Lula reafirma soberania e diz que Brasil não aceitará desaforo de ninguém

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou nesta terça-feira 26 de agosto, a segunda reunião ministerial de 2025. Ao citar a atual política dos Estados Unidos, de elevar as tarifas contra parceiros comerciais, o presidente afirmou que o Brasil não aceitará “desaforo, ofensas e petulância de ninguém”. Lula orientou seus ministros a defenderem a soberania do país em seus discursos públicos.

“Nós somos um país soberano, nós temos uma Constituição, nós temos uma legislação e quem quiser entrar nesses 8,5 milhões de quilômetros quadrados, no nosso espaço aéreo, no nosso espaço marítimo, nas nossas florestas, tem que prestar contas à nossa Constituição e à nossa legislação”, disse o presidente aos ministros.
Para Lula, as decisões do presidente estadunidense, Donald Trump, são descabidas. Ainda assim, o governo brasileiro segue à disposição para negociar as questões comerciais. “Estamos dispostos a sentar na mesa em igualdade de condições. O que não estamos dispostos é sermos tratados como se fôssemos subalternos. Isso nós não aceitamos de ninguém. É importante saber que o nosso compromisso é com o povo brasileiro”.

“É importante que cada ministro, nas falas que fizerem daqui para frente, façam questão de retratar a soberania desse país. Nós aceitamos relações cordiais com o mundo inteiro, mas não aceitamos desaforo e ofensas, petulância de ninguém. Se a gente gostasse de imperador, o Brasil ainda seria monarquia. A gente não quer mais. A gente quer esse país democrático e soberano, republicano”, acrescentou.
Lula reafirmou a disposição do país em dialogar, mas exigiu “igualdade de condições”. “O que não estamos dispostos é sermos tratados como se fosse subalternos. Isso nós não aceitamos de ninguém”, afirmou. “Nós aceitamos relações cordiais com o mundo inteiro, mas não aceitamos desaforo e ofensas, nem petulância de ninguém. Se a gente gostasse de imperador, a gente não tinha acabado com o império. Se a gente gostasse de imperador, o Brasil ainda seria monarquia”, declarou o presidente da República.
O presidente disse ainda que o Brasil seguirá buscando proteger a economia e celebrou a missão de alto nível que parte para o México nesta quinta-feira (28), liderada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), para dialogar sobre o apoio bilateral no enfrentamento às tarifas.
“Eu conversei com a Cláudia [Sheinbaum, presidente do México] e disse para ela que eu ia mandar o meu vice-presidente da República e alguns ministros e empresários para que a gente possa descobrir o potencial de relação que tem entre México e Brasil. Essa vai ser um uma viagem muito importante e eu estou muito certo que será uma viagem de sucesso”, destacou o presidente. A missão ainda contará com os ministros da Agricultura, Carlos Fávaro, e do Planejamento, Simone Tebet, além de empresários brasileiros.
Ele voltou a criticar Trump como um “imperador do mundo”. “Se a gente gostasse de imperador, a gente não tinha acabado o império. Se a gente gostasse de imperador, o Brasil ainda seria monarquia”, ironizou — o comentário arrancou risos dos ministros.
Lula qualificou a atuação da família Bolsonaro como uma das “maiores traições que uma pátria sofre de filhos seus”, se referindo à articulação levada adiante pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL/SP), financiada pelo pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro, para instigar o governo dos Estados Unidos a aplicarem sanções ao Brasil.

“O que está acontecendo hoje no Brasil com a família do ex-presidente e com o comportamento do filho dele nos Estados Unidos é possivelmente uma das maiores traições que uma pátria sofre de filhos seus. Não existe nada que possa ser mais grave do que uma família inteira ter um filho custeado pela família, um cidadão que já deveria ter sido expulso da Câmara dos Deputados, insuflando, com mentiras e com hipocrisias, outro Estado contra o Estado nacional do Brasil. Isso é inexplicável”, declarou.
“Não existe nada que possa ser mais grave do que uma família inteira ter um filho – um cidadão que já deveria ter sido expulso da Câmara dos Deputados – insuflando, com mentiras e com hipocrisia, outro Estado contra o Estado Nacional do Brasil.”
Ele fez referência a Eduardo Bolsonaro (PL-SP), considerado um dos responsáveis pela articulação do tarifaço junto ao governo Trump. Morando nos Estados Unidos, o deputado tem lutado contra o julgamento do pai no STF (Supremo Tribunal Federal) e usado as sanções norte-americanas para fazer pressão por anistia aos réus da trama golpista.
O presidente cobrou fidelidade de seus ministros e afirmou que espera que eles defendam sua gestão, principalmente nos atos de oposição organizados por seus partidos. Disse que não gostaria de constranger ninguém, mas que não gostaria de ser constrangido. E espera que todos os ministros tenham consciência.

O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, que está à frente das negociações sobre o tarifaço, apresentou números atualizados sobre o impacto das medidas no comércio brasileiro. Segundo ele, 35,6% de tudo que é exportado pelo Brasil ao país norte-americano estão sob uma tarifa de 50%.
O tarifaço imposto ao Brasil faz parte da nova política da Casa Branca, inaugurada pelo presidente Donald Trump, de elevar as tarifas contra parceiros comerciais na tentativa de reverter a relativa perda de competitividade da economia dos Estados Unidos para a China nas últimas décadas.
No dia 2 de abril, Trump impôs barreiras alfandegárias a países de acordo com o tamanho do déficit que os Estados Unidos têm com cada nação. Como os EUA têm superávit com o Brasil, na ocasião, foi imposta a taxa mais baixa, de 10%.
Porém, em 6 de agosto, Trump aplicou uma tarifa adicional de 40% contra o Brasil em retaliação a decisões que, segundo ele, prejudicariam as big techs estadunidenses e em resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de liderar uma tentativa golpe de Estado após perder as eleições de 2022.
Além disso, Alckmin explicou que 23,2% das exportações ao país norte-americano são taxados de acordo com a Seção 232 da Lei de Expansão Comercial norte-americana, que é aplicada a todos os países, com exceção do Reino Unido. Para aço, alumínio e cobre, por exemplo, a tarifa é de 50%; automóveis e autopeças são taxados em 25%. O restante dos 41,3% de produtos exportados aos EUA tem uma tarifa de 10%.
O vice-presidente lembrou que o governo brasileiro atua para socorrer as empresas impactadas pelo tarifaço.
No último dia 13, Lula assinou a medida provisória que cria o Plano Brasil Soberano. As medidas incluem uma linha de crédito no valor de R$ 30 bilhões para exportadores, mudança nas regras do seguro de crédito à exportação e em fundos garantidores, suspensão de tributos incidentes sobre insumos importados (drawback) e compras governamentais de gêneros alimentícios que deixaram de ser exportados.
Além disso, a política de comércio exterior do governo é de abertura de novos mercados para os produtos brasileiros. Alckmin falou que ele e outros ministros vão ao México, para tratar do potencial de ampliação do comércio entre os dois países. Segundo ele, há possibilidades nas áreas agrícola, de biocombustível, aviação, energia e industrial.
“O presidente Lula tem orientado diálogo permanente, soberania, Brasil não abre mão da sua soberania, Estado de Direito, separação dos poderes, que é a peça basilar do Estado de Direito e, ao mesmo tempo, negociação e diálogo para a gente corrigir essa absoluta distorção da política regulatória”, acrescentou.
Fotos: Ricardo Stuckert / PR













