Papa Leão celebra Dia da Alimentação em evento na FAO e diz: vencer a fome é semear a paz

Bernadete Alves
Papa Leão celebra Dia da Alimentação em evento na FAO com a presença da primeira-dama do Brasil Janja Lula da Silva

A cerimônia do Dia Mundial da Alimentação e da celebração dos 80 anos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma, contou com a presença do Papa Leão XIV, do chinês Qu Dongyu, diretor geral da FAO, da primeira-dama dama do Brasil Janja Lula da Silva, dentre outros importantes líderes mundiais.

A primeira-dama brasileira Janja Lula da Silva participou nesta quinta-feira, 16 de outubro, das comemorações. Janja representa o Brasil na coordenação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza e combate as desigualdades.

Bernadete Alves
Papa Leão celebra Dia da Alimentação em evento na FAO e diz: vencer a fome é semear a paz

Em seu discurso, o Papa Leão XIV expressou profundo agradecimento pelo convite e recordou que seus predecessores sempre mantiveram uma relação de estima e proximidade com a FAO, e declarou que visita a instituição como arauto e servo do Evangelho, levando uma mensagem de esperança a todos os povos:

Bernadete Alves
Papa Leão XIV na sede da FAO em Roma no Dia Mundial da Alimentação

Durante a celebração dos 80 anos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), data celebrada com o tema “De mãos dadas por uma alimentação e um futuro melhores”. O Papa exortou líderes e nações a renovar o compromisso com a Agenda Fome Zero e com a segurança alimentar global. O Pontífice destacou que a luta contra a fome “é uma batalha de todos” e advertiu: “os slogans não tiram ninguém da miséria”.

Leão XIV afirmou que , oitenta anos após a fundação da FAO, a consciência da humanidade deve novamente se deixar interpelar pelo drama da fome e da desnutrição, lembrando que este problema não é responsabilidade exclusiva de governos, empresários ou líderes políticos.

“Quem padece de fome não é um estranho. É meu irmão , e devo ajudá-lo sem demora”, declarou. Segundo o Papa, “vencer a fome é uma condição especial para a paz e o desenvolvimento integral das nações”.

Com voz firme e diante de uma grande assembleia composta de líderes políticos e agentes sociais, o Pontífice denunciou o escândalo de milhões de pessoas que ainda sofrem de fome em meio ao progresso tecnológico e científico. “Permitir que milhões de seres humanos vivam e morram vítimas da fome é um fracasso coletivo, uma aberração ética, uma culpa histórica.” Leão recordou que 673 milhões de pessoas no mundo vão dormir sem comer e que outras 2,3 bilhões não têm acesso a uma alimentação adequada: “Por trás de cada número há uma vida despedaçada, uma comunidade vulnerável; há mães que não podem alimentar seus filhos”, ressaltou.

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Janja Lula da Silva na celebração do Dia da Alimentação em evento na FAO com participação do Papa Leão XIV, em Roma

O Papa também denunciou o uso do alimento como arma de guerra, condenando a prática que impede comunidades inteiras de terem acesso ao sustento. “A fome imposta é um crime contra a humanidade. O silêncio dos que morrem de fome grita à consciência de todos, mesmo que muitas vezes seja ignorado ou distorcido.” E com vigor profético, afirmou: 

Leão XIV convidou a humanidade a romper a indiferença e a agir de forma concreta. “Ninguém pode permanecer à margem dessa luta: é uma batalha de todos.” Segundo ele, o desperdício de alimentos é um insulto à dignidade humana. “Como podemos tolerar que toneladas de alimentos sejam jogadas fora, enquanto multidões buscam nos lixos algo para comer?”, questionou o Pontífice. “O mundo não pode continuar assistindo a espetáculos tão macabros”, destacou o Santo Padre, é preciso pôr fim a isso o quanto antes:

“Os responsáveis políticos e sociais podem continuar polarizados, gastando tempo e recursos em discussões inúteis e virulentas, enquanto aqueles a quem deveriam servir continuam esquecidos e usados em nome de interesses partidários? Não podemos nos limitar a proclamar valores. Devemos incorporá-los. Os slogans não tiram ninguém da miséria. É urgente superar um paradigma político tão acirrado, baseando-nos em uma visão ética que prevaleça sobre o pragmatismo vigente, que substitui a pessoa pelo lucro. Não basta invocar a solidariedade: devemos garantir a segurança alimentar, o acesso aos recursos e o desenvolvimento rural sustentável.”

