Helder Guastti: único brasileiro selecionado pelo Global Teacher Prize, o Nobel da Educação


O professor Helder Guastti, de 37 anos, que dá aula para crianças do primeiro segmento do ensino fundamental — do 1º ao 5º ano —, em uma escola localizada no Bairro de Fátima, no Espirito Santo, foi anunciado como único brasileiro e um dos 50 finalistas do Global Teacher Prize, tido como o Nobel da Educação, que reconhece o trabalho de educadores em mais de 80 países.
O docente brasileiro foi reconhecido pelos projetos ‘Como Diz o Outro’ e ‘Confabulando’ e concorreu com 5 mil selecionados. Helder celebrou a premiação. “É o reconhecimento e a validação do trabalho de uma vida inteira. Eu gosto muito de falar isso e frisar que educação de qualidade, educação pública de qualidade, ela se faz com muito estudo, muita pesquisa, para além de discursos motivacionais (…) o impacto desse prêmio, para mim, vai para além do professor Helder. Venho de uma comunidade carente aqui do meu município, que é muito pequeno, e poder colocar, João Neiva no mapa, sabe, estar extrapolando essas fronteiras e mostrar para as crianças que tudo é possível.’

Helder é conhecido pelo trabalho, dedicação e comprometimento com uma educação emancipadora, para formar cidadãos conscientes e com potencial transformador para as suas comunidades. Além da especial atuação em sala de aula ele criou um projeto social ‘Confabulando’, um espaço de leitura comunitário para todas as idades, desenvolvido na própria casa, em um bairro da periferia do município de João Neiva, no Espírito Santo, onde mora com a mãe Rogéria Guastti, também professora e muito respeitada n a cidade.
Neste mês, ele viajou a Dubai para receber um dos maiores reconhecimentos da educação no mundo: o Global Teacher Prize, considerado o Nobel da educação. “Eu quero ser o melhor possível. Não no sentido de competição, mas no sentido de poder oportunizar uma educação potente, que vai promover uma formação integral das crianças”, conta o docente graduado em pedagogia.
O educador capixaba, único brasileiro finalista do importante prêmio, defende investimentos na formação inicial e continuada de professores e reforça a importância da valorização docente para o desenvolvimento do país.

” Iniciativas como essas, infelizmente, ainda são pouco difundidas entre os docentes. Creio que devemos estudar bastante e nos empenhar ao máximo na promoção e efetivação de boas práticas, que considerem, de fato, as crianças como centro de todos os processos. Para isso precisamos não apenas ouvi-las, mas considerar suas inferências e participações em nossas atividades e processos. Também há a necessidade de um maior envolvimento e valorização por parte do poder público. Quando todos passarem a compreender que valorizar o professor e a educação é valorizar nossa própria sociedade, muita coisa mudará. Para melhor“, diz Helder Guastti.
Com o projeto nomeado “Como diz o outro”, o professor Helder resgatou, junto a seus alunos do 5º ano, contos populares de tradições orais e os transformou em um livro feito pelos estudantes e ilustrado com imagens feitas por inteligência artificial. O projeto foi um dos responsáveis pelo aumento do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da escola, passando de 6.4 em 2021 para 6.8 em 2023.
Ele conta que a escolha pela primeira etapa do ensino fundamental ocorreu por vocação. “É o segmento com que eu me identifico. Eu sinto quase como um senso de urgência, do que eu posso contribuir para essas crianças em termos de ampliação de repertório”.
Ele explica que o ensino fundamental é marcado pelo processo de alfabetização das crianças, momento crucial da formação e que, como mostram pesquisas e reforçam os especialistas em educação, formam a base para a construção de um conhecimento duradouro e senso crítico.

“O ponto central do meu trabalho é sempre a afetividade. Vivências, discussões, debates — entre as crianças; entre eu e as crianças; com os familiares”, reforça Helder, que acredita que o próprio caminho na educação influenciou essa escolha. “Quando olho para trás, na minha trajetória escolar, as marcas mais fortes são exatamente dessa etapa.”
“A escola, a sala de aula, fazem parte do mundo. Elas não estão isoladas no universo. Quando a criança se encontra, pertence àquele espaço, onde o que ela fala importa, ela se apropria disso para a vida”, avalia o professor.
O projeto que rendeu, no ano passado, o prêmio Educador Nota 10 ao professor nasceu a partir dessa perspectiva. Concedido pelo Instituto Somos, o prêmio foi criado em 1998 e tem por objetivo valorizar o trabalho de professores e de gestores escolares da educação infantil ao ensino médio de escolas públicas e privadas brasileiras. Helder foi o vencedor da 26ª edição.
“Como diz o outro…” resgatou pontos da tradição oral da cidade que, apesar do clima de interior, perdeu ao longo do tempo e com a presença cada vez mais frequente da tecnologia, a raiz das histórias contadas de pais para filhos e de avós para os netos. O próprio nome escolhido faz referência a uma expressão popular da cidade de João Neiva.
A construção seguiu o passo a passo que o professor adota todos os anos. Helder aproveita o primeiro trimestre para entender em que nível a turma está em termos de repertório e de comportamento leitor. Depois dessa fase, a partir do segundo trimestre, ele passa a desenvolver o projeto, com foco em trabalhar a variedade de gêneros e outros aspectos da linguagem. “Como diz o outro…” nasceu após uma roda de leitura com a escritora Gabriela Romeu. “Ficamos tentando explicar a ela o que significava a expressão e ela sugeriu que resgatássemos a história de João Neiva”, afirma Helder.
Os estudantes participaram e opinaram em todo o processo. Pediram que a culminância do projeto fosse um livro ilustrado e com adivinhas e parlendas. “Pegando esse mote central do resgate do tradicional, tentei a todo momento trazer a comunidade escolar e as famílias para a participação nos projetos. E um passo grande que a gente deu foi ir até as ruas, fazer pesquisa de campo mesmo”, conta.
Durante as pesquisas, as discussões sobre as novidades no mundo da tecnologia estavam em alta, com o avanço e a popularização das ferramentas de inteligência artificial generativa, em 2023. Alunos de uma escola no Rio de Janeiro haviam usado a ferramenta para fazer montagens pornográficas com o rosto de colegas de classe e a situação indignou os estudantes de Helder, que sugeriram fazer um uso da plataforma para o bem: as ilustrações do livro do projeto.
“Acabou por fazer o resgate do tradicional, do oral, do popular de João Neiva, ao mesmo tempo em que trouxe a contemporaneidade do uso das ferramentas digitais”, celebra o professor, que também dá aulas em Aracruz, município vizinho.
Fotos: : Vilarejo Fotografias/Divulgação e Reprodução













