Papa Leão XIV em Pentecostes: invocar o Espírito do amor e da paz para abrir as fronteiras do coração

Bernadete Alves
Os dons do Espírito Santo

Celebramos neste domingo, 8 de junho, Ano Santo da Esperança, a Solenidade do Divino Espírito Santo: a festa de Pentecostes, que significa a vinda do Espírito Santo: Jesus sopra sobre os discípulos o Espírito Santo e eles saem em missão, inicia-se a Igreja primitiva. Esse mesmo Espírito Santo que Jesus soprou sobre os discípulos há mais de dois mil anos continua sustentando a missão da Igreja até os dias de hoje. Por isso, que a Igreja apesar dos ventos contrários continue de pé, pois é sustentada pela força do Espírito Santo.

A Solenidade de Pentecostes,  acontece 50 dias após a celebração da Páscoa do Senhor, e foi neste período que Jesus apareceu algumas vezes para os discípulos. O Espírito Santo com sua graça é o “primeiro” que nos desperta na fé e nos inicia na vida nova. Ele é quem nos precede e desperta em nós a fé. Entretanto, é o “último” na revelação das pessoas da Santíssima Trindade.

Bernadete Alves
Papa Leão XIV saúda milhares de fiéis no Domingo de Pentecostes no Vaticano

Neste 8 de junho, Ano Santo da Esperança, celebramos a Solenidade do Divino Espírito Santo, no Brasil e no mundo.

Bernadete Alves
Papa Leão XIV celebra o Divino Espírito Santo junto com milhares de fiéis na Praça São Pedro

O domingo solene no Vaticano começou com um giro de papamóvel que durou cerca de 30 minutos: Leão XIV percorreu tanto a Praça São Pedro quanto parte da Via della Conciliazione para saudar os milhares de fiéis.  Completando exatamente um mês de pontificado, Leão XIV presidiu a missa para milhares de peregrinos na Praça São Pedro.

A homilia do novo Sucessor de Pedro foi de grande impulso para abrirmos “as fronteiras do coração” através do “vento vigoroso do Espírito Santo” e com a recordação inclusive dos predecessores Bento XVI e Francisco. 

Bernadete Alves
Papa Leão XIV abençoa os fiéis no Domingo de Pentecostes

As fronteiras a serem abertas pelo Sopro divino, disse o Pontífice, estão “dentro de nós, nas nossas relações e entre os povos”. Os milhares de peregrinos do Jubileu dos Movimentos, Associações e Novas Comunidades ouviram o pedido do Papa para invocar “o Espírito do amor e da paz” para encontrar com Deus e “abrir as fronteiras, derrubar os muros, dissolver o ódio“: “é Pentecostes que renova a Igreja, renova o mundo!”.

Bernadete Alves
Papa Leão XIV em Pentecostes: invocar o Espírito do amor e da paz para abrir as fronteiras do coração

Na homilia e através das palavras de Santo Agostinho, o Papa recordou que este é o dia em que, “depois de sua Ressurreição e depois da glória de sua Ascensão, Jesus Cristo Nosso Senhor enviou o Espírito Santo» (Santo Agostinho, Sermão 271, 1)”. Um dom que “realiza algo extraordinário na vida dos Apóstolos”, ajudando a interpretar a morte de Jesus e dando força e coragem para “sair ao encontro de todos para anunciar as obras de Deus”. Na festa de Pentecostes, lembra Leão nas palavras de Bento XVI em 2005, as portas do cenáculo se abrem porque o Espírito abre as fronteiras. E de onde o Pontífice parte a sua meditação do dia:

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Papa Leão XIV preside Solenidade do Divino Espírito Santo no Vaticano

“O Espírito abre as fronteiras principalmente dentro de nós. É o Dom que desvela a nossa vida para o amor. E essa presença do Senhor desfaz a nossa dureza, o nosso fechamento, o egoísmo, os medos que nos bloqueiam e o narcisismo que faz-nos rodar apenas em torno de nós mesmos. O Espírito Santo vem para desafiar, em nós, o risco de uma vida que se atrofia, sugada pelo individualismo. É triste observar como num mundo onde se multiplicam as oportunidades de socialização, corremos o risco de ser paradoxalmente mais solitários, sempre conectados, mas incapazes de ‘fazer redes’, sempre imersos na multidão, mas permanecendo viajantes perdidos e solitários.”

