Rio Grande do Sul enfrenta um dos piores desastres ambientais e caos compromete o futuro

É muito doloroso ver meus irmãos gaúchos passarem por tanto sofrimento com esta tragédia que castiga todo o Rio Grande do Sul. Acompanho com o coração apertado imagens chocantes que mostram que o estado está enfrentando um dos piores desastres ambientais do Brasil.

A água avança, enche rios, rompe represas, danifica estradas e pontes, casas destruídas e levadas com a força da água, cidades submersas e caos instalado. Com a queda de barreiras e destruição de estradas, há comunidades isoladas e incomunicáveis. É a pior enchente da história com milhares de pessoas desabrigadas com perdas emocionais e materiais incalculáveis.

O temporal histórico deixa ilhados e desaparecidos em todo o estado. Os prejuízos causam estragos em cerca de um a cada três municípios gaúchos. Dos 497 municípios gaúchos, 235 foram afetados pelas fortes chuvas que iniciaram desde o início desta semana.

Com 4 enchentes em um ano, Rio Grande do Sul sofre com ocupação perto de rios. Em menos de um ano, mais de 100 pessoas morreram no Rio Grande do Sul, vítimas de grandes enchentes e eventos climáticos menores. Foram 81 mortes no ano passado, segundo o governo gaúcho e mais de 30 neste ano.

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, decretou estado de calamidade pública na noite de quarta, 1º de maio, com prazo de 180 dias. As chuvas e enchentes foram classificadas como desastres de nível 3, “caracterizados por danos e prejuízos elevados”. A partir daí todo o estado foi colocado sob alerta de inundação ou inundação severa.
Segundo especialistas, desastres naturais evidenciam enfraquecimento de políticas ambientais. O climatologista e professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Francisco Eliseu Aquino entende que os governos —municipais, estadual e federal— fragilizaram na última década a preservação do meio ambiente ao diminuir áreas de preservação.

Isso favorece a ocupação de regiões ribeirinhas. Além disso, o especialista afirma que o sistema de alerta pode ser aprimorado. Nos últimos anos, os desastres naturais têm ocorrido em intervalos menores; só em 2023, foram registradas três grandes enchentes. O fenômeno ocorreu em junho, setembro e novembro —uma diferença de até três meses entre um e outro. Passados cerca de seis meses das últimas inundações, o estado volta a registrar uma enchente histórica de grandes proporções.

“Sair das áreas de inundação é uma necessidade não só no Brasil, como no mundo”, diz o professor Aquino. A alternativa seria realocar moradores de bairros mais atingidos para outras áreas dos municípios, diz o professor Aquino que sugere aprimoramento no sistema de alerta de enchentes.
O professor Aquino diz que hoje cerca de 60% dos países não possuem sistemas de alerta. “É uma prioridade internacional”. Claro que, desastres naturais dessa magnitude são difíceis de se prever.
A enchente de agora supera a registrada em 1941. Uma das regiões mais atingidas neste ano é o Vale do Taquari, a pouco mais de 100 km de Porto Alegre. Por lá, o nível do rio Taquari chegou a 33 metros às 12h30 de ontem em Estrela. A cota de inundação ocorre a partir dos 19 metros, já a de alerta é de 17 metros, segundo o SGB (Serviço Geológico do Brasil).

Hoje o Rio Taquari chegou a 31,8 metros às 6 horas da manhã. O nível é o maior registrado na história do rio, segundo boletim do Serviço Geológico do Brasil.
Embora o El Niño esteja agora perdendo intensidade, ele ainda contribui também para esse fenômeno que está ocorrendo agora. O meteorologista Gilvan Sampaio explica que três fenômenos se somaram. Da Amazônia, vêm ventos úmidos. A mancha branca sobre a região sul é uma forte frente fria. E, no centro do país, uma área de alta pressão não deixa as nuvens passarem. Elas estão estacionadas e provocam as chuvas constantes.

As chuvas torrenciais já seriam suficientes para provocar grandes estragos no Rio Grande do Sul. Mas o Vale do Taquari tem outra característica que aumenta o poder de destruição das tempestades. E essa não vem do céu, tem muito mais a ver com a terra.
As cidades do vale foram construídas nas margens do rio, em áreas planas e baixas, chamadas pelos geólogos de planícies de inundação, porque são naturalmente alagadas quando o nível do rio sobe. A cidade de Muçum é um exemplo disso. E o padrão se repete nas cidades vizinhas.

“A bacia do Rio Taquari, ela é muito muito ampla, né? Acho que extensão são mais de 200 km. Toda a água que cair dentro dessa área vai convergir para dentro do rio principal que é o Rio Taquari. Por isso que esse volume converge todo e acaba transbordando”, explica Edilson Pizzato, professor do Instituto de Geociências da USP.

Só em setembro de 2023, 54 pessoas morreram no estado por causa de enchentes. Inúmeras casas foram destruídas e levadas com a força da água, e cidades ficaram submersas. Na época, o nível do Taquari atingiu 29,53 metros —o mais alto até agora.
Em novembro do ano passado, ao menos oito pessoas morreram em razão de fortes chuvas. Na época, o rio Taquari atingiu a marca de 28,94 metros.
Antes disso, em junho de 2023, um ciclone que passou pela região Sul provocou a morte de ao menos 16 pessoas. Uma das regiões mais atingidas foi o Vale dos Sinos, na região metropolitana da capital gaúcha.

Nesta sexta-feira, 3 de maio, a Defesa do Civil do Rio Grande do Sul emitiu alerta para “inundação extrema” no Guaíba e o prefeito, Sebastião Melo, informou que o portão 14 do Cais de Mauá, do sistema contra inundações rompeu e pode acarretar inundações na Avenida Sertório e Voluntários da Pátria, zona norte de Porto Alegre.


Centros de Treinamento do Internacional e do Grêmio alagaram. A água também chegou à rodoviária e ao centro histórico de Porto Alegre. A defesa civil pede que a população evite as regiões próximas ao rio e locais de risco.

A Prefeitura de Porto Alegre decretou ontem à noite estado de calamidade pública na capital gaúcha. O decreto da administração municipal classifica o desastre climático como de grande intensidade. Na prática, a medida autoriza a prefeitura a empregar todos os recursos e voluntários na assistência à população e no restabelecimento de serviços.

A Defesa Civil de Porto Alegre divulgou um novo alerta indicando a possibilidade de continuidade das chuvas extremas até às 12h da próxima segunda-feira, 6 de maio.

O impacto devastador das chuvas extremas no Rio Grande do Sul nos faz lembrar que a ciência já havia previsto a intensidade dos eventos climáticos e suas consequências com precisão, inclusive apontando os problemas que aconteceriam no Rio Grande, que tornou-se um epicentro da crise do clima no Brasil. Infelizmente o descaso, a negligência e o negacionismo, falta de planejamento urbano e territorial, cobra agora um preço muito alto da população atingida. O negacionismo climático mata pessoas e mata o futuro.

Fotos: RBS/TV, G1 e Miguel Noronha/Enquadrar/Estadão Conteúdo













