Luis Fernando Verissimo: gênio da escrita, da crônica e da charge, morre aos 88 anos

Com muita tristeza registro a partida do gaúcho Luis Fernando Verissimo, um dos maiores escritores e cronistas do Brasil. Sua genialidade marcou gerações com humor refinado, sensibilidade e olhar crítico sobre a vida cotidiana.
Verissimo, através da sua escrita, perfeitamente equilibrada entre o humor e a acidez, soube transformar ironia em arte e leveza em reflexão. Ensinou-nos a rir de nós mesmos sem jamais esquecer a seriedade das questões que nos cercam.
Sua ausência será sentida, mas sua grandiosa obra continuará inspirando gerações.
O mestre das palavras, Luis Fernando Verissimo, faleceu na madrugada deste 30 de agosto, aos 88 anos, em Porto Alegre, cidade onde vivia. Ele estava internado na UTI do Hospital Moinhos de Vento desde o dia 11 deste mês. A causa da morte foi complicações decorrentes de uma pneumonia, conforme informou a instituição.
O escritor deixa a mulher, Lúcia Helena Massa, os filhos Pedro, Fernanda e Mariana Veríssimo e dois netos. Deixa, também, uma legião de amigos e incontáveis fãs por este Brasil afora. Descanse em paz, Luis Fernando Verissimo. Gratidão por formar leitores e cidadãos tão atentos quanto sua escrita.

Dono de múltiplos talentos, Verissimo cultivou inúmeros leitores em todo o Brasil com suas crônicas, contos, quadrinhos e romances. Ele deixa como legado meio século de reflexões sobre a vida privada e do Brasil dos absurdos.
Discreto nos hábitos e nas declarações, Verissimo ainda vivia na casa onde cresceu depois do retorno ao Brasil. O imóvel no Bairro Petrópolis, em Porto Alegre, foi comprado em 1941 pelo pai Erico Verissimo. Cercado de livros, Luis Fernando tinha o costume de escrever em outro cômodo da casa, onde também guardava o saxofone e dezenas de discos e CDs de jazz.
Metódico, só interrompia o trabalho quando a mulher, Lúcia, o chamava para o almoço. Já à noite, parava para assistir ao Jornal Nacional. Quando queria curtir seu estilo de música preferido, o fazia sem distrações. “Música é sentar e ouvir”, disse em entrevista em 2012.
O humor de contos e crônicas marcou sua obra. Entre os personagens mais conhecidos criados por ele estão os de “Ed Mort e outras histórias”, de 1979, “O analista de Bagé”, de 1981 e “A velhinha de Taubaté”, de 1983. Também criou a tirinha “As cobras”, publicada na “Folha da Manhã”, nos anos 70. “Comédias da vida privada”, de 1994, deu origem à série da Rede Globo produzida durante os três anos seguintes.
No final da década de 80, foi um dos roteiristas do programa de humor “TV Pirata”. Entre sucessos comerciais também estão “Comédias para se ler na escola” e “As mentiras que os homens contam”, de 2000.
Luis Fernando deixou como legado mais de 80 títulos publicados, que passam por diferentes gêneros literários, como romances, contos e quadrinhos, que o levaram a ter mais de 5,6 milhões de exemplares vendidos.
Verissimo começou cedo a escrever, e quando criança, aos 14 anos, junto a sua irmã Clarissa, produziu um noticiário de sua família, que pendurava atrás da porta do banheiro de sua própria casa, chamada “O Patentino”. Depois de um breve momento na juventude em que passou pela música, o autor se instalou em Porto Alegre, em 1956, quando passou a dedicar sua carreira à escrita.

