Embrapa DF reproduz de forma inédita o Chuveirinho do Cerrado, em laboratório

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Chuveirinhos do Cerrado encantam pela delicadeza e exuberância no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros

O Cerrado possui uma flora muito rica e diversificada, com espécies que se destacam por sua beleza, importância ecológica, valor econômico e cultural. Elas apresentam uma grande variedade de formas, tamanhos, cores e adaptações.

Graças a ciência foi possível reproduzir, pela primeira vez, em casa de vegetaçãoPaepalanthus acanthophyllus, planta típica do Cerrado mais conhecida como chuveirinho. O feito se deve a bióloga e pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (DF) Dulce Alves.

O potencial ornamental das plantas do Cerrado, associado à necessidade de preservação das espécies que têm perdido seu habitat rapidamente, motivaram a cientista a ampliar sua pesquisa, que era sobre sementes, também para o cultivo.

A descoberta de Dulce Alves abre a possibilidade não só de preservar espécies do bioma, mas também de novas oportunidades de negócio no mercado de plantas ornamentais e de mais opções para o paisagismo urbano da região.

Agora, a pesquisadora pretende encontrar parceiros no mercado para levar o projeto a outro patamar. “O objetivo é cultivar as plantas em larga escala e colocar à venda no mercado. Minha ideia inicial, tendo em vista o risco de extinção de muitas espécies do Cerrado, sempre foi promover o uso sustentável dessas plantas”, afirma. Esse trabalho pode envolver parceiros extrativistas e melhorar também a qualidade de vida de quem mora no campo e mantém o bioma em pé.

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Chuveirinho do Cerrado é reproduzido de forma inédita em laboratório da Embrapa Brasília

Durante entrevista no CB. Agro, programa em parceria com a TV Brasília e o Correio Braziliense a pesquisadora falou sobre preservação e uso de espécies de plantas do cerrado para ornamentação. Afirmou que o trabalho de cultivo de espécies nativas em ambiente laboratorial tem o potencial de promover a conservação ambiental e desenvolver novas práticas de cultivo.

Dulce contou como um trabalho de quatro anos possibilitou o cultivo inédito, em laboratório, do chamado Chuveirinho do Cerrado e revelou como surgiu a ideia. “Como temos um projeto de ornamentais dentro do portfólio de recursos genéticos, comecei a cultivar essas plantas. Ao contrário do que se dizia, pouquíssimas espécies da região não crescem bem em solo bom”, revela a pesquisadora, que também conseguiu cultivar outras plantas da família do chuveirinho e a canela-de-ema.

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Dulce Alves pesquisadora da Embrapa DF responsável por reproduzir o Chuveirinho e outras plantas do Cerrado, durante entrevista na TV Brasília/Correio Braziliense

Dulce conta como iniciou o método de cultivo do Chuveirinho. “Eu comecei a me perguntar se a gente conseguiria cultivar essas espécies do Cerrado, principalmente as herbáceas, que têm um ciclo de vida mais curto e entram na fase reprodutiva mais rapidamente”, lembra a pesquisadora. Ela conta que ouvia sempre os mesmos comentários: “você não vai conseguir, porque planta do Cerrado não gosta de solo bom”. 

Chuveirinhos encantam pela delicadeza e exuberância e são abundantes no bioma do Cerrado, principalmente no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, perto de Brasília. Uma beleza insólita que nasce onde menos se espera em forma de um bouquet de flores.

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Chuveirinho: o bouquet de flores do Cerrado

Por outro lado, comecei a perguntar para pessoas que não eram da área se elas achavam as plantas bonitas, e a maioria respondia que sim. Várias espécies do Cerrado são lindas, mas não estão disponíveis para venda em larga escala nos viveiros, pois ainda não foram melhoradas e existe pouca ou nenhuma pesquisa sobre técnicas de cultivo que se apliquem a elas”, informa a pesquisadora.

Inspiração começou na pandemia da Covid-19 e para dar mais cor a casa de vegetação. A pesquisadora conta que aprendeu a valorizar a beleza da biodiversidade do Cerrado. “Eu nunca tinha unido a ciência à beleza. Para mim, eram só sementes. Até que, na pandemia, eu decidi começar a cultivar essas espécies. Eu me dei conta que muitas das espécies que eu considero as mais bonitas estão entrando em ameaça de extinção. E aí eu pensei ‘será que eu consigo cultivar e promover a conservação dessas espécies através do cultivo?’, contou a pesquisadora.

