Mino Carta: guardião da memória crítica do país, morre aos 91 anos

Faleceu nesta terça-feira, 2 de setembro o jornalista Mino Carta, fundador das revistas Veja e Carta Capital, aos 91 anos, em São Paulo. Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Sírio-Libanês tratando uma série de problemas de saúde. As informações foram divulgadas pelo jornal CartaCapital, empresa de comunicação fundada por Mino em 1994.
Mino marcou a história do jornalismo no Brasil. Foi um formador de gerações. Sob sua liderança, repórteres e editores aprenderam a valorizar a apuração rigorosa e a ousadia editorial. Sua influência se espalhou por redações de todo o país e moldou a forma como o jornalismo brasileiro encara os desafios do poder político e econômico.
Mino teve papel importante na imprensa durante momentos como a redemocratização do Brasil. Foi uma voz incansável contra as farsas da elite e guardião da memória crítica do país. Atravessou décadas desvendando verdades que muitos tentaram esconder. Ele deixa um legado criativo e de compromisso com a verdade. Nossa solidariedade aos familiares e amigos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em suas redes sociais que recebeu “com muita tristeza” a morte do “meu amigo Mino Carta”. “Em meio ao autoritarismo do regime militar, as publicações que dirigia denunciavam o abuso dos poderosos e traziam a voz daqueles que clamavam pela liberdade”, escreveu o presidente.
Lula viajou de Brasília a São Paulo para comparecer ao velório do fundador de CartaCapital e disse que o ‘O Brasil perde hoje seu melhor jornalista’. “Fiz questão de vir aqui porque é a despedida de um grande companheiro. A gente não escolhe irmão, a gente não escolhe nem pai e nem mãe, agora, companheiro, a gente escolhe. E o Mino Carta foi um cara escolhido para ser meu companheiro”, disse o presidente.

Mino começou a carreira na revista Quatro Rodas, da editora Abril, especializada em automóveis, “mesmo sem saber dirigir nem diferenciar um Volkswagen de uma Mercedes, como se orgulhava de dizer”, contou a CartaCapital.
O jornalista ítalo-brasileiro, nascido em Gênova, batizado como Demétrio, integrou a terceira geração de jornalistas da família. O avô, Luigi Becherucci foi diretor do jornal genovês Caffaro, mas perdeu o cargo durante a perseguição fascista; já o pai de Mino, Giannino foi preso em 1944 por fazer oposição a Benito Mussolini. Ele conseguiu fugir meses depois. Com o fim da Segunda-Guerra, a família de Mino veio para o Brasil. Na época ele tinha 13 anos.
A história de Mino no jornalismo começa aos 16 anos. Seu pai Giannino deveria escrever sobre os preparativos do Brasil para a Copa do Mundo de 1950. Como ele não gostava de futebol, ofereceu a empreitada ao filho que questionou qual seria o pagamento. Ao saber o valor pensou “posso comprar um terno azul com esse dinheiro” e a partir dali não deixou de escrever mais.
Em 1956, a família retornou para Itália onde Mino começou a trabalhar como jornalista e correspondente. Anos depois, o pai de Mino volta ao Brasil para assumir o comando da editoria de internacional do Estado de São Paulo e o irmão de Mino, Luiz, assume a editora Abril. Por insistência da família, Mino aceitou o desafio de comandar a revista Quatro Rodas no Brasil. A publicação que já era um sucesso na Itália, teve grande destaque também no Brasil. Depois, Mino assumiu a editora de esportes do Estadão.
Mino Carta também atuou na criação do Jornal da Tarde das revistas Veja e IstoÉ. Naquela época, em 1968, ele começou a ter problemas com a ditadura militar que se irritava com as capas elaboradas e autorizadas por Mino Carta.
O profissional ainda esteve à frente da equipe fundadora do Jornal da Tarde, em 1966, e do Jornal da República, em 1979. Nesse último, fundado em parceria com o jornalista Claudio Abramo, Mino tentou aproveitar a abertura política iniciada pela ditadura militar, mas o projeto não vingou por questões econômicas e políticas. Segundo Mino, o Jornal da República “sofria a oposição dos jornalões”.

Em 1994, Mino Carta criou a CartaCapital e dizia se orgulhar do produto final sendo “a melhor revista que criou”. Inicialmente a publicação era mensal, mas em seguida, passou a ser quinzenal. Em circulação até os tempos atuais, a CartaCapital acabou de completar 31 anos e segue com as publicações impressas, além do conteúdo online.
A Carta Capital é uma revista conhecida por manter uma visão mais “progressista” dos acontecimentos, em contraste com as publicações de tom mais “conservador” ou “liberal”. A publicação se propõe a ser “maior referência em jornalismo progressista no Brasil, em qualquer plataforma”.
Em 2014, a Câmara dos Deputados produziu um documentário que conta a trajetória de Mino Carta no Brasil e destaca como ele se tornou referência no jornalismo brasileiro.
Em 2024, Mino Carta foi destaque no livro eletrônico “Mino Carta Sem Fé nem medo, Memória do Jornalismo Brasileiro Contemporâneo”, escrito por Lira Neto.
A entrevista aborda aspectos da vida pessoal e profissional de Mino, que na verdade recebeu outro nome no batismo. “Meu nome é Demétrio, o mesmo de meu avô paterno. Mas não gosto dele. Acho horrível. Sobretudo porque evoca a memória de um “avô-patrão”, algo típico dos varões sardos (naturais dailha da Sardenha), sempre dispostos a manter o comando da família de maneira abrupta, às vezes violenta. […] Tão logo pude, me livrei desse nome, do qual poucos têm conhecimento, o que, na verdade, me deixa contente. Recebi o apelido Mino de meu pai, Giannino Carta, grande jornalista.”
Mino era artista plástico e ilustrador e também se dedicou à literatura, publicando romances como Castelo de Âmbar (2000) e A Vida de Mat (2016), onde refletia sobre memória, filosofia e existência. Mas foi no jornalismo que deixou sua marca definitiva, consolidando uma herança de coragem e independência que continua a inspirar profissionais da imprensa até hoje.
Mino foi um gênio nas mais relevantes publicações da imprensa nacional. Reinventou a imprensa brasileira e definiu o verdadeiro papel do jornalista: defensor da verdade factual e fiscal do poder. Hoje nos despedimos do grande mestre do jornalismo e da comunicação, mas ficamos com a certeza de que a sua voz seguirá ecoando nas páginas da nossa história.
Descanse em paz, Mino Carta! Sua missão seguirá inspirando o jornalismo e a democracia brasileira. Sua palavra foi trincheira contra o autoritarismo e semente fecunda da democracia com justiça social.
Fotos: Reprodução













