Lonomia/taturana: saiba como se prevenir da lagarta que tem veneno capaz de matar uma pessoa

O Instituto Butantan alerta para a temporada da perigosa Lonomia, lagarta que pode provocar envenenamento grave e até complicações fatais. A Lonomia é conhecida popularmente como taturana, ela pode ser facilmente reconhecidas pelas cerdas em forma de pequenos “pinheiros” que recobrem todo seu corpo.
A incidência destas lagartas tende a aumentar na época de calor e das chuvas devido à procriação dos animais. A Lonomia é um inseto que tem quatro estágios de desenvolvimento: ovo, lagarta, pupa e mariposa. Curiosamente, trata-se de uma mariposa não muito chamativa, em oposição à lagarta, de cores vívidas. Esse tipo de taturana costuma se camuflar em troncos de árvores, especialmente nos períodos de calor e chuva, muitas vezes agrupada em colônias.


Por isso é necessário redobrar a atenção neste período. No Brasil os registros de envenenamento por Lonomia predominam entre janeiro a abril, podendo ocorrer na zona urbana ou rural.
Para evitar acidentes, a orientação é sempre observar bem os troncos de árvores antes de tocar ou se apoiar. É bom ficar atento a folhas e gravetos ao realizar atividade de jardinagem ou durante as caminhadas pelos parques e gramados. O veneno presente nas cerdas da lagarta pode provocar alteração na coagulação e hemorragia, podendo até levar à morte se o paciente não for tratado rapidamente com o soro antilonômico.
Nos últimos anos foram registrados vários casos, inclusive de mortes, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina atribuídos à lagarta Lonomia obliqua (Saturnídeo), cujos espinhos venenosos em contato com a pele humana podem causar manchas escuras, além de hemorragias externa e interna (síndrome hemorrágica) com possíveis complicações fatais.
O Instituto Butantan, através do Laboratório de Entomologia, realiza pesquisas e identifica insetos de interesse médico que possuem veneno, como por exemplo, as Lonomias/taturanas. O Butantan é o único produtor no mundo do soro antilonômico, que neutraliza os efeitos do veneno dessa taturana, desde 1996 e está disponível gratuitamente no SUS.

A diretora técnica de produção de soros do Butantan, Fan Hui Wen, explica que grande parte dos envenenamentos com Lonomia acontece nos membros superiores, como mãos, braços e até nas costas, principalmente porque o animal vive aglomerado nos troncos das árvores e as pessoas podem se apoiar neles sem perceber. Esse agrupamento, inclusive, pode ser um agravante – afinal, quanto mais indivíduos juntos, maior pode ser o volume de veneno inoculado.

“Nessa hora, é importante manter a calma e fazer o reconhecimento pelas características do animal. Para as lagartas peludas, a indicação é lavar e realizar compressa gelada no local do contato e procurar uma unidade de saúde caso a dor seja intensa”, orienta a diretora técnica de produção de soros do Butantan. Agora, se o bicho for do tipo “espinhudo”, tente tirar uma foto do exemplar e siga para uma unidade de pronto atendimento, onde os profissionais de saúde devem buscar a confirmação se o acidente foi ou não provocado por Lonomia.
Em casos positivos, inicia-se então uma série de protocolos para acompanhar a evolução do quadro. O primeiro passo é realizar uma coleta de sangue e verificar a coagulação do paciente. Mesmo que esteja tudo certo, o recomendado é que a pessoa permaneça em observação entre 6 e 12 horas. Se houver alterações que indiquem que há envenenamento sistêmico no período, é feita a administração do soro antilonômico, que neutraliza os efeitos do veneno – são ministradas cinco ampolas para quadros moderados e dez para graves.

“O que pode acontecer é da pessoa encostar numa lagarta, não saber que se trata de uma Lonomia e procurar atendimento muitas horas ou dias depois, com situações bem agravadas”, alerta Fan. Tudo começa com dor em queimação, irritação local, vermelhidão e inchaço leve.
Depois, algumas pessoas podem apresentar dor de cabeça, náuseas e vômitos, seguidos por sangramentos na gengiva, nariz e urina, além do aparecimento de manchas arroxeadas pelo corpo. Esses são sintomas extremamente preocupantes e indicam a necessidade imediata de atendimento médico.
Soro antilonômico

O Butantan é o único produtor mundial do soro específico para o tratamento dos envenenamentos moderados e graves causados por lagartas do gênero Lonomia. Disponível gratuitamente em todo o território brasileiro pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 1996, o imunobiológico também já ajudou a salvar vidas no Peru, Colômbia, Argentina, Uruguai e Guiana Francesa.
O produto é resultado de um período intenso de trabalhos que se iniciou ainda no final da década de 1980, quando um aumento no número de acidentes com agravantes foi observado nas cidades de Passo Fundo (RS) e Chapecó (SC).
Na época, o Butantan foi procurado pelas autoridades de saúde da região e a hematologista e pesquisadora do Instituto Eva Kelen, já falecida, foi quem ficou à frente dos estudos sobre o veneno do animal e os envenenamentos causados por ele. “Eu estava no início da minha carreira. Me lembro que a dra. Eva tinha acabado de retornar de uma de suas viagens ao Sul. Ela foi até mim com uma pilha de papel-almaço cheios de anotações sobre os pacientes e disse: ‘agora é com você’”, lembra a atual diretora técnica de produção de soros, que é médica e então tinha acabado de ingressar no Butantan.

Sob a liderança do então pesquisador do Laboratório de Imunoquímica e atual liderança científica do Butantan, Wilmar Dias da Silva, em pouco tempo o Instituto produziu um soro capaz de reverter os sinais e sintomas do envenenamento por Lonomia. Estudos conduzidos por grupos de pesquisadores em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul mostraram que o soro antilonômico era capaz de combater um então recente problema de saúde pública. “Sem dúvidas, foi um grande aprendizado para mim”, reflete Fan.
Assim como os outros 11 soros produzidos pelo Butantan contra toxinas de microrganismos e animais peçonhentos como serpentes, aranhas e escorpiões, o soro antilonômico envolve a imunização de cavalos e a obtenção do plasma do animal, que posteriormente é purificado e formulado para dar origem ao produto final.

“Para a fabricação dos antígenos nós precisamos, literalmente, ‘depilar’ a lagarta. Depois, forma-se um ‘chumaço de espinhos’ que será macerado em uma solução líquida. É como se a gente fizesse uma ‘caipirinha’ com essas cerdas venenosas”, esclarece a pesquisadora. Por fim, o líquido retirado vai para uma centrífuga que separa os restos de espinhos da substância de interesse que será usada na imunização dos cavalos.
Diferentemente do que acontece com os outros soros de animais peçonhentos, as lagartas empregadas na cadeia produtiva não podem ser reaproveitadas, pois extravasam sua hemolinfa durante o processo e acabam morrendo. Para garantir o volume produtivo dos soros necessários para salvar vidas, o Butantan mantém parcerias com secretarias de diversos estados da região Sul e do próprio Distrito Federal, que realizam a coleta do animal. A retirada fica a cargo do Instituto.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, 500 a 1.000 acidentes com a lagarta Lonomia são registrados anualmente no país. A orientação para evitar possíveis incidentes é sempre observar bem troncos onde a pessoa toca ou apoia, assim como ao manusear folhas e gravetos e ao realizar atividades de jardinagem ou outros trabalhos ao ar livre, e sempre que possível fazer o uso de luvas.
Fotos: Acervo Butantan e Reprodução













