Manoel Carlos: o magnífico dramaturgo que escrevia como ninguém os dilemas da sociedade, morre aos 92 anos

A televisão está de luto com a morte de Manoel Carlos, um dos maiores dramaturgo das emissoras brasileiras, ocorrido na noite de 10 de janeiro, aos 92 anos. Maneco estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, onde fazia tratamento contra a Doença de Parkinson, que no último ano afetou o desenvolvimento motor e cognitivo.
O Brasil se despediu neste domingo de Manoel Carlos, um dos mais importantes autores da história da televisão brasileira. O magnífico dramaturgo, que escrevia como ninguém os dilemas da sociedade, parte deixando um legado histórico na TV brasileira e marcando o drama nacional com suas obras.
Manoel Carlos construiu uma carreira marcada por tramas realistas, diálogos profundos e conflitos familiares capazes de mobilizar milhões de brasileiros. Suas novelas transformaram o cotidiano da classe média, especialmente do Rio de Janeiro, em narrativa dramática envolvente, onde o amor, o sacrifício, o ciúme e a ética eram protagonistas.

Manoel Carlos estava aposentado desde 2014 e vivia recluso com a família. Manoel deixa a esposa Elisabety Gonçalves de Almeida, com quem era casado desde 1981, e duas filhas, Júlia Almeida e Maria Carolina. que colaborou com ele em diversas obras.
O velório será fechado, restrito à família e a amigos íntimos. “A família agradece as manifestações de carinho e solicita respeito e privacidade neste momento delicado”, diz a nota divulgada pela família.
Maneco também teve outros três filhos, que morreram: o dramaturgo e ator Ricardo de Almeida, em 1988; o diretor Manoel Carlos Júnior, em 2012; e o estudante de teatro Pedro Almeida, aos 22 anos, em 2014.
Manoel Carlos era um especialista de relações humanas, na alma feminina e que soube traduzir como poucos a relação de mãe e filha, eternizadas, em especial, em um personagem recorrente: as Helenas do Maneco. Um dos maiores legados dele foi a criação das icônicas “Helenas”, personagens femininas fortes, complexas e emocionalmente intensas.
O autor também popularizou um bairro como cenário de suas novelas: o Leblon, onde inseriu tipos reais, com sentimentos muito humanos e que sempre se consagraram como sucesso.
“Situo as minhas novelas no Rio de Janeiro. Faço coisas muito fortes, sob um céu muito azul. As tragédias e os dramas acontecem, mas o dia está lindo. A praia e o espírito carioca dão uma coloração rosa ao contexto cinzento, mas o público acaba absorvendo as tramas de maneira mais leve”, disse ao Memória Globo.

Ao longo dos anos, suas novelas ficaram marcadas pelo Rio de Janeiro como cenário — e também como personagem — e pela abordagem dos dilemas da sociedade. Entre as novelas alguns dos sucessos foram “História de Amor”, “Por Amor”, “Laços de Família”, “Mulheres Apaixonadas”, “Baila Comigo”, “Felicidade” , “Páginas da Vida”, “Viver a Vida”, “Em Família”.
Além das novelas, Maneco também produziu minisséries inesquecíveis em 60 anos de carreira como “Malu Mulher” (1980), “Presença de Anita” (2001), ‘Maysa – Quando Fala o Coração’ (2009). Uma carreira que atravessou gerações da TV brasileira.
Além disso, Maneco também motivava ações socioeducativas, abordando temas como campanhas para doação de medula, contra o alcoolismo, violência contra a mulher, preconceito e inclusão social. Para o autor, o drama precisava ser verossímil, próximo da vida real, capaz de gerar reflexão sem perder o apelo popular.
Vida e Carreira do grande dramaturgo brasileiro

Manoel Carlos Gonçalves de Almeida era filho do comerciante José Maria Gonçalves de Almeida e da professora Olga de Azevedo Gonçalves de Almeida. Nasceu em 14 de março de 1933, em São Paulo, mas sempre se considerou carioca de coração.
Maneco começou a trabalhar aos 14 anos como auxiliar de escritório. Mas sua paixão era pelas artes. Ele integrava os Adoradores de Minerva, um grupo de jovens que se reunia diariamente na Biblioteca Municipal de São Paulo para ler e discutir literatura e teatro. Entre os integrantes do grupo estavam Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Fabio Sabag, Flávio Rangel e Antunes Filho.
Aos 17 anos, em 1951, recebeu o primeiro papel como ator, na TV Tupi paulista, onde atuou no ‘Grande Teatro Tupi’, sob a direção de Antunes Filho. No ano seguinte, foi premiado como ator revelação e estreou como produtor e diretor, além de começar a escrever seus programas. Em 1952, começou a escrever programas da TV e iniciou uma trajetória por várias emissoras.
Entre 1953 e 1959, participou da fase inaugural da TV Record; passou pela TV Itacolomi, de Belo Horizonte; TV Rio e TV Tupi, do Rio de Janeiro, onde, além de ator e diretor, adaptou mais de 100 teleteatros; e também passou pelo Jornal do Commercio, em Recife. Na TV Tupi, do Rio de Janeiro, adaptou mais de 100 teleteatros.
Na década de 1960, Manoel Carlos participou das últimas produções da TV Excelsior. Na TV Rio, dividiu a redação do programa ‘Chico Anysio Show’ com Ziraldo e Mário Tupinambá. Foi, ainda, diretor do programa, assim como de um segundo humorístico, ‘O Homem e o Riso’, também com Chico Anysio, exibido pela TV Rio e pela TV Record paulista.
Manoel Carlos foi também um dos criadores da ‘Equipe A’, em 1964, que criaram, escreveram e produziram programas para a Record, como ‘Hebe Camargo’, ‘O Fino da Bossa’, ‘Bossaudade’, ‘Esta Noite se Improvisa’, ‘Alianças para o Sucesso’, ‘Para Ver a Banda Passar’ e ‘Família Trapo’, escrito também por Jô Soares e Carlos Alberto de Nóbrega.

