Zezé Motta é a primeira artista a receber honraria máxima da Fiocruz

O presidente da Fiocruz, Márcio Moreira, entregou no dia 31 de outubro o título de Doutora Honoris Causa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a atriz Zezé Motta. Ela foi a primeira artista a receber a honraria máxima da instituição. A cerimônia foi realizada no auditório do Museu da Vida Fiocruz e a decisão de premiar a artista foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Deliberativo da instituição.
A abertura da cerimônia contou com a participação dos músicos Sara Hana e Zé Duarte Neto que cantaram duas canções do repertório de Zezé: Tigresa, composição de Caetano Veloso inspirada nela; e Senhora Liberdade, obra de Nei Lopes e Wilson Ribeiro. Convidada a se reunir aos artistas, Zezé não hesitou: pegou o microfone e participou da apresentação.

Márcio Moreira disse que o título busca reconhecer o trabalho de pessoas que contribuíram para a melhoria da humanidade e do país. “Entendemos que a expressão científica também se dá pela cultura e pelas artes, mas, para além disso, Zezé encarna a luta do nosso cotidiano por um país menos desigual”. “Essa é uma luta da Fiocruz, porque é uma luta da sociedade brasileira”, disse o presidente.
A trajetória de Zezé e sua luta antirracista foi relembrada pela coordenadora de Equidade, Diversidade, Inclusão e Políticas Afirmativas da Fiocruz, Hilda Gomes.
“Além dos palcos, a atriz atuou fortemente na consolidação da luta antirracista no Brasil, colaborando com a criação do Movimento Negro Unificado, na década de 1970, e fundando ela própria o Centro de Informação e Documentação Artista Negro (Cidan), em 1984. “Zezé é um ícone da cultura brasileira e porta-voz de uma luta antirracista fundamental para o fortalecimento da democracia e redução das desigualdades no Brasil”, destacou Hilda. “Ela é a personificação do nado contra a correnteza, sendo a própria correnteza. Há mais de 55 anos, vem lutando pelos direitos das pessoas negras, das mulheres e da classe artística”.

A diretora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), Anamaria Corbo, representou o Conselho Deliberativo da Fundação na cerimônia e reiterou a importância da arte para a promoção da saúde. “Quando aceitamos pensar sobre a saúde de forma ampliada, aceitamos pensar sobre essa relação com a arte de um modo menos pragmático — não apenas como ampliação de acesso a diferentes formas de produção artística, mas da arte como potência para a transformação social”, afirmou. “Pela arte, podemos nos ver diante do que não sabemos dizer, mas do que teimamos em desejar sonhar como indivíduos e como coletivo. Se nosso compromisso é pensar e realizar saúde numa dimensão que se contrapõe ao apequenamento, à alienação da vida, precisamos de muita energia criativa”.
Em seu discurso, Zezé homenageou a pensadora e ativista Lélia González, de quem foi amiga e aluna. “Eu sempre soube que tinha algo errado no país. Sentia muita inquietação, muita agonia, mas não sabia por onde começar”, contou a artista.

“Através de um curso de cultura negra ministrado por Lélia, entendi que eu precisava me informar mais, me aprofundar. Na aula inaugural, Lélia disse: ‘Eu sei por que vocês estão aqui. Gostaria de lembrar que não temos mais tempo para lamúrias. Temos que arregaçar as mangas e virar esse jogo’. Aquela aula mudou minha vida, porque me deu o norte: em vez de ficar me lamentando, eu precisava fazer alguma coisa”.
Zezé disse que sua carreira foi marcada pela busca da representatividade e pelo combate ao preconceito. “Hoje, recebendo esse título, sinto que a minha trajetória se entrelaça à de todos que lutam por justiça e igualdade”. “Sempre digo que é muito importante o reconhecimento das coisas boas que você realiza, porque é um incentivo para que você continue lutando pelo que acredita”, declarou a homenageada.
“Ser uma mulher preta no Brasil é, por si só, um marco diário. Mas ser uma mulher preta que conseguiu se firmar no cenário artístico, desafiando estereótipos e conquistando espaços é uma vitória que carrego comigo e com todas as mulheres pretas que vieram antes e as que ainda vivem agora”, disse Zezé Motta.
“Espero que minha trajetória inspire novas gerações a continuar essa luta, enfrentar as barreiras do racismo, defender a equidade e valorizar a cultura brasileira”, declarou a Doutora Honoris Causa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Ao final, atores do projeto Ciência em Cena, do Museu da Vida Fiocruz, encenaram a cerimônia com uma cena para Zezé, peça criada especialmente para a homenagem.

Zezé Motta: a artista com mais de 50 anos de carreira consolidada

Zezé Motta é natural de Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio de Janeiro. Chegou a trabalhar como operária na indústria farmacêutica. Estreou como atriz em 1967, na peça Roda viva, de Chico Buarque. No total, foram 13 peças de teatro e mais de dez discos, sendo o mais recente Pérolas negras (2024), no qual divide os vocais com Alaíde Costa e Eliana Pittman.
A atriz também se destacou em novelas e filmes. Ela foi protagonista de Xica da Silva (1976), filme dirigido por Cacá Diegues e atuou em mais de 45 produções na televisão, como a novela Beto Rockefeller (1968), e mais de 60 filmes. Em 2022, venceu o Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme Doutor Gama. E recebeu o Troféu Oscarito do Festival de Cinema de Gramado, pelo conjunto de sua obra, em 2007.
Viva Zezé Motta! Além do brilhante trabalho no meio artístico, Zezé é uma voz importante nas pautas sociais.
Fotos: Peter Ilicciev













