Mujica: um dos maiores líderes humanitários e símbolo de dignidade política, morre aos 89 anos

José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai, encerra o crepúsculo da vida neste 13 de maio, faltando 7 dias para os 90 anos. A informação foi confirmada pelo atual presidente uruguaio, Yamandú Orsi, visto como um dos herdeiros de Mujica.
“É com profundo pesar que anunciamos o falecimento do nosso colega Pepe Mujica. Presidente, ativista, referência e líder. Sentiremos muita falta de você, querido velho. Obrigado por tudo o que você nos deu e pelo seu profundo amor pelo seu povo”, escreveu Orsi.
Em abril de 2024, Mujica anunciou que estava com um tumor no esôfago, com o órgão “muito comprometido”. Em janeiro de 2025, disse que o câncer havia se espalhado. No dia 12 de maio, Lucía Topolansky, esposa de Mujica e ex-vice-presidente do Uruguai, afirmou que o político estava em estado terminal e sob cuidados paliativos.

Pepe foi um dos maiores líderes humanitários e símbolo de dignidade política e de resistência. O político era uma pessoa humilde, coerente e incansável na luta por justiça social. Não apenas o Uruguai mas toda América Latina lamenta sua partida.
Mujica é um dos mais reconhecidos e admirados líderes da esquerda latino-americana. Foi preso e torturado pela ditadura por quase quinze anos, e acabou chegando ao poder décadas depois. Ele se tornou um dos presidentes mais queridos internacionalmente e passou a vida defendendo uma existência menos consumista, além das iniciativas progressistas que apoiou durante seu mandato.

Ele parte mas sua história permanecerá viva na memória dos povos que sonham com um mundo mais justo e igualitário. Parte deixando um legado de esperança.
José Alberto Mujica Cordano, conhecido popularmente como Pepe Mujica, foi um político e agricultor uruguaio, tendo sido presidente do Uruguai entre 2010 e 2015. Antes de chegar ao cargo máximo, foi deputado e senador. E, em 2005, se tornou ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca no primeiro governo da Frente Ampla, a coalização uruguaia de esquerda.

Após deixar a Presidência, voltou ao Senado onde ficou até agosto de 2020, quando renunciou por motivos de saúde, em meio à pandemia de Covid-19.
Ao lado de sua mulher, Lucía Topolansky, Mujica chamou atenção como um chefe de Estado de vida simples, que morava em um sítio modesto nos arredores da capital e dirigia seu próprio Fusca ano 1987 diariamente até a sede do Executivo.

Pela simplicidade que viveu como presidente, suas críticas ao consumismo e as reformas sociais que promoveu – incluindo a que fez do Uruguai o primeiro país do mundo a legalizar a maconha -, Pepe Mujica foi uma figura emblemática para a esquerda da América Latina.
Durante seu mandato, José Mujica não se mudou para a residência presidencial, como costumam fazer os chefes de Estado ao redor do mundo. Preferiu continuar, junto com a esposa, a ex-guerrilheira Lucía Topolansky, vivendo em sua modesta casa em um sítio nos arredores de Montevidéu, sem empregados domésticos, e com pouca segurança. O casal nunca teve filhos.

A isso, soma-se seu estilo informal de se vestir, o hábito de dirigir um velho Fusca azul-celeste de 1987, e a decisão de doar grande parte do seu salário, o que lhe rendeu o título na imprensa de “o presidente mais pobre do mundo”.
“Dizem que sou um presidente pobre. Não, eu não sou um presidente pobre”, disse em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
“Pobres são os que querem sempre mais, que não se satisfazem com nada”, afirmou. “Esses são pobres, porque entram em uma corrida infinita. E não terão tempo suficiente na vida.”