O Espírito de Deus, em vez disso, “abre ao encontro com nós mesmos, para além das máscaras que usamos; conduz ao encontro com o Senhor”, afirmou o Papa. Abraçando com amor a Palavra, somos “transformados” por ela, tornando a nossa vida “um espaço de acolhimento”.

Bernadete Alves
Papa Leão XIV: “Pentecostes renova a Igreja e renova o mundo”

Em Pentecostes, disse o Pontífice, recordamos a importância de nos colocarmos “em caminho”, “na fraternidade”, já que “o Sopro divino une os nossos corações e nos faz ver no outro o rosto de um irmão”: em vez de divisão e conflito, preconceito e lógica de exclusão, discórdia e indiferença, como observou Francisco em 2023, o Espírito “rompe fronteiras e derruba os muros da indiferença e do ódio”, como as próprias guerras, por “um tesouro comum”:

“Invoquemos o Espírito do amor e da paz, a fim de que abra as fronteiras, derrube os muros, dissolva o ódio e nos ajude a viver como filhos do único Pai que está nos céus. Irmãos e irmãs: é Pentecostes que renova a Igreja, renova o mundo! Que o vento vigoroso do Espírito desça sobre nós e em nós abra as fronteiras do coração, dê a graça do encontro com Deus, amplie os horizontes do amor e sustente os nossos esforços pela construção de um mundo onde reine a paz.”

Bernadete Alves
Solenidade do Divino Espírito Santo presidida pelo Papa Leão XIV

Os 7 dons do Espírito Santo, na tradição católica, são as graças que o Espírito Santo concede para a santificação e aperfeiçoamento do cristão, ajudando-o a viver em conformidade com a vontade de Deus. São eles: Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade e Temor de Deus. 

Bernadete Alves
Solenidade do Divino Espírito Santo: a festa de Pentecostes

Com o dom da fortaleza, Deus nos dá a coragem necessária para enfrentarmos as circunstâncias desafiadoras da vida e a firmeza de caráter para suportarmos as perseguições e tribulações decorrentes do nosso testemunho cristão, rejeitado e combatido pelo mundo. Foi graças ao dom da fortaleza que os santos recusaram as falsas promessas e enfrentaram as ameaças da mundanidade, muitos com o sacrifício da própria vida.

O dom da sabedoria nos leva a distinguir entre o que é essencial e o que não é; entre o que realmente importa e o que é meramente secundário. Ser sábio é saber escolher e apreciar o bem em meio às muitas alternativas sedutoras que se colocam diante do nosso livre arbítrio, confundindo o nosso julgamento com aparências que precisam ser desmascaradas. A sabedoria não necessariamente envolve inteligência, cultura e entendimento: é outro tipo de conhecimento; é a capacidade singela de enxergar ou intuir o bom, o belo e o verdadeiro a partir da referência do Absoluto, não do relativo. É o dom de “saber viver” em Deus, na bondade, na verdade e na beleza, ainda que não se entendam muitas coisas no sentido intelectual do termo “entender” – aliás, o entendimento é outro dom divino, que veremos em seguida.

