Arlindo Cruz: cantor e compositor que se tornou um dos maiores sambistas, morre aos 66 anos

Bernadete Alves
Arlindo Cruz: o poeta do samba morre aos 66 anos

A música brasileira está de luto com o falecimento de Arlindo Cruz, 66 anos, um ícone do samba e fonte de inspiração. É com grande tristeza que noticiamos esta grande perda. O cantor, multi-instrumentista e compositor, estava internado desde março para tratar uma bactéria resistente em decorrência de uma pneumonia, no hospital Barra D’Or, na Zona Oeste do Rio e hoje veio a óbito após sofrer falência múltipla dos órgãos.

Arlindo, um dos maiores nomes do samba de todos os tempos, deixa a esposa Babi Cruz, os filhos Arlindinho, Flora Cruz e Kauan, amigos e incontáveis fãs. Nossos sentimentos e solidariedade a todos os familiares e fãs neste momento de dor.

Arlindo sofreu um acidente vascular cerebral hemorrágico em março de 2017, depois de passar mal em casa, e ficou quase um ano e meio internado. Desde então, ele lidava com as sequelas da doença e passou por várias internações. O artista não se apresentava mais.

Bernadete Alves
Arlindo Cruz: cantor e compositor que se tornou um dos maiores sambistas do Brasil

A família divulgou um comunicado de luto homenageando o grande artista. “Mais do que um artista, Arlindo foi um poeta do samba, um homem de fé, generosidade e alegria, que dedicou sua vida a levar música e amor a todos que cruzaram seu caminho. Sua voz, suas composições e seu sorriso permanecerão vivos na memória e no coração de milhões de admiradores”.

“Agradecemos profundamente todas as mensagens de carinho, orações e gestos de apoio recebidos ao longo de sua trajetória e, especialmente, neste momento de despedida. Arlindo parte deixando um legado imenso para a cultura brasileira e um exemplo de força, humildade e paixão pela arte. Que sua música continue ecoando e inspirando as próximas gerações, como sempre foi seu desejo”, termina o texto.

Bernadete Alves
Morre Arlindo Cruz: o compositor que redefiniu o samba

A notícia deixou os fãs entristecidos e a música brasileira de luto. Descanse em paz, Arlindo Cruz, voz ativa na preservação da cultura popular e das tradições do samba. Você cantou e personificou a esperança e viverá para sempre em nossos corações.

Arlindo Cruz era considerado um sambista perfeito. Sua voz, suas composições e sua alegria permanecerão vivos na memória e no coração de milhões de admiradores. Suas canções, como “O Que É o Amor”, “Meu Lugar” e “O Show Tem Que Continuar”, ecoarão por gerações celebrando a resistência e a beleza do samba. Que a memória e legado continuem a iluminar as novas gerações.

Bernadete Alves
Arlindo Cruz: um dos maiores sambistas do Brasil

Arlindo Domingos da Cruz Filho nasceu no Rio de Janeiro em 14 de setembro de 1958 e desde pequeno aprendeu a tocar instrumentos musicais. Ganhou o primeiro cavaquinho aos 7 anos. Aos 12, começou a tocar músicas “de ouvido” e aprendeu violão ao lado do irmão Acyr Marques.

Ainda jovem, estudou teoria musical e violão clássico na escola Flor do Méier. Foi quando passou a atuar como músico profissional, em rodas de samba com vários artistas, incluindo um ícone do estilo, Candeia, uma espécie de “padrinho musical”. As primeiras gravações em estúdio feitas por Arlindo foram com ajuda de Candeia. Entre elas, está o primeiro LP, “Roda de Samba”, depois relançado em CD.

Ao completar 15 anos, foi para Barbacena (MG) para estudar na escola preparatória de Cadetes do Ar. Mesmo na aeronáutica, o artista nunca deixou a música de lado e tocava em rodas de samba. Em Minas Gerais, ganhou festivais em Barbacena e Poços de Caldas.