A notícia de sua morte foi lamentada por pessoas de todas as idades nas redes sociais. Autoridades saudaram a vida e obra do cronista, escritor, publicitário e saxofonista Luis Fernando Verissimo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou os “múltiplos talentos” de Veríssimo e enfatizou a criação de personagens inesquecíveis, como o Analista de Bagé, As Cobras e Ed Mort, eternizadas em crônicas, contos, quadrinhos e romances do autor. “Sua descrição bem-humorada da sociedade ganhou espaço nas livrarias e na TV, com a Comédia da Vida Privada. E, como poucos, soube usar a ironia para denunciar a ditadura e o autoritarismo; e defender a democracia. Eu e Janja deixamos o nosso carinho e solidariedade à viúva Lúcia Veríssimo – e a todos os seus familiares”, publicou o presidente.
A Academia Brasileira de Letras (ABL) divulgou nota de pesar pela morte do escritor gaúcho, relembrando sua trajetória: “De volta ao Brasil, atuou em publicidade, antes de entrar para o jornalismo. No jornal Zero Hora, sua coluna se consolidou como referência. Também foi colunista dos jornais O Estado de S.Paulo e O Globo. Ao longo de sua carreira, publicou mais de 60 livros — entre crônicas, contos, romances, literatura infantil e sátiras políticas — com amplo reconhecimento popular e traduções para diversos idiomas. Obras como O Analista de Bagé, Comédias da Vida Privada e As Mentiras que os Homens Contam o tornaram um dos autores mais queridos e bem-sucedidos do país”.
O dramaturgo e escritor Walcyr Carrasco: “Perdemos um dos grandes da nossa literatura. Luis Fernando Verissimo foi o cronista da vida simples, das emoções humanas mais verdadeiras, do cotidiano que só ele sabia transformar em obra. Um gigante que fez da simplicidade a sua genialidade. Descanse em paz!!”, publicou Carrasco.
Principais obras de Luis Fernando Veríssimo

O gaúcho produziu por uma longa parte de sua carreira para veículos jornalísticos do Brasil, passando por funções como revisão, colunista e cartunista, além de também desempenhar coberturas e reportagens – acompanhou nas décadas de 1980 e 1990 a Copa do Mundo para diferentes jornais.
Ele é o criador de personagens que marcaram tirinhas e crônicas de jornais nacionais, como o detetive Ed Mort, uma sátira aos investigadores de histórias norte-americanas, a Família Brasil, que representa uma parentela da classe médica do país, que passa por momentos constrangedores e Dora Avante, uma personagem que critica as dondocas da alta sociedade obcecadas pela juventude. Com uma produção prolífica, seus escritos e quadrinhos para jornais muitas vezes foram reunidos em coletâneas e publicados em formato de livro, como a antologia “Ed Mort, todas as histórias“.
Principais Livros
O Melhor das Comédias da Vida Privada (1994)
Na coletânea, Veríssimo reuniu crônicas com sobre o cotidiano brasileiro, reunindo seus personagens antológicos como Dr. Pompeu, a mulher do Silva e Regininha. Publicado pela editora Ponto de Leitura, a obra se tornou uma série televisiva em 1995, com direção Jorge Furtado e Guel Arraes, e contou com participações de Fernanda Torres, Marieta Severo e Andréa Beltrão.
Sexo na Cabeça (1999)
Com 45 crônicas, a seleção traz as histórias de Verissimo sobre um tema tão popular e que ‘vive na cabeça de todos’: sexo. É o quarto volume da série Ver!ssimo, que relançou toda sua obra com revisão do autor.
As Mentiras que os Homens Contam (2000)
A obra que chegou a ser leitura obrigatória do vestibular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Verissimo reúne das mentiras mais brandas até as complexas que dizemos no dia a dia. Se tornou um dos livros mais vendidos de sua trajetória.
Os Espiões (2009)
Em “Os Espiões”, seu sexto romance, um editor se encanta pelos textos de uma mulher que assina como “Ariadne” – personagem da mitologia grega que ajuda Teseu a sair do labirinto. Nas mãos de Verissimo, Ariadne ganha novos contornos às avessas, e enfeitiça o protagonista e seus amigos de bar. Apesar de já ter escrito outras novelas, esta é a primeira obra escrita pelo autor gaúcho se ter sido ‘encomendada’, ao que Verissimo chamou de “primeiro romance puramente seu”.
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