Itamaraty empossa representantes dos povos originários e maior representação feminina pela primeira vez

Os indígenas Idjahure Achkar de Mendonça Pinto, do povo Terena e Marcelo Kariri Meneses do povo Kariri, e Helen Jaine Gomes Borgens, integrante da comunidade quilombola do Retiro, em Simolândia, no nordeste de Goiás, tomaram posse como novos diplomatas no Ministério das Relações Exteriores. Pela primeira vez em 184 anos de formação diplomática, a carreira acolhe dois diplomatas indígenas e uma diplomata quilombola.

A cerimônia de posse dos novos integrantes da carreira diplomática brasileira foi realizada na tarde de quarta-feira, no Palácio Itamaraty. Além da ministra substituta das Relações Exteriores, embaixadora Maria Laura da Rocha, o evento contou com a participação do ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena; e da ministra da Igualdade Racial, Rachel de Oliveira, o escritor Ailton Krenak, primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras e Marcelo Costa, Secretário-Executivo da SRI/PR.
A ministra interina das Relações exteriores, Maria Laura da Rocha, destacou a necessidade de o corpo diplomático brasileiro refletir a diversidade do próprio povo. “Em tempos de ameaças à democracia e aos direitos duramente reconhecidos na Constituição de 1988, celebrar a entrada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas brasileiros nessa instituição bicentenária é um ato de resistência”, afirmou Laura da Rocha.

“Ao fazer isso, o Itamaraty reafirma com convicção o papel que esses grupos sociais têm e devem ter na definição da posição do Brasil no mundo”, declarou. A ministra citou medidas do ministério para promover essa diversidade, como o aumento do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que passou a apoiar, além de pessoas negras, mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.

O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, disse que posse é a materialização do conceito de “Aldear o Estado”, a partir da inserção de lideranças indígenas em espaços técnicos capazes de influenciar decisões dentro e fora do país.
Olhando para trás, ele lembrou que indígenas que chegam hoje ao Itamaraty, há poucos séculos, sequer eram considerados seres humanos. “É um momento altamente simbólico. Não é apenas um ganho individual ou coletivo, é um ganho de toda a nação e do Estado brasileiro”, disse Terena.

A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros de Oliveira destacou o papel das ações afirmativas para enfrentar barreiras históricas de acesso ao serviço público. “Durante muito tempo repetiu-se que bastava se esforçar para chegar a lugares como este e que quem não chegava era porque não tinha se esforçado o suficiente. Nós sabemos que isso nunca foi verdade. Gerações de pessoas negras, indígenas e quilombolas estudaram e trabalharam com enorme dedicação e, ainda assim, encontraram barreiras. O que lhes faltava era oportunidade”, afirmou a ministra.

Convidado de honra da cerimônia, intelectual e escritor indígena, trajando a farda da Academia Brasileira de Letras (ABL), o escritor e imortal Ailton Krenak também celebrou o momento e destacou que a presença das famílias e das crianças indígenas na solenidade rompe com a frieza institucional.

Krenak classificou a chegada de representantes dos povos originários ao Itamaraty como um avanço histórico, mas destacou que a conquista não significa uma mudança na realidade das comunidades.
“Para quem acompanha a história do Brasil, representa um passo gigante. Mesmo a nossa Constituição não conseguiu por si só projetar esses povos originários ao lugar da cidadania plena. Quando o Estado brasileiro alça um de nós a uma condição excelente, isso não implica em carregar junto com essas experiências, que têm uma natureza pessoal, individual, as comunidades de onde vêm essas pessoas”, afirmou Krenak.
“Para que a gente assegure que essa conquista possa repercutir na vida das comunidades, nós precisamos deixar no passado os ataques genocidas que estão sendo feitos contra os Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul, a indiferença dos governadores, a quase omissão do nosso sistema jurídico. Aqueles proprietários de terra que seguem, mesmo depois da Constituinte, tomando terras que são indígenas, demarcadas”, declarou o escritor.

