Presidente do STM pede perdão às vítimas da ditadura, em ato em memória de Herzog

Bernadete Alves
Geraldo Alckmin, presidente em exercício, durante ato ecumênico pelos 50 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, na Catedral da Sé

A presidente do Superior Tribunal Militar (STM), ministra Maria Elizabeth Rocha, pediu perdão às vítimas da ditadura militar e aos familiares durante ato ecumênico, na Catedral da Sé, que marcou os 50 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog.

“Estou presente neste ato ecumênico para, na qualidade de presidente da Justiça Militar da União, pedir perdão a todos que tombaram, que sofreram, lutando pela liberdade do Brasil”, declarou a ministra Elizabeth Rocha.

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Presidente do STM pede perdão às vítimas da ditadura, em ato em memória de Herzog, na Catedral da Sé

A magistrada também mencionou nomes de pessoas que foram perseguidas pelo regime, como Vladimir Herzog, Rubens Paiva, Miriam Leitão, José Dirceu, Aldo Arantes, José Genoíno e João Vicente Goulart. Ela destacou que o reconhecimento dos erros do passado é necessário para evitar retrocessos democráticos.

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Ministra Elizabeth Rocha, presidente do STM, pede perdão às vítimas da ditadura, em ato em memória de Herzog

“Eu peço, enfim, perdão à sociedade brasileira e à história do país pelos equívocos judiciários cometidos pela Justiça Militar Federal em detrimento da democracia e favoráveis ao regime autoritário. Recebam meu perdão, a minha dor e a minha resistência”, declarou Maria Elizabeth. O público que lotava a catedral respondeu com aplausos de pé.

A advogada Maria Elizabeth Rocha é a primeira mulher a presidir o STM. Durante o evento, afirmou que o fortalecimento das instituições democráticas é essencial para impedir a repetição de episódios semelhantes.

Bernadete Alves
Ato inter-religioso na Igreja da Sé lembra os 50 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog

O gesto, de uma autoridade máxima da Justiça Militar, instância diretamente ligada às Forças Armadas, inédito na história do país, ocorreu neste sábado 25 de outubro, durante ato inter-religioso dirigido aos mortos, desaparecidos, torturados e perseguidos pelo regime que vigorou entre 1964 e 1985.

Bernadete Alves
“Recebam meu perdão, a minha dor e a minha resistência”: diz Ministra Elizabeth Rocha em ato pelos 50 anos do assassinato de Herzog

A cerimônia pelos 50 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, reuniu familiares, autoridades, artistas, parlamentares e representantes de diversas crenças. Estiveram presentes o presidente em exercício, Geraldo Alckmin e Dona Lu Alckmin, Dom Odilo Pedro Scherer,  José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça, a reverenda Anita Wright, filha do pastor Jaime Wright, e o rabino Ruben Sternschein.

Bernadete Alves
Ato inter-religioso na Igreja da Sé lembra os 50 anos da morte de Vladimir Herzog

A abertura ficou a cargo do Coro Luther King, seguida de manifestações inter-religiosas e homenagens. A atriz Fernanda Montenegro emocionou o público ao ler uma carta escrita por Zora Herzog, mãe de Vladimir.  “Meu filho não voltará, mas seu bom nome não ficará manchado. Se seu desaparecimento não foi em vão para a história do País, para mim sua perda é definitiva, minha dor não tem consolo.”

Geraldo Alckmin, presidente em exercício, afirmou: “A memória de Vladimir Herzog segue viva e evoca em cada um de nós a promessa de defender os valores sagrados da vida, da liberdade e dos direitos humanos. Por isso, reafirmo aqui, em nome do presidente Lula e em meu próprio, a nossa promessa, e muito mais que promessa, o nosso inabalável compromisso e perseverante empenho na defesa da verdade, da justiça e da democracia. Viva a aliança da fé, das religiões, pela dignidade humana”.

