Constantino Júnior: o visionário que fundou a GOL e popularizou a passagem aérea, morre aos 57 anos

Bernadete Alves
Constantino de Oliveira Júnior: fundador da GOL Linhas Aéreas e visionário que democratizou o acesso ao avião

É com pesar que registramos o falecimento do empreendedor Constantino de Oliveira Júnior, fundador da GOL Linhas Aéreas, aos 57 anos, ocorrido neste sábado, 24 de janeiro, em São Paulo. O empresário de visão estratégica, aliada a um estilo de liderança humanitária, estava internado em um hospital da capital paulista, onde enfrentava um câncer diagnosticado há anos.

Constantino de Oliveira Júnior deixa a esposa e duas filhas, além dos pais e irmãos. Sua morte encerra uma trajetória marcada pelo empreendedorismo e pela inovação. Constantino era uma pessoa dinâmica, iluminada, de espírito solidário e compromisso com o social.

Ele parte, mas seu legado permanece na democratização do acesso ao avião, na consolidação de um modelo de negócios que redefiniu o setor e na construção de uma das companhias aéreas mais relevantes da história do país.

A notícia de sua morte causou comoção em Brasília e deixou a aviação brasileira de luto.

Criador da primeira companhia aérea de baixo custo do país, Constantino iniciou as operações da GOL em 2001, assumindo o comando executivo da empresa desde a fundação. Permaneceu como CEO por onze anos até 2012, período em que liderou a expansão da companhia no mercado nacional. Em 2004, passou a integrar o Conselho de Administração, função que exercia até o momento.

Bernadete Alves
Constantino de Oliveira Júnior: o visionário que fundou a GOL e popularizou a passagem aérea, morre aos 57 anos

Em nota, a companhia aérea manifestou profundo pesar pelo falecimento de seu fundador e solidariedade a familiares e amigos, “expressando seus sentimentos e reconhecendo seu legado”.

“Sua liderança, sua visão estratégica e, sobretudo, seu jeito simples, humano, inteligente e próximo deixaram marcas profundas em nossa cultura. Os princípios estabelecidos por seu fundador fizeram a companhia crescer e hoje fazer parte de um grupo internacional. Eles seguem vivos na GOL e continuam transformando a aviação no Brasil”, completa o documento.

Nascido em 12 de agosto de 1968, em Patrocínio, no Alto Paranaíba, em Minas Gerais, Constantino Júnior cresceu em um ambiente empresarial ligado ao setor de transportes. Filho de Nenê Constantino, fundador do Grupo Áurea, iniciou a vida profissional ainda adolescente, aos 14 anos, como digitador em uma das empresas da família.

Formado em Administração de Empresas, Constantino complementou a formação com programas executivos voltados à gestão corporativa. Paralelamente, cultivava desde cedo duas paixões que o acompanhariam por toda a vida: a aviação — aprendeu a pilotar aviões aos 15 anos — e a velocidade.

Competiu como piloto na Porsche GT3 Cup Challenge Brasil, na qual foi vice-campeão em 2008 e campeão em 2011, refletindo o perfil apaixonado por mecânica, esportes e velocidade descrito por pessoas próximas.

Entre 1994 e 2000, atuou como diretor da Comporte Participações, grupo tradicional do transporte terrestre de passageiros no Brasil, controlador de empresas como Piracicabana, Penha, Expresso União e concessões em sistemas metroferroviários, como o Metrô de Belo Horizonte e linhas da CPTM em São Paulo. A experiência no setor de mobilidade foi decisiva para a visão de negócios que mais tarde marcaria sua atuação na aviação.

O empresário deu início aos negócios da companhia aérea low cost em 2001, fazendo o Brasil voar. A empresa nasceu com uma proposta inédita no Brasil: operar com frota padronizada de Boeing 737, reduzir custos operacionais, vender passagens pela internet e eliminar serviços considerados supérfluos, introduzindo no país o conceito de “baixo custo, baixa tarifa”.

O primeiro voo, entre Brasília e Congonhas, marcou o início de uma transformação estrutural no setor aéreo brasileiro. Sob a liderança de Constantino como primeiro CEO, a Gol forçou uma queda generalizada nos preços das passagens e contribuiu para a democratização do transporte aéreo. Segundo dados divulgados pela própria empresa, cerca de 65 milhões de brasileiros viajaram de avião pela primeira vez em pouco mais de uma década.

Em 2004, ele passou a integrar o Conselho de Administração da Gol, acumulando a função com o cargo de CEO até 2012. Durante esse período, liderou a consolidação da companhia no mercado doméstico e a ampliação de sua malha aérea.

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória ocorreu em 2007, quando Constantino liderou a aquisição da Varig. Em meio à recuperação judicial da companhia aérea mais tradicional do país, a Gol comprou a VRG Linhas Aéreas, empresa criada para abrigar os ativos operacionais da Varig, por valores que variaram entre US$ 275 milhões e US$ 320 milhões, segundo diferentes fontes.

A operação, viabilizada pela nova Lei de Falências, permitiu à Gol incorporar aeronaves, rotas estratégicas, slots em aeroportos como Congonhas e Guarulhos e o programa de fidelidade Smiles, sem assumir passivos trabalhistas e previdenciários acumulados ao longo de décadas. Do ponto de vista jurídico, a transação foi considerada inovadora e acabou confirmada pelos tribunais.

Em 2012, Constantino deixou a presidência executiva da Gol após 11 anos à frente da gestão operacional e assumiu definitivamente a presidência do Conselho de Administração, cargo que ocupava até o momento. A condução do dia a dia da companhia passou então para Paulo Kakinoff.

No ano seguinte, liderou a abertura de capital da Smiles, empresa responsável pelo programa de fidelidade da Gol, movimento estratégico para reforçar o caixa e reorganizar o grupo.

A partir de 2022, Constantino teve papel central na criação do Grupo Abra, holding internacional do setor aéreo que passou a reunir a Gol e a Avianca, além de participações em outras companhias, como a espanhola Wamos Air. Como um dos fundadores e principal liderança do grupo, comandou uma operação regional com presença em cinco países, atendendo cerca de 150 destinos em mais de 25 países, segundo dados divulgados em 2025.

Fotos: Reprodução