São Francisco de Assis: símbolo de amor e perdão que reverenciava todas as espécies como irmãos

Celebramos neste 4 de outubro o Dia de São Francisco de Assis, o Santo que via irmãos em todas as espécies. É um dos santos mais reverenciados da Igreja Católica e ficou conhecido por sua vida dedicada à pobreza e à simplicidade. Nascido na Itália, ele renunciou a uma vivência de riquezas para abraçar a humildade.
Francisco se tornou símbolo de luta ambiental por meio da popularização da ideia de “irmãos na criação”. A relação de Francisco com a natureza é fraterna, no sentido de que nós, os animais e as plantas fomos feitos por Deus e somos, portanto, “irmãos na criação”.
Celebrar São Francisco, o Santo que inspira AMOR, significa acreditar que podemos dialogar com todos e que a paz começa quando consideramos os outros como irmãos.
Sua sabedoria antiga permanece como um guia atemporal, lembrando-nos que a maior paz, a mais verdadeira liberdade e a vida mais abundante não são encontradas no que ganhamos para nós mesmos, mas no que damos de nós mesmos.

Nos tempos atuais, a busca pela felicidade muitas vezes parece uma corrida para acumular. Buscamos a realização obtendo mais; mais reconhecimento, mais conforto, mais amor, mais paz. Nós nos esforçamos para ser compreendidos, para ser consolados e para ser validados, acreditando que nosso contentamento interior depende do que o mundo nos dá.
A Oração de São Francisco de Assis, no entanto, mostra que a paz e o propósito que buscamos desesperadamente não são encontrados no receber, mas no dar; não no ser compreendido, mas no compreender; não no ser perdoado, mas no perdoar. Isso não é uma estratégia para ganhos mundanos, mas um guia espiritual para uma existência mais rica e com mais significado.
Oração de São Francisco
Senhor, Fazei de mim um instrumento de vossa paz!
Onde houver ódio, que eu leve o amor, onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvida, que eu leve a fé.
Onde houver o erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz!
Ó Mestre, fazei que eu procure mais. Consolar, que ser consolado. Compreender, que ser compreendido. Amar, que ser amado. Pois é dando, que se recebe. Perdoando, que se é perdoado e é morrendo, que se vive para a vida eterna!

Segundo os estudiosos o texto explora três lições surpreendentes desta oração atemporal. Elas desafiam nossas suposições mais básicas sobre como viver uma boa vida e oferecem um roteiro paradoxal para encontrar exatamente aquilo que procuramos, mas no último lugar onde pensaríamos em procurar.
A primeira verdade disruptiva da oração, capturada na frase simples mas profunda “é dando que se recebe”, é uma inversão completa do nosso pensamento econômico e social moderno. Ela desafia diretamente a mentalidade do “o que eu ganho com isso?” que governa tantas de nossas interações.
Não se trata de uma troca direta, mas de cultivar um estado de ser onde o próprio ato de dar te preenche. Essa é a riqueza sentida não em um saldo bancário crescente, mas no ato silencioso de guardar o celular para ouvir verdadeiramente o problema de um amigo, oferecendo o presente indivisível de nossa presença.
Uma vida passada acumulando coisas para si mesmo pode levar a uma sensação de vazio, enquanto uma vida focada em contribuir para os outros cria um inesperado senso de riqueza interior, conexão e abundância.
A sabedoria da oração continua com o verso “é perdoando que se é perdoado”, visando uma fonte comum de sofrimento humano: a “ofensa”, ou o agravo que guardamos contra os outros. Nosso instinto é nos apegarmos aos nossos rancores, esperando por um pedido de desculpas ou por justiça, acreditando que perdoar alguém é um presente que concedemos a essa pessoa. A oração revela que essa visão está invertida.
Guardar raiva prejudica muito mais a nós do que afeta a pessoa que nos ofendeu; isso nos prende ao passado e envenena a paz presente. Recusar-se a perdoar é como beber veneno e esperar que a outra pessoa morra; a oração nos lembra que temos o antídoto em nossas próprias mãos. Ao perdoar os outros, não estamos tolerando suas ações; estamos nos libertando da prisão emocional de nosso próprio ressentimento.

