Físico Nuclear e diplomata é um dos 100 negros mais influentes do mundo

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Físico Nuclear e diplomata brasileiro, Ernesto Mané Jr, é um dos 100 negros mais influentes do mundo na lista Most Influential People of African Descent (MIPAD)

Ernesto Batista Mané Junior nasceu em 1983 em João Pessoa, na Paraíba e iniciou sua carreira profissional desafiando a si próprio. Filho de uma contadora e servidora pública brasileira e de um economista e professor de Guiné-Bissau de quem herdou o nome, viveu em João Pessoa da pré-escola ao término da faculdade.

Seus pais se separaram quando ele tinha 7 anos e sua mãe criou sozinha os quatro filhos. Ernesto estudou em escolas públicas e particulares com bolsa. No ensino médio, formou-se como técnico em informática pelo Instituto Federal da Paraíba (IFPB) e especializou-se em programação de computadores.

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Diplomata e cientista nuclear Ernesto Batista Mané Junior

Trabalhou como garçom, programador, professor de inglês e pesquisador. Tornou-se físico pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), diplomata pelo Itamaraty e cientista nuclear. Atualmente, atua na Divisão de Desarmamento e Tecnologias Sensíveis, vinculada ao Departamento de Organismos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores.

Ernesto Batista é doutor em física nuclear pela Universidade de Manchester (Inglaterra), onde fez intercâmbio de graduação; pesquisador no Cern, o maior laboratório de física de partículas do mundo, em Genebra, na Suíça; e fez dois pós-doutorados: pelo Laboratório de Física Nuclear e de Partículas do Canadá e pela Universidade Princeton, nos Estados Unidos.

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Diplomata e Físico Nuclear, Ernesto Mané Jr

O doutor em Física Nuclear, que fala fluentemente inglês, francês, alemão e espanhol, foi reconhecido como uma das 100 pessoas negras mais influentes do mundo na área de política e governança na lista Most Influential People of Africa Descent (Mipad).

A seleção do Most Influential People of African Descent (MIPAD) é realizada por um grupo de empresários, políticos e influenciadores negros de diversos países, em apoio à Década Internacional de Afrodescendentes 2015/2024, proclamada pela ONU como momento crucial para promover ações pelo reconhecimento, justiça e desenvolvimento para as populações negras do mundo.

Ernesto Mané Junior conta que na infância, adolescência e início da vida adulta no Brasil, foi alvo de discriminação racial em vários momentos da sua existência, o que pautou sua maneira de se relacionar com as pessoas, moldou seu caráter e despertou sua consciência racial.

“Sou filho de pais separados, e meu pai, que já é falecido desde 2014, saiu de casa quando eu tinha 7 anos de idade. Após a separação dos meus pais, minha mãe assumiu a responsabilidade integral pela criação dos filhos. Recordo que minha mãe trabalhava o dia inteiro para nos manter”, conta o diplomata.

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Ele diz que após ter saído do Brasil, a consciência ampliou-se ainda mais, uma vez que teve contato com pessoas de outros países e pôde contextualizar melhor os processos diaspóricos dos quais faz parte. “Compreendo hoje que faço parte de um processo histórico muito bem situado no tempo e no espaço. Sou filho de um imigrante africano que recebeu uma oportunidade de vir estudar no Brasil, no momento em que seu país estava atravessando um momento político muito delicado, no bojo de seu processo de independência”.

“Eu vivi e vivo num misto entre a meritocracia e o racismo. Sou reconhecido por várias pessoas, mas isso não significa que as pessoas com que me relacionei não tinham um viés negativo por causa da cor da minha pele”, diz Ernesto Batista.

“Ter me tornado PhD em Física Nuclear e diplomata foram fatores que, sem dúvida, contribuíram para receber esse reconhecimento, por tratar-se  de uma premiação que valoriza a excelência entre as pessoas negras. Com efeito, ainda há poucos cientistas negros e poucos negros no Corpo Diplomático Brasileiro, o que é sintomático de séculos de exclusão sistemática das pessoas negras nos espaços percebidos como de destaque”, declara o cientista nuclear Ernesto Mané Jr.

Para chegar a este reconhecimento, Ernesto teve uma vivência fantástica no Exterior. A experiência e o conhecimento foi um dos fatores que o atraíram para a carreira diplomática. Por meio do programa de ações afirmativas do Itamaraty (que, com uma bolsa, apoia pessoas negras a estudar para o concurso), preparou-se para o certame por dois anos até aprovação.

Seu pai  morreu em 2014 e foi cremado no mesmo dia que Ernesto tomou posse no Ministério das Relações Exteriores. “Ao entrar no Ministério das Relações Exteriores, eu me mostrei aberto para trabalhar com todos os temas da política brasileira e foi uma feliz coincidência me envolver com áreas ligadas a desarmamento e não proliferação de armas de destruição em massa”,diz diplomata.

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Ernesto Batista Mané Junior é um dos 100 negros mais influentes do mundo

Mané Jr. ainda não foi designado para missão no exterior apenas fez viagens à serviço como a de 2018 para  participar do Programa de Desarmamento das Nações Unidas (ONU). O programa seleciona 25 diplomatas, um de cada país, para uma viagem de 10 semanas, passando por países da Europa e da Ásia, além de Nova York, nos EUA. Ele foi o sétimo diplomata brasileiro nomeado para participar do programa, existente desde a década de 1970.

Ernesto conseguiu licença de estudo do Itamaraty para fazer pós-doutorado em Princeton. Lá ele aprofundou seus conhecimentos sobre desarmamento e capacitou-se para atuar com diplomacia nuclear. Atualmente, concilia duas diferentes carreiras de destaque, que interagem entre si em suas habilidades.

“Eu não conseguiria fazer essa pesquisa se fosse só físico ou se fosse só diplomata. Diplomatas físicos existem, mas, sem falsa modéstia, não existem outros diplomatas com esse background de pós-doutorado em física nuclear produzindo nessa área além de mim”, afirma Ernesto.

O físico nuclear e diplomata Mané Jr. afirma que sempre foi muito responsável com os estudos. “Depois de ter lido todos os livros que havia em casa, passei a frequentar a biblioteca do Espaço Cultural com alguma assiduidade. Lá era meu refúgio, onde costumava passar horas nos finais de semana. Nos espaços em que convivi, fiz muitas amizades, algumas das quais perduram até os dias de hoje. Sinto bastante saudades dos amigos que deixei em João Pessoa”.

Fotos: Egan Jimenez/Divulgação