Bernadete Alves
Dia Mundial da Alimentação e da celebração dos 80 anos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, com presença do Papa Leão e Janja Lula da Silva

Ao comentar o tema do Dia Mundial da Alimentação: “De mãos dadas por uma alimentação e um futuro melhores”, o Papa sublinhou que não basta promover ideais ou slogans: é preciso transformar palavras em gestos concretos. “Somente unindo as nossas mãos poderemos construir um futuro digno, onde a segurança alimentar seja reafirmada como um direito e não um privilégio.”

O Pontífice destacou também o papel essencial da mulher na luta contra a fome. “As mulheres são as primeiras a velar pelo pão que falta, a semear esperança nos sulcos da terra e a amassar o futuro com as mãos calejadas pelo trabalho.” Reconhecer e valorizar esse papel, disse ele, “não é apenas uma questão de justiça, mas uma garantia de um modo de vida mais humano e sustentável.”

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Papa Leão no Dia Mundial da Alimentação e da celebração dos 80 anos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura

O Papa defendeu o fortalecimento do multilateralismo e da cooperação entre as nações, especialmente em favor dos mais pobres. “Os países mais vulneráveis esperam ser ouvidos sem filtros, ter suas carências compreendidas e receber oportunidades reais, não soluções impostas de escritórios distantes.” Leão XIV lembrou que as consequências das injustiças recaem sobre toda a humanidade, e citou os povos que sofrem em regiões marcadas por guerra e pobreza, como Ucrânia, Gaza, Haiti, Afeganistão, Mali, República Centro-Africana, Iêmen e Sudão do Sul. “A comunidade internacional não pode virar o rosto. Devemos assumir a dor deles como nossa.” O Papa exortou a todos a não se acostumarem à fome como um “ruído de fundo” do mundo contemporâneo: “Com nossa omissão, tornamo-nos cúmplices da injustiça.”

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Papa Leão XIV recebe os aplausos da assembleia da FAO e líderes mundiais em Roma

Encerrando sua participação nesta data tão importante, Leão XIV invocou a bênção de Deus sobre os funcionários da FAO e sobre todos os que trabalham em favor da segurança alimentar e da justiça social. “A fome tem muitos nomes e pesa sobre toda a família humana. Todo ser humano tem fome não apenas de pão, mas também de fé, de esperança e de amor.”

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Qu Dongyu, diretor geral da FAO, recebe o Papa Leão XIV na celebração dos 80 anos da instituição

E recordando o Evangelho, concluiu:

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Papa Leão XIV na sede da FAO em Roma na celebração do 80 anos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)
Bernadete Alves
Papa Leão XIV cumprimenta Janja da Silva, primeira-dama do Brasil, na celebração dos 80 anos da FAO em Roma

Em entrevista à RFI, Janja falou da importância do evento ao lado do Papa e da honra em estar ao lado de diversos líderes mundiais na celebração do Dia Mundial da Alimentação. “A data, que também marca os 80 anos da FAO, nos convida a refletir sobre justiça social, sustentabilidade e dignidade”.

Janja disse que o combate à fome é a principal missão de vida do presidente Lula e, ao seu lado, como promotora da Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza, e Embaixadora da Alimentação Escolar no Brasil, tem trabalhado para que todas as brasileiras e brasileiros tenham acesso a três refeições dignas diárias.

Lembrou que o Brasil, sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, saiu do Mapa da Fome da FAO duas vezes. A segunda em tempo recorde. “A transformação que queremos para hoje e para o futuro só será possível com a vontade política de líderes, a ampliação da presença de mulheres e jovens em espaços de decisórios em todos os níveis, e na construção de sistemas alimentares mais justos para todas e todos”.

Bernadete Alves
Janja Lula da Silva, primeira – dama do Brasil durante entrevista à RFI sobre a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza

A primeira-dama disse que a Aliança foi lançada em 2024, durante a presidência brasileira do G20, e que busca reduzir a fome e a pobreza ao mesmo tempo em que combate as desigualdades até 2030. A proposta é também acelerar a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Em menos de um ano a iniciativa já reúne 201 membros, dos quais 81 países, várias instituições financeiras e associações filantrópicas.

Janja explicou que o Brasil está confiante em conectar com o mundo as experiências de políticas públicas com financiamento. “A acho que a maior dificuldade que os países do sul global tem é em se conectar financiamentos para que possam desenvolver de modo estruturante as suas políticas públicas de combate à fome e à pobreza porque a Aliança Global não é só uma aliança de combate à fome, mas de redução de desigualdades. Esse é o principal objetivo da Aliança”, disse Janja a RFI.

As metas da Aliança para os próximos anos são ambiciosas, como alcançar 500 milhões de pessoas com transferências de renda e atender 150 milhões de crianças a mais com alimentação escolar de alta qualidade.

Fotos: Vatican Media, Remo Casilli/Reuters e Gina Marques / RFI