Este dom torna a nossa inteligência capaz de compreender e assimilar os conteúdos das verdades reveladas, auxiliando-se também da ciência, que ilumina a razão a fim de conhecermos melhor a criação e chegarmos assim ao Criador. Pode parecer um tanto confuso, à primeira vista, distinguir entre a sabedoria, o entendimento e a ciência. De fato, são dons complementares entre si, mas há distinção entre eles. Expliquemos dando um exemplo: há pessoas simples que, mesmo sem entenderem o vasto significado da liturgia, dos dogmas e das orações, sabem apreciar o sabor das coisas de Deus e dão testemunho de intensa devoção e piedade, sendo capazes de inspirar e ajudar os outros a viverem uma vida espiritual mais profunda, ainda que esses outros tenham maiores talentos intelectuais. Essas pessoas simples possuem o dom da sabedoria, mas lhes falta o entendimento – que é o dom de compreender o sentido das coisas de Deus. Com o dom do entendimento, o cristão contempla com mais lucidez e consciência o mistério da Santíssima Trindade, o amor de Cristo pela humanidade, o significado da Sagrada Eucaristia, dos sacramentos, dos ritos litúrgicos, da moral católica etc. E onde é que entra o dom da ciência? A ciência nos ajuda nessa compreensão fornecendo-nos um tesouro crescente de informações sobre a criação como precisamente isso: criação, obra do Criador.

É o dom divino que aperfeiçoa as nossas faculdades intelectivas e nos ajuda a compreender a realidade como obra do Criador, iluminados, simultânea e harmoniosamente, pela fé e pela razão – “as duas asas que elevam o espírito humano à contemplação da Verdade”, conforme a bela descrição apresentada pela encíclica “Fides et Ratio”, do Papa São João Paulo II. O dom da ciência, portanto, nos abre à contemplação do Criador mediante o conhecimento da criação. É importante observar que se trata do dom da ciência de Deus, não da ciência das coisas do mundo; ele envolve o reconhecimento da criação como meio para a contemplação de Deus. Graças ao dom da ciência, os santos, por exemplo, souberam ver Deus atrás das criaturas como que através de um espelho. São Francisco de Assis compôs o “cântico das criaturas” ao Senhor porque todos os seres criados, desde as flores até as aves, desde a água até o fogo e o sol, lhe eram ocasião para contemplar e amar a Deus, Criador de tudo o que há. O dom da verdadeira ciência nos leva, mediante o reto conhecimento e reconhecimento das criaturas como criaturas, a vislumbrar o Criador. Entre as criaturas não se incluem apenas os demais seres tangíveis, mas também as próprias ações e comportamentos humanos, que fazem parte do mundo criado: o dom da ciência, portanto, nos ajuda ainda a saber como agir – e, neste sentido, evoca o dom do conselho.

É o dom que permite à alma o reto discernimento sobre como responder às circunstâncias da existência, tanto no tocante às próprias decisões quanto na hora de orientar os irmãos a trilharem o caminho do bem.

É a graça de Deus na alma que proporciona o relacionamento filial e profundo com Deus, mediante a oração e as práticas piedosas ensinadas pela Igreja. É o dom da devoção, do fervor, da experiência de viver em comunhão permanente com Deus.

O nome deste dom pode causar estranheza e confusão, pois muitos o entendem em sentido negativo, como se devêssemos ter medo de Deus. Na verdade, trata-se do dom divino que nos leva a “temer” por Deus no sentido de não querer que Ele seja desprezado e deixado de lado, nem pelos outros, nem por nós mesmos. É o santo temor de que Deus seja ofendido; ao mesmo tempo, é o sadio temor das consequências do afastamento de Deus – consequências que não consistem num castigo imposto por Deus, mas sim na decorrência natural da nossa própria possibilidade de optar por viver longe d’Ele: Deus respeita a nossa liberdade a tal ponto que não nos impede de odiá-lo se assim escolhermos; por isso mesmo, Ele tampouco impede as consequências desse ódio voluntário, que se resumem no afastamento eterno de Deus decretado por nós próprios com a nossa liberdade e arbítrio. O dom do santo temor de Deus nos ajuda, assim, a evitar tudo o que nos afasta d’Ele – ou seja, o pecado; e não por medo de castigo, mas pela justa consciência de que, ao nos afastarmos d’Ele, nós próprios O perdemos voluntariamente.

Fotos: Vatican Media