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Chuveirinho do Cerrado: o bouquet de flores que encanta pela exuberância

Dulce conta que as sementes de chuveirinho chegaram até ela pelo colega, o analista da Embrapa Leonel Pereira-Neto, há cerca de quatro anos. “Ele estava em uma viagem e viu um campo repleto de flores da espécie. Achou lindo. Parou o carro e coletou os frutos, mas não conseguiu germinar suas sementes. Aí ele bateu na minha porta e disse: ‘A planta é linda! Tentei germinar e não consegui. Não tenho paciência, mas sei que você terá’”.

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Dulce Alves pesquisadora da Embrapa DF responsável por reproduzir o Chuveirinho e outras plantas do Cerrado

A pesquisadora da  Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, revela que o trabalho realmente não foi fácil. “Tive que usar a lupa, pois o fruto é minúsculo. Tive que abrir os frutos, olhar o que era a semente. Aí vi que a maioria dos frutos estava vazia. Então consegui finalmente começar a estudar a germinação e me apaixonei pela planta e por sua família”.

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Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, Brasília

Segundo ela, o chuveirinho tem um tipo de germinação muito diferente das outras plantas e dá bastante trabalho tirar as sementes de dentro dos frutos. “Mas mesmo assim consegui mudar a escala. Dessas sementes eu consegui a planta, aí dessa planta eu fui mudando o tamanho do vaso até que cheguei à floração”.

Dulce explica que o chuveirinho no cerrado (habitat natural) chega no máximo a meio metro de altura. Mas na casa de vegetação na Embrapa, com solo bom, ele atingiu mais de um metro. No geral, as descobertas da pesquisadora foram sendo feitas na base de tentativa e erro, pois, praticamente, não há pesquisas sobre o assunto. “Consegui apenas uma dissertação de mestrado, da década de 1980, ainda assim de uma outra espécie e com cultivo a céu aberto”, comenta.

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Chuveirinho do Cerrado: a delicada flor que mantém a beleza e características mesmo depois de colhida

“É preciso pensar na ecologia da planta para conseguir bons resultados. O chuveirinho, por exemplo, só floresceu e completou o ciclo reprodutivo depois que eu ajustei o tamanho do vaso”, explica a pesquisadora.

As plantas do Cerrado, como já estão adaptadas à região, exigiriam menos cuidados que as plantas que são usadas nos jardins de Brasília. “Uma vez passado aquele gargalo inicial, de elas crescerem, muito provavelmente vão precisar de menos manutenção e insumos do que espécies que não são daqui”, explica a cientista.

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Embrapa DF reproduz de forma inédita o Chuveirinho do Cerrado, em laboratório

O Brasil tem um potencial com plantas ornamentais inimaginável. O problema é que a gente não explora isso ainda. Eu me dei conta disso, que existe um mercado mundial para isso, quando eu recebi um japonês. Ele veio à Embrapa Recursos Genéticos e falou que tinha muito interesse em plantas ornamentais. Aí eu me dei conta que a gente deve ter plantas com potencial ornamental que a gente não está explorando”, lembrou Dulce Alves

Dulce disse que a exploração do cultivo dessas plantas nativas para o paisagismo tem grande potencial mercadológico. Além de possibilitar o fomento à economia, a compra das sementes tem grande valor social, por beneficiar famílias produtoras do campo.

“Hoje, o Chuveirinho do Cerrado e sementes diferentes também podem ser adquiridas nessas redes de sementes. Esse valor que é gerado ajuda as famílias no campo, famílias que mantém o cerrado em pé a se sustentar. Então, tem um fator social, e meu sonho é que isso realmente mude de escala, porque eu estou numa escala dentro da minha empresa numa casa de vegetação, mas que eu consiga parcerias para realmente tornar isso disponível para a população comprar”, declarou a bióloga Dulce Alves.

Viva a Ciência. O cultivo de flores do Cerrado em laboratório une conservação e paisagismo. Viva a beleza da biodiversidade do Cerrado.

Fotos: Rafael Eiiti Yuri e Ed Alves/CB/DA.Press