Manoel Carlos estreou na Globo em 1972, como diretor-geral do ‘Fantástico’. Permaneceu na função por três anos, e, nessa época, participou também do ‘Globo Gente’, um programa de entrevistas comandado por Jô Soares. Em 1978, com a experiência de mais de 150 adaptações para a televisão, transformou em novela o romance ‘Maria Dusá’, de Lindolfo Rocha, sob o título de ‘Maria, Maria’. A primeira telenovela de Manoel Carlos na Globo teve direção de Herval Rossano, com Nívea Maria no papel principal, e foi ao ar no horário das 18h.
No mesmo ano, adaptou o romance “A Sucessora”, de Carolina Nabuco. A novela tinha estrelas como Susana Vieira, Rubens de Falco e Arlete Salles. O autor se inspirou em sucessos da radionovela para consolidar seu estilo de escrita em dramaturgia.
Em 1980, além de escrever alguns episódios do seriado “Malu Mulher” – protagonizado por Regina Duarte –, foi convidado por Gilberto Braga para dividir a autoria de “Água Viva”. A novela contava com Reginaldo Faria, Raul Cortez, Betty Faria, Tônia Carreiro, Glória Pires, entre outras estrelas.
Em 1981, escreveu “Baila Comigo”, novela que levou sua primeira Helena ao ar. A personagem era interpretada pela atriz Lílian Lemmertz. As “Helenas” foram peças marcantes dos trabalhos de Maneco. Heroínas nas tramas, as personagens eram mães cujo amor pelos filhos era capaz de superar qualquer desafio.
Em 1991, Maneco levou para a TV a novela “Felicidade”, que começou a esboçar 12 anos antes. A trama foi inspirada em diversos contos de Aníbal Machado e levava a segunda Helena de Maneco, interpretada por Maitê Proença.
Em 1995, mais uma Helena aparecia na tela em “História de Amor”. A personagem de Regina Duarte integrava um triângulo amoroso e era apaixonada por Carlos Alberto (José Mayer), um médico casado com sua rival, Paula (Carolina Ferraz). O autor já afirmou que escreveu a novela para as duas atrizes.
Três anos depois, levou a história de uma mãe que abre mão de seu filho em nome de outra filha, na novela “Por amor”. Novamente, Helena foi interpretada por Regina Duarte. A novela contava com Reginaldo Faria, Raul Cortez, Betty Faria, Tônia Carreiro, Glória Pires, entre outras estrelas.
Outra história de sacrifício materno que marcou a carreira de Maneco foi em “Laços de Família” (2000). Na trama, Vera Fischer viveu Helena, uma mãe que descobre que sua filha está com leucemia e que a única forma de salvá-la era gerar um filho do mesmo pai da garota. Porém, ela não ama mais o homem.
A novela traz uma das cenas mais marcantes das novelas de Maneco: o momento em que Carolina Dieckmann, intérprete de Camila, raspa o cabelo. O autor afirmou que escreveu a personagem especialmente para a atriz.
Com a novela Laços de Família, Maneco venceu vários prêmios como Troféu Imprensa, Troféu Internet e Prêmio Extra de Televisão.
Em ‘Mulheres Apaixonadas’ (2003), Maneco exaltou a força feminina e colocou Christiane Torloni como sua Helena. “Acho que a mulher move o mundo, não só pelo fato dela ser geradora do ser humano, mas porque eu acho a mulher mais forte, mais sofrida, e injustiçada. Tem mais dificuldade na vida e no trabalho e ela faz disso uma fortaleza”, explicou o autor ao falar sobre a novela.

Em 2006, trouxe Regina Duarte para sua terceira Helena. Desta vez, uma médica em “Páginas da Vida”.
Três anos depois, estreou “Viver a Vida”, com Taís Araújo estrelando a primeira Helena negra de Maneco. A atriz interpretava uma top model internacional que, no auge da carreira, largava a profissão para se casar com Marcos (José Mayer), que tem uma filha que luta para se recuperar de um acidente que a deixou paraplégica.
A última Helena de Maneco foi a herdeira de sua primeira musa: o autor convidou Júlia Lemmertz, filha de Lilian Lemmertz, para estrelar “Em Família” (2014).
Outras marcas do autor em suas novelas são o Rio de Janeiro como cenário, em especial o bairro do Leblon, e o mergulho em conflitos familiares.
“Dizem que eu faço uma dramaturgia realista, naturalista, mas eu não acho nada disso. Procuro apenas fazer uma coisa verossímil. O amor se parece em todas as línguas, todos os países. O ódio, a inveja, o ciúme. E eu retrato só essas coisas, entende? E isso tudo existe em qualquer família. Eu ouço muito conversa em café, em bar, e tudo se parece”, explicou Maneco em entrevista à GloboNews em 2016.
Fotos: João Miguel Júnior/Globo e Cedoc/TV Globo













