Mariangela Hungria: ‘Nobel da Agricultura’ por trabalho que mantém o Brasil como ‘celeiro do mundo’

Bernadete Alves
Cientista Mariangela Hungria é a primeira brasileira a receber o ‘Nobel da Agricultura’

A microbiologista Mariangela Hungria, da Embrapa Soja e membro da Academia Brasileira de Ciências, tornou-se a primeira mulher brasileira a receber o World Food Prize, maior premiação internacional dedicada à ciência dos alimentos e da agricultura.

O anúncio foi feito nos Estados Unidos, sede da fundação responsável pelo prêmio, criado em 1986 pelo agrônomo Norman Borlaug – vencedor do Nobel da Paz e figura central da chamada Revolução Verde.

Reconhecido como o “Nobel da Agricultura”, o World Food Prize homenageia anualmente personalidades que contribuíram para aumentar a qualidade, a quantidade ou a disponibilidade de alimentos no mundo. Mariangela se junta a nomes como os agrônomos brasileiros Edson Lobato e Alysson Paolinelli, premiados em 2006, e Luiz Inácio Lula da Silva, agraciado em 2011 por sua atuação no combate à fome.

A cientista Mariangela Hungria é a primeira brasileira a receber a premiação, que reconhece a relevância de suas pesquisas no desenvolvimento de insumos biológicos voltados à produtividade sustentável no campo.

Hungria é pioneira no uso de microrganismos no solo, e foi premiada pelas inovações que ajudaram o Brasil a se tornar potência agrícola. Ela é referência para todas as mulheres que sonham em seguir carreira científica e para todas as mulheres que atuam, muitas vezes silenciosamente, na segurança alimentar.

Bernadete Alves
Mariangela Hungria: ‘Nobel da Agricultura’ por trabalho que mantém o Brasil como ‘celeiro do mundo’

“Eu queria fazer uma homenagem às mulheres. Elas têm papel fundamental na segurança alimentar e na agricultura — desde a preservação das melhores sementes para a próxima safra, hortas domésticas, plantas medicinais, até o preparo cuidadoso da comida da família e da comunidade da melhor forma nutricional. Se não fossem as mulheres, nossa insegurança alimentar seria muito maior. Quero homenagear todas elas”, declarou a cientista brasileira.

Com mais de quatro décadas de atuação, Mariangela é considerada uma das principais responsáveis por tornar o Brasil líder mundial no uso de insumos biológicos na agricultura. Seu trabalho viabilizou o uso de bactérias benéficas que interagem com o solo e as raízes das plantas, substituindo parcial ou totalmente o uso de fertilizantes químicos. A tecnologia, adotada em cerca de 40 milhões de hectares, gerou uma economia anual estimada de 25 bilhões de dólares e evitou a emissão de mais de 230 milhões de toneladas de CO₂.

A pesquisadora também ajudou a levar essas soluções para culturas como feijão, milho, trigo e pastagens, ampliando o uso de inoculantes para além da soja. “Produzir mais com menos insumos, menos terra, menos esforço humano e menor impacto ambiental” tem sido o norte de sua carreira, segundo afirmou em comunicado oficial.

A fundação responsável pelo prêmio destacou que suas contribuições científicas “transformaram a sustentabilidade da agricultura na América do Sul” e que sua trajetória é exemplo de perseverança em defesa de uma produção de alimentos mais limpa e eficiente.

Bernadete Alves
Mariangela Hungria é a primeira mulher brasileira a receber o World Food Prize

Natural de Itapetininga (SP), Mariangela Hungria é engenheira agrônoma formada pela Esalq/USP, com mestrado, doutorado e pós-doutorado em instituições como a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Cornell, University of California-Davis e Universidade de Sevilla. Ingressou na Embrapa em 1982 e, desde 1991, está lotada na Embrapa Soja, em Londrina (PR). Também atua como professora da Universidade Estadual de Londrina e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná.

Mariangela foi uma das primeiras cientistas brasileiras a defender a fixação biológica de nitrogênio – processo em que microrganismos capturam o nitrogênio do ar e o disponibilizam às plantas, eliminando a necessidade de adubos nitrogenados. O método, inicialmente visto com ceticismo, ganhou espaço sobretudo após crises internacionais e aumento nos custos dos insumos importados, como fertilizantes.

A Dra. Mariangela sempre destacou a importância de apostar em ciência local e também lembra do valor simbólico de sua conquista: “Espero que minha trajetória inspire outras mulheres a seguirem suas paixões na ciência”.

Fotos: Reprodução