O paradoxo final, extraído do verso “é morrendo que se vive para a vida eterna”, é o mais desafiador. O que significa “morrer” para poder viver? Não se trata da morte física, mas da morte do ego, aquela parte que constantemente exige que a pessoa seja o centro do universo.
A oração dá um guia claro sobre como é essa “morte”: a decisão consciente de “procurar mais consolar do que ser consolado, compreender do que ser compreendido, amar do que ser amado”. É o desapego da nossa necessidade de estar certo, de ser visto e de ter as necessidades atendidas primeiro.
Esse “morrer” é o ato supremo de transformação. Essa “morte” cria o espaço para que um novo eu surja, um que vive com um senso mais profundo de propósito, uma paz que não depende de circunstâncias externas. Esta é a “vida eterna” da qual a oração fala, uma qualidade de vida disponível para cada um de nós, agora mesmo.
Essas lições se complementam: o ato de dar abre nosso coração, tornando possível o difícil trabalho do perdão, e ambos são passos essenciais na “morte” do ego que permite que seu eu mais verdadeiro viva. A Oração de São Francisco oferece mais do que palavras de conforto. É um guia para uma vida com mais significado.
São Francisco foi homenageado no pontificado de Bergoglio

Quando, em 13 de março de 2013, o cardeal argentino Jorge Bergoglio foi apresentado à multidão na Praça São Pedro como o papa eleito para suceder Bento 16, houve um momento de expectativa: que nome ele escolheria para ser a marca do seu pontificado?
Pela tradição católica, papas assumem uma nova identidade quando chegam ao poder. Mais do que uma mera formalidade, o nome abraçado também procura, não raras vezes, trazem a mensagem que o líder católico pretende imprimir à sua época.
E Bergoglio se tornou Francisco. O primeiro papa da história da Igreja com este nome. Sem dúvida nenhuma, naquele instante, o argentino estava apresentando sua proposta ao mundo, numa espécie de plano de governo, antecipando o que viria a ser a tônica do seu pontificado.
Durante seu papado, Francisco foi apontado como uma voz lúcida acerca da necessidade de proteção ecológica, do “cuidado com a casa comum”, como ele tanto clama. E num momento de crise da humanidade, ele insistia também na importância do acolhimento e no fundamental da caridade e da inclusão dos mais pobres.
O papa Francisco ecoou, oito séculos depois, os princípios de São Francisco de Assis, sua inspiração para uma Igreja mais próxima do evangelho, mais próxima de Jesus. São Francisco de Assis viveu em comunhão com a Igreja, mas provocou uma grande mudança a partir da radicalidade de viver o Evangelho. O Papa Francisco instituiu uma Igreja mais simples, pobre e despojada; o diálogo ecumênico e o discurso pela paz; e o cuidado com a criação, com o meio ambiente.
Por causa disso, alguns teólogos costumam comparar que houve “o Francisco de Assis e depois o Francisco de Roma”. Duas personalidades intensas, amadas e admiradas em todo mundo. Pregaram o amor, a simplicidade, o perdão, a defesa da natureza e a proteção de todos os seres vivos.
O Papa Francisco faleceu em 21 de abril de 2025 e foi substituído, após um conclave de dois dias, por Robert Prevost, dos Estados Unidos, que escolheu o nome de Leão XIV. O legado do Papa Francisco continua ecoando no novo pontificado.
O Papa Leão XIV está dando continuidade ao trabalho de seu antecessor – e, de certa forma, de São Francisco de Assis – em prol da natureza. No dia 1º de outubro conclamou católicos e cidadãos do mundo todo a continuarem a defesa ambiental do papa Francisco e a não tratarem isso como uma questão “divisiva”.
Leão XIV falou na cerimônia de abertura de uma conferência climática com a participação da ministra brasileira Marina Silva, para comemorar o décimo aniversário da “Laudato Si”, documento papal inovador sobre a necessidade urgente de proteger a saúde do planeta.
O pontífice reforçou que a ecologia integral não pode ser vista separada da justiça social e do cuidado com os mais pobres: “Não se pode amar o Deus que não se vê desprezando suas criaturas”. E acrescentou: “Somos uma única família, com um Pai comum; habitamos um mesmo planeta, do qual devemos cuidar juntos”.
O Papa Leão XIV apontou ainda para a importância de que os próximos encontros internacionais – como a COP30, a sessão da FAO sobre segurança alimentar e a Cúpula da Água da ONU em 2026 – escutem “o grito da Terra e o grito dos pobres”.
Legado de Francisco de Assis para a Literatura

Francisco de Assis deixou escritos de punho próprio. Sua obra mais conhecida é o famoso ‘Cântico das Criaturas’, também chamado de ‘Cântico do Irmão Sol‘. O texto foi composto originalmente no dialeto da região da Úmbria e é apontado como um dos primeiros registros escritos no idioma italiano.
Francisco é considerado por muitos teóricos como o primeiro poeta italiano. Foi um dos primeiros a escrever poesia no vernáculo italiano, no dialeto umbro. Tornando-se muito importante para a literatura italiana.
Esse reconhecimento não é algo apenas dos dias atuais. Considerado o maior poeta da língua italiana, Dante Alighieri (1265-1321) dedicou a São Francisco todo o cântico 11 reservada ao paraíso de sua obra-prima, A Divina Comédia.
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