Heloisa Teixeira: a voz do feminismo e da crítica cultural do Brasil, morre aos 85 anos

Bernadete Alves
Morre Heloisa Teixeira: uma das maiores pensadoras do feminismo no Brasil

A escritora Heloisa Teixeira, integrante da Academia Brasileira de Letras, faleceu nesta sexta-feira 28 de março, aos 85 anos, por complicações de pneumonia e insuficiência respiratória aguda. A imortal da ABL estava internada na Casa de Saúde São Vicente, na Gávea, zona sul do Rio.

O Brasil perde uma das maiores intelectuais das últimas seis décadas e uma das principais pensadoras do feminismo. Pesquisadora, ensaísta, escritora, editora, crítica cultural que escreveu obras seminais sobre as relações entre a cultura e o desenvolvimento. A professora emérita da Escola de Comunicação da UFRJ, parte deixando um rico legado do seu olhar e percepção intelectual diferenciada sobre as culturas marginalizadas, as relações de gênero e compromisso com uma cultura mais justa e plural.

Bernadete Alves
Escritora Heloisa Teixeira: a voz do feminismo e da crítica cultural do Brasil

A mestra foi imensa e conseguia transformar tudo e todos ao seu redor. Heloisa acreditava no saber como algo vivo, coletivo, construído nas trocas e encontros. Ela derrubou barreiras, abriu caminhos e mostrou que conhecimento não tem dono. Fará falta suas interrogações e conclusões, mas seu pensamento original, contemporâneo e progressista permanecerão como referência e sua luz continuará nos inspirando.

Heloísa Teixeira deixa os  filhos, os cineastas Lula, André e Pedro e incontáveis admiradores.

Bernadete Alves
Heloisa Teixeira toma posse na ABL com os aplausos de Fernanda Montenegro

A Academia Brasileira de Letras lamentou ter que informar a morte da escritora e comentou sobre a importância de sua presença entre os integrantes da ABL.

“Nossa querida Helô foi imensa – e deixa um legado incontestável de pensamento crítico, generosidade e compromisso com uma cultura mais justa, plural e inclusiva. Eleita em 2023 para a cadeira 30 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a escritora Nélida Piñon, Heloisa trouxe à ABL não apenas sua brilhante sagacidade intelectual, mas também um espírito de acolhimento e fraternidade que marcou profundamente todos com quem conviveu.” A escritora tomou posse na ABL em 28 de julho de 2023.

A imortal da ABL, por décadas, assinou seus livros como Heloisa Buarque de Hollanda. Abandonou o sobrenome do primeiro marido, dias antes de assumir a Cadeira 30 da ABL em 2023. A autora e organizadora de inúmeras obras, decidiu assinar em 2024, o primeiro livro como Heloisa Teixeira, sobrenome materno, em “Rebeldes e marginais: Cultura nos anos de chumbo (1960-1970)”.

Bernadete Alves
Imortal Heloisa Teixeira: a voz do feminismo e da crítica cultural do Brasil

Durante um longo período de sua vida, Heloisa estudou obstinadamente a produção cultural brasileira sob a mão pesada da ditadura militar e da censura. Sobre esse tema, ela escreveu uma tese de doutorado, quatro livros e inúmeros artigos examinando a cultura como resistência e afirmação da juventude rebelde da época. Agora, octogenária, decide compartilhar essas fontes, reunir e reorganizar o material que produziu sobre a época que a cultura enfrentou estruturas, ditaduras e soube sonhar novos futuros. O livro é um precioso apanhado de décadas de pesquisa apresentado a partir de um olhar atual sobre o que aconteceu naqueles anos 1960/1970.

A décima mulher a se tornar ‘imortal’, nasceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Formada em Letras Clássicas pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), com mestrado e doutorado em literatura brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-doutorado em sociologia da cultura na Universidade de Columbia, em Nova York, foi diretora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea da faculdade de Letras Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá, coordenou o Laboratório de Tecnologias Sociais, do projeto Universidade das Quebradas, e o Fórum M, espaço aberto para o debate sobre a questão da mulher na universidade.

Fotos: Reprodução