Krenak também questionou a forma como os povos originários foram historicamente excluídos da formação da sociedade brasileira. “Os indígenas nunca foram admitidos como parte dessa formação. Nunca, em nenhum momento. Não houve um gesto de verdade consequente das agências do Estado brasileiro, das estruturas que formam a nossa sociedade, para que os povos indígenas se sintam de verdade membros de uma ampla sociedade formada por brasileiros, sem que a gente continue reivindicando, de certa maneira, uma espécie de diferença”.

“Que mesmo diante das quase impossibilidades, eles sejam capazes de exercitar o verbo esperançar e produzir mundos ricos de sentido”, declarou.



Helen Jaine Gomes Borgens, Idjahure Terena e Marcelo Kariri Menezes, foram aprovados no concurso recente da chancelaria, assim como os outros 57 aprovados. É a primeira vez na história brasileira que representantes de povos originários entram para o curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. A turma que se inicia em 2026 e termina em 2028. O curso tem cerca de 60 alunos aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD).
O grupo também tem a maior participação proporcional feminina da história do Instituto Rio Branco e do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty): 45% dos integrantes são mulheres.

Antes de servir no exterior, os novos diplomatas fazem um curso de formação no Instituto Rio Branco, em Brasília. Todas as cinco regiões do Brasil estão representadas. O salário inicial é de R$ 22.558.

Essa nova turma de diplomatas representa o avanço na promoção da diversidade na carreira diplomática e destaca a necessidade de que essa representatividade também se estenda às oportunidades de desenvolvimento profissional e à ocupação dos espaços de liderança e tomada de decisão no Ministério de Relações Exteriores.


Trajetória

Os dois jovens indígenas que ingressam na carreira diplomática têm destacada trajetória acadêmica e profissional. Marcelo Kariri, natural de Campina Grande (PB) é graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), tem MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Atuou entre 2021 e 2025 como Engenheiro de Suporte a Produtos e é autor de livro infanto-juvenil.
“Havia uma tradição permeando onde minha família morava de que pessoas como nós enlouqueceriam se estudassem e deveriam ficar apenas nos trabalhos braçais”, contou na cerimônia. “Minha mãe viu na educação uma porta para a vida”.

Idjahure Achkar Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e Mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É também bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
“Estrar no Itamaraty é ter consciência de toda essa história pretérita de exclusão e tutela, batalhando por um futuro ancestral e por um novo presente onde a nossa diversidade étnica finalmente integre o Estado”, avaliou. Idjahure é filho do artista Macsuara Kadiwéu, o primeiro ator indígena do cinema brasileiro.

Helen Jaine Gomes Borgens (comunidade quilombola do Retiro, em Simolândia – GO): Formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), sendo a primeira mulher quilombola aprovada nessa modalidade.
Nascida em Goiânia, Helen cresceu em Simolândia, onde estudou no Colégio Estadual Elvira Leão Barreto. Concluiu a graduação na UFG em 2025 e retornou ao município para se dedicar à preparação para o concurso. Sua aprovação ocorreu em maio de 2026, na seleção que ofereceu 60 vagas para ingresso na carreira diplomática.
O interesse pela diplomacia surgiu em 2017, quando um professor de História apresentou a profissão durante um cursinho preparatório para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Na UFG, Helen chegou a considerar a possibilidade de abandonar a graduação, mas retomou o interesse pela carreira após cursar a disciplina de Política Externa Brasileira. Em entrevista ao Jornal UFG, relatou dificuldades de acesso a professores especializados em Simolândia e contou que precisou estudar inglês por conta própria.

O concurso de 2026 foi o primeiro para a carreira diplomática realizado sob a vigência da Lei nº 15.142/2025, que ampliou a política de cotas nos concursos públicos federais. Das 60 vagas oferecidas, duas foram reservadas a indígenas e uma a quilombolas.
O ingresso de Helen por uma vaga específica para quilombolas é inédito. Entretanto, há registro anterior de aprovação de uma candidata de origem quilombola para a diplomacia. A também goiana Rebeca Mello, descendente da comunidade Kalunga, em Cavalcante, foi aprovada em 2017 pela reserva de vagas para pessoas negras e obteve, em 2022, reconhecimento para ingressar na carreira após uma disputa judicial.

Fotos: André Guajajara Ascom/MPI, Tânia Rêgo/Agência Brasil e Reprodução/Redes Sociais















