e os servidores do ministério da Fazenda manifestam respeito e solidariedade aos familiares e amigos de Maria da Conceição Tavares”, publicou o Ministério da Fazenda.
“Recebi com profunda tristeza a notícia do falecimento da nossa Maria da Conceição Tavares. Nossa querida professora nos deixa um vasto legado sobre pensamento crítico em economia, justiça social, luta contra a desigualdade e, sobretudo, de muita coragem na defesa dos mais vulneráveis. Daqui, seguimos honrando seu maior ensinamento: o de sempre acreditar em um Brasil mais justo e igualitário. Descanse em paz, professora“, declarou o senador Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso Nacional.
Maria da Conceição Tavares se formou em Matemática pela Universidade de Lisboa em 1953. No ano seguinte, migrou para o Brasil para escapar da ditadura portuguesa de Salazar. No Brasil, cursou Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde se graduou em 1960.
Segundo a Universidade de São Paulo, o ensaio “Auge e declínio do processo de substituição de importações”, de 1972, foi um “marco no estudo do processo de industrialização do Brasil e tornou-se clássico na literatura especializada“.

No Brasil, enfrentou mais uma vez a ditadura, desta vez a brasileira. A militância em defesa da democracia a levou ao exílio no Chile.
Quando retornou ao país, militou no Movimento Democrático Brasileiro, antecessor do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), mas foi pelo Partido dos Trabalhadores (PT) que se elegeu deputada federal em 1994. Após o fim do mandato, em 1999, se tornou consultora para assuntos econômicos do partido.
Em 2011, a então presidente Dilma Rousseff (PT) entregou o Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia a Maria da Conceição, a mais alta condecoração na área. A ex-presidente havia sido aluna de mestrado da economista na Unicamp na década de 80.
Nos últimos anos, a economista viralizou nas redes sociais com trechos de entrevistas e aulas.
Um dos trechos compartilhado por milhares de pessoas é uma análise sobre o crescimento da economia sem preocupação social: “A economia que não se preocupa com justiça social é uma economia que condena os povos. É isso que está ocorrendo no mundo inteiro, uma brutal concentração de renda entre riqueza, o desemprego e a miséria”, disse a economista.
Fotos: Roberto Stuckert Filho e Reprodução