Bernadete Alves
Geraldo Alckmin durante ato ecumênico pelos 50 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog

“Nem a mais covarde das mentiras, forjada pela mais vil das tiranias, foi capaz de apagar a verdade truculenta que se abatera sobre o País. Assim como na defesa da verdade, não houve lugar para a farsa do suicídio, da mesma forma, por amor à liberdade, jamais haverá lugar para o nosso esquecimento”, declarou Alckmin.

Bernadete Alves
Catedral da Sé rememora os 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog

“Vivam todos os que lutaram pela nossa liberdade. Viva Herzog! Viva a democracia! Viva o Brasil!”, afirmou Geraldo Alckmin.

Bernadete Alves
Ivo Herzog, durante ato na Catedral da Sé pelos 50 anos do assassinato de Vladimir Herzog, seu pai

Ivo Herzog, o filho do jornalista, que tinha nove anos quando o pai foi assassinado. Ivo agradeceu a presença de Alckmin, com todo o simbolismo que isso carregava, e o fato de o presidente em exercício estar ali. Ao seu lado estava André Herzog, seu irmão. “Viva a paz, viva a Justiça, viva a liberdade, viva Vladimir Herzog, viva a democracia brasileira”.

O ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, pela comissão Arns, se pronunciou: “Hoje vivemos sob a ameaça da anistia. Graças a Deus, ainda estamos vivos. Os direitos humanos não podem ser violentados”.

O Instituto Vladimir Herzog lançou um dossiê especial com documentos, fotos e registros sobre a vida e o legado do jornalista. O material integra o acervo do instituto, dirigido por seu filho, Ivo Herzog, e voltado à promoção da educação em direitos humanos e à preservação da memória histórica.

A morte que expôs a violência da ditadura

Bernadete Alves
Ato inter-religioso na Catedral da Sé é dedicado à memória das vítimas da ditadura

Nos anos 1970, trabalhar com jornalismo significava correr riscos — de censura, prisão e até morte. Quando foi preso, Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura. Antes dele, 11 jornalistas já haviam sido detidos e alguns torturados.

Em 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog, então diretor de jornalismo da TV Cultura, apresentou-se voluntariamente ao DOI-CODI para prestar esclarecimentos. Horas depois, foi encontrado morto. O regime militar divulgou que o jornalista teria se suicidado, mas fotos e perícias posteriores comprovaram o assassinato sob tortura.

A imagem do corpo de Herzog, com os joelhos dobrados e amarrado a uma janela mais baixa que sua altura, comoveu o país, escancarou a brutalidade da repressão e tornou-se símbolo da brutalidade estatal e mobilizou a opinião pública.

Uma semana depois, o então presidente do Sindicato dos Jornalistas, Audálio Dantas, organizou um ato ecumênico na Catedral da Sé que reuniu mais de 8 mil pessoas. A cerimônia foi celebrada pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor Jaime Wright, união inédita de lideranças religiosas em um gesto público de resistência.

A missa desafiou a ditadura e se tornou símbolo da união pela liberdade e divisor de águas na redemocratização do Brasil.

Em 1978, a Justiça Federal reconheceu oficialmente que Herzog foi preso, torturado e morto por agentes do Estado. Em 2012, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou a correção do atestado de óbito, retirando a falsa menção a suicídio. No início deste mês, a família recebeu o novo documento em uma cerimônia que também homenageou outras cem famílias de vítimas do regime militar.

Herzog nasceu na antiga Iugoslávia, em 1937, em uma família judia que fugiu da perseguição nazista antes de chegar ao Brasil. Formou-se em Filosofia pela pela Universidade de São Paulo, onde conheceu Clarice, com quem teve dois filhos: Ivo e André.

Sua trajetória, interrompida pela violência da ditadura, permanece como referência ética e simbólica da luta pela liberdade e pela verdade no Brasil.

Ivo Herzog dirige o Instituto Vladimir Herzog, que preserva objetos pessoais do pai, como o gravador e a máquina de escrever, e promove ações de educação em direitos humanos.

Fotos:  Paulo Pinto/Agência Brasil Reprodução / Redes sociais