Dizia que sua paixão pela política, assim como pelos livros e pela terra, vinham de sua mãe, que o criou, junto com sua irmã mais nova, em um lar de classe média. Seu pai morreu quando tinha apenas 7 anos.
Quando jovem, foi militante do Partido Nacional, uma das forças políticas tradicionais do Uruguai, que mais tarde faria oposição de centro-direita ao seu governo.
Sua vida e seus ideais já inspiraram diversos livros, já que o político ficou conhecido por seu jeito simples, pouco afeito a luxos.
Livros que falam sobre a vida e as ideias de Mujica

“Uma ovelha negra no poder: confissões e intimidades de Pepe Mujica”, de Andrés Danza e Ernesto Tulbovitz. O livro é construído em cima de mais de 20 anos de entrevistas concedidas pelo ex-presidente uruguaio a imprensa. Nelas, Mujica reflete sobre sua juventude, a chegada ao poder e seus ideais políticos.
“Mujica: a revolução tranquila”, de Mauricio Rabuffetti – Nesta biografia, o jornalista traça um retrato do ex-presidente uruguaio, buscando entender por que Mujica se tornou uma figura tão grande, mesmo que desperte polêmicas em seu próprio país.
“Palavras para depois: conversas com Pepe Mujica”, de Fabián Restivo. O livro reúne uma série de diálogos entre Mujica e o jornalista argentino Fabián Restivo. Os dois passaram dez dias juntos, nos quais o ex-presidente compartilhou sua visão de mundo sobre diversos temas, como a vida, a militância, a política, o amor, a juventude e sua relação com a natureza.
“Chomsky & Mujica”, de Saúl Alvídrez. A obra reúne reflexões e debates que surgiram do encontro entre o ex-presidente do Uruguai com o ativista e intelectual americano Noam Chomsky, promovido por Alvídrez. As duas figuras icônicas conversam sobre grandes questões contemporâneas e debatem alternativas para o futuro.
“Simplesmente Mujica”, de Alfredo García. Pepe Mujica concedeu uma longa entrevista ao jornalista Alfredo García ao longo de quatro meses. No livro, é o ex-presidente quem conta sua história em primeira pessoa, sem muita edição da conversa entre os dois.
“Memórias do calabouço”, de Maurício Rosencof e Eleuterio Fernández Huidobro. Neste livro editado por Pepe Mujica, Rosencof e Huidobro relembram os anos em que ficaram presos como reféns da ditadura militar junto ao ex-presidente uruguaio na década de 1970. Eles narram as dificuldades e a tortura vivida a longo dos mais de dez anos que o grupo passou na prisão.
Os Sonhos de Pepe: um alerta para o mundo

O filme “Os Sonhos de Pepe” é um alerta para o mundo e nos questiona qual o nosso papel na sociedade. O longa traz a visão de mundo ideal para Pepe Mujica, torturado pela ditadura uruguaia e que nunca desistiu da democracia. “Eu não traí todos os meus sonhos de menino”, diz ele, ao falar sobre a sua trajetória.
Mujica expõe o que pensa sobre governantes e feitos realizados no poder. Em relação ao ex-presidente norte-americano Barack Obama, o primeiro negro a comandar a nação mais rica do mundo, é direto: “Um bom homem, boa cabeça, melhor do que governo que fez”.
O ex-Presidente do Uruguai também aborda a forma como a classe política se comporta em relação ao restante da sociedade. Em linhas gerais, defende que a democracia prega a igualdade, mas perde sentido quando os eleitos vivem em um padrão de vida incompatível com a realidade da maioria. “É hipocrisia governar em nome do povo e, ao mesmo tempo, viver em um mundo de privilégios.”
Em meio ao sonho do que considera um mundo ideal, Mujica também aborda a forma como a classe política se comporta em relação ao restante da sociedade. Em linhas gerais, defende que a democracia prega a igualdade, mas perde sentido quando os eleitos vivem em um padrão de vida incompatível com a realidade da maioria. “É hipocrisia governar em nome do povo e, ao mesmo tempo, viver em um mundo de privilégios.”
“É fácil ter respeito por aqueles que pensam como você, mas você tem que aprender que a base da democracia é o respeito por aqueles que pensam diferente”, acredita o ex-presidente do país vizinho. A mensagem de Pepe Mujica, com certeza, não vale apenas para os uruguaios. É um alerta para o mundo e, principalmente, a todos os brasileiros. Chega de intolerância. O radicalismo não nos leva a lugar algum.
O que é ser de esquerda, afinal? Mujica: “É uma posição filosófica perante a vida, onde a solidariedade prevalece sobre o egoísmo”.
Fotos: Reuters/Tony Gentile e Reprodução