Fora da aeronáutica e de volta ao Rio de Janeiro, ele passou a frequentar as rodas de samba do bloco de carnaval Cacique de Ramos, onde conheceu outros ícones da música brasileira, como Beth Carvalho e Jorge Aragão, e Sombrinha, seu parceiro de composições ao longo da vida.

Pouco tempo depois de passar a fazer parte da famosa roda de samba, teve 12 músicas gravadas por outros intérpretes. A primeira foi “Lição de Malandragem”. Na sequência, vieram “Grande Erro” (Beth Carvalho) e “Novo Amor” (Alcione).

Bernadete Alves
Arlindo Cruz: um dos maiores nomes da música brasileira que cantou e personificou a esperança

Depois de chamar atenção como compositor, teve então sua maior chance como intérprete. Substituiu Jorge Aragão, quando ele saiu do Fundo de Quintal. Já consagrado como compositor, Arlindo Cruz entra no Fundo de Quintal em 1981 após a saída de Jorge Aragão. O artista ficou no grupo por 12 anos até a saída em 1993 para seguir carreira solo.

Ficou 12 anos na banda e gravou sucessos como “Seja sambista também”, “Só Pra Contrariar”, “Castelo Cera”, “O Mapa da Mina” e “Primeira Dama”. Saiu do grupo em 1993. Fez dupla com Sombrinha antes de iniciar carreira solo.

Segundo o site oficial do sambista, Arlindo Cruz tem mais de 550 músicas gravadas por vários artistas. Os que mais gravaram foram Zeca Pagodinho e Beth Carvalho. Nos anos 90, ele se dedicou ainda às eliminatórias de sambas enredos do Império Serrano, sua escola de coração.

A primeira vitória do compositor com um enredo na agremiação foi em 1996, no enredo “E verás que um filho teu não foge à luta”. Emplacou ainda um samba também no carnaval seguinte, em 1999. Depois, também teve sambas escolhidos em 2001, 2003, 2006 e 2007. Em 2008 escreveu o samba da Grande Rio no enredo “Do Verde de Coarí Vem Meu Gás, Sapucaí!”.

Em sua carreira solo, Arlindo seguiu lançando CDs e DVDs. Em 2009, saiu o DVD “Arlindo Cruz MTV Ao Vivo”. Em 2011, lançou o CD “Batuques e Romances”. Em 2012, gravou mais um CD e DVD ao vivo, “Batuques do Meu Lugar”. Neles, inclui músicas inéditas e participações de Alcione, Caetano Veloso e Zeca Pagodinho.

Bernadete Alves
Arlindo Cruz durante homenagem no Carnaval de 2023 pela Escola Império Serrano

O sambista também se dedicou durante anos à criação de sambas-enredo para escolas de samba do Rio de Janeiro. Ele foi o autor dos enredos da Império Serrano, sua escola do coração, Vila Isabel, Grande Rio e outras agremiações. Ele ganhou quatro vezes o prêmio Estandarte de Ouro de Melhor samba-enredo pelas composições.

Em 2023, a Império Serrano homenageou o artista com o enredo Lugares de Arlindo. Já debilitado por conta do AVC, Arlindo desfilou ao lado de amigos e familiares em um trono colocado em um dos carros alegóricos.

Ao longo da carreira, Arlindo Cruz lançou 24 álbuns ao todo, seja com o Fundo do Quintal, na carreira solo ou em parceria com Sombrinha. O sambista foi indicado cinco vezes ao Grammy Latino e ganhou o Prêmio da Música Brasileira em 2015.

Em uma de suas últimas aparições na TV, no programa “É Gol!!!”, da SporTV, no fim de fevereiro deste ano, cantou sucessos da carreira e falou sobre a paixão pelo Flamengo, seu time do coração, na véspera de um clássico contra o Vasco.

Fotos: Getty Imagens e Reprodução