Luiz Carlos Barreto: referência do cinema brasileiro, morre aos 98 anos

O cinema brasileiro está de luto com o óbito de um de seus maiores protagonistas: Luiz Carlos Barreto, diretor, fotógrafo, jornalista e produtor de cinema. O ícone do cinema brasileiro, conhecido como Barretão, faleceu ontem no Hospital Copa Star, em Copacabana, RJ, aos 98 anos. Ela tratava uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia.
O velório de Barretão, responsável por uma das trajetórias mais importantes da história do audiovisual nacional, foi realizado nesta quinta-feira, 23 de julho no Palácio da Cidade, em Botafogo e o corpo foi cremado no Memorial do Caju. Luiz Carlos Barreto deixa uma lacuna irreparável.

O cineasta era casado com a também produtora Lucy Barreto há 71 anos. Ele teve 3 filhos, que seguiram a profissão: Bruno, Fábio (falecido em 2019) e Paula. Luiz Carlos também deixa 9 netos e 8 bisnetos. O Brasil e o cinema brasileiro devem muito ao Luiz Carlos Barreto, um dos mais importantes nomes da produção cinematográfica nacional.
Ele revelou talentos, fortaleceu a indústria audiovisual e ajudou a contar, por meio do cinema, a história do Brasil para o mundo. Barretão dedicou sua vida à cultura brasileira, à defesa dos direitos humanos e a realização de obras fundamentais premiadas no exterior.

A história da família Barreto se confunde com a própria história do cinema brasileiro. Os três filhos do casal, Bruno Barreto, Fábio Barreto e Paula Barreto, seguiram carreira no audiovisual e assumiram papéis importantes na produtora. A paixão pelo cinema nasceu ainda dentro da casa da família, onde foi instalada uma das primeiras moviolas do país.
Eles criaram uma produtora de cinema, a LC Barreto, e tocaram mais de 150 filmes. “Barretão” construiu uma trajetória de mais de 60 anos dedicada ao audiovisual, iniciada no Cinema Novo, com “Vidas Secas” e “Terra em Transe”. Entre as mais de 100 obras que dirigiu ou produziu estão os campeões de bilheteria “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “O Quatrilho” e “O Que É Isso, Companheiro”.
A família Barreto levou o Brasil 2 vezes ao Oscar: com “O Quatrilho”, dirigido por Fábio, e “O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva decretou luto oficial de três dias pela morte do produtor de cinema Luiz Carlos Barreto. Em publicação no X, Lula afirmou que o cinema do país deve parte de sua trajetória sua ao trabalho desenvolvido por Barreto ao longo das últimas décadas.

“O cinema brasileiro deve muito a Luiz Carlos Barreto, que nos deixou nesta quarta-feira. Seu amor pelo Brasil, seu talento e, sobretudo, seu espírito inquieto o transformaram no mais importante produtor do cinema nacional nos últimos cinquenta anos“. O presidente citou a participação de Barreto no Cinema Novo, durante a década de 1960. “Quando a arte tinha que lutar contra a censura e o autoritarismo, Barretão ocupou papel central em nossa produção cinematográfica”.
“Como poucos, Luiz Carlos Barreto soube defender nossa produção audiovisual. Lutou por políticas públicas para o setor. Ajudou a criar, no Brasil, toda uma cadeia de gente talentosa e extremamente profissional que hoje nos traz o orgulho na forma de Oscars, Leões de Ouro e muito prestígio internacional”, declarou o presidente da República.
Vida e obra de Barreto

Luiz Carlos Barreto nasceu em Sobral, no Ceará, em 20 de maio de 1928. Ele viveu no Ceará até 1947, quando se mudou para o Rio. Na capital fluminense, ele trabalhou como jornalista e fotógrafo nos anos 1950.
Luiz Carlos Barreto construiu carreira como fotojornalista da revista O Cruzeiro, onde trabalhou como repórter fotográfico e correspondente na Europa. Cobriu acontecimentos históricos e fotografou personalidades como Frank Sinatra, Fidel Castro e Marilyn Monroe.
O primeiro contato com uma produção cinematográfica ocorreu ainda na infância, quando acompanhou a passagem de Orson Welles pelo Ceará, durante as filmagens de um documentário sobre os jangadeiros. Mais tarde, um encontro com Glauber Rocha, durante as filmagens de Barravento, mudaria definitivamente seu destino, aproximando-o do Cinema Novo.
Como diretor de fotografia, Barretão ajudou a construir a identidade visual de duas obras-primas do cinema brasileiro: “Vidas Secas” (1963) e “Terra em Transe” (1967). Depois, como produtor, tornou-se um dos principais articuladores do audiovisual brasileiro, ampliando a capacidade de produção nacional e levando filmes brasileiros aos maiores festivais do mundo.

Em outubro de 2023, aos 95 anos, Luiz Carlos Barreto e Lucy Barreto participaram do programa Cine Resenha, da TV Brasil, em uma edição especial dedicada à trajetória da LC Barreto. Durante a entrevista, o casal relembrou o início da carreira, o período em que o jornalismo antecedeu o cinema, as histórias da família e a construção da produtora, que se transformou em uma das mais importantes da América Latina. O especial também homenageou a filmografia da empresa e destacou a contribuição do casal para o desenvolvimento do cinema nacional.
Ao longo dos anos, o produtor recebeu as mais importantes homenagens em reconhecimento ao trabalho. Em 1994, ele foi laureado com o troféu Sereia de Ouro, entregue pelo Grupo Edson Queiroz. Já em 2024, Barretão foi condecorado com a Medalha da Abolição, do Governo do Ceará.
Fotos: Fernando Frazão/Agência Brasil e Reprodução













