Lô Borges: gênio de sensibilidade rara e criador de melodias sempre jovens e universais, morre aos 73 anos

Bernadete Alves
Lô Borges: gênio de sensibilidade rara e criador de melodias sempre jovens e universais, morre aos 73 anos

É com pesar que registro o falecimento do gênio da música Lô Borges, aos 73 anos, vítima de intoxicação por medicamentos. O ícone da MPB e fundador do Clube da Esquina estava internado no Hospital Unimed, em Belo Horizonte, desde o dia 17 de outubro tratando um quadro de intoxicação medicamentosa.

No dia 25 de outubro, o cantor passou por uma traqueostomia, procedimento o caracterizado pela abertura que os cirurgiões fazem na parte frontal do pescoço e na traqueia, logo abaixo do pomo-de-adão. Além do procedimento delicado, o cantor respirava com ajuda de ventilação mecânica.

A morte de Lô deixa o Brasil de luto. O país perde um de seus artistas mais geniais, inventivos e únicos. Nossa solidariedade e orações à família, aos amigos e a todos que, como eu, se emocionaram e se emocionam com a obra deste fenomenal músico. Que sua obra permaneça em cada violão e siga ultrapassando fronteiras e emocionando todo o mundo. Sonhos não envelhecem.

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Lô Borges: ícone da MPB e fundador do Clube da Esquina, morre aos 73 anos

“Se eu morrer , não chore não, é só poesia”, como cantou, Lô Borges deixa a saudade, mas também um legado que nunca sairá das esquinas da música brasileira. Ele encantou corações com sua voz, suas melodias e composições. Sua preciosa obra continuará a nos embalar, nos inspirar e nos lembrar que a beleza vive no simples, no som das ruas e, sobretudo nas vozes que acreditam. Siga no Trem Azul com a certeza que continuará vivo no coração dos incontáveis fãs.

Compositor de sensibilidade rara e criador de melodias maravilhosas, Lô ligou a musicalidade do interior de Minas ao rock livre de amarras do Beatles para escrever uma das páginas mais bonitas da música brasileira “Clube da Esquina”, reconhecido mundialmente como um dos maiores discos do século XX.

Autor de clássicos atemporais e sempre jovens e universais, Jô assinou os sucessos o “Trem Azul”, “Paisagem Da Janela”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Tudo que Você Podia Ser”, “Para Lennon e McCartney”, e se tornou um ícone de uma geração que uniu Minas Gerais ao mundo. Parte precocemente, deixando um legado de lirismo, simplicidade, liberdade artística e equilíbrio entre experimentalismo e tradição.

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Famosos lamentam a morte de Lô Borges: compositor de sensibilidade rara e criador de melodias maravilhosas,

Sem falar que Lô Borges foi um dos fundadores do Clube da Esquina, movimento musical brasileiro surgido em Belo Horizonte entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970. Ao lado de Milton Nascimento, Beto Guedes e Toninho Horta, entre outros artistas, Lô ajudou a transformar a sonoridade da música brasileira na década de 1970. Um dos grandes marcos de sua carreira veio em 1972, com o lançamento do álbum duplo Clube da Esquina, feito em parceria com Milton Nascimento. O disco é até hoje considerado uma das maiores obras da música brasileira, reunindo clássicos como “Tudo que Você Podia Ser e Cravo e Canela.”

No mesmo ano, o artista lançou seu primeiro trabalho solo, “Disco do Tênis”, que passou a ser considerado cult pela sonoridade experimental, ter um toque psicodélico e influências de Beatles e folk.

O sucesso repentino fez com que Lô Borges desse um tempo dos palcos. Ele passou um período de sua vida em Arembepe, na Bahia. Em 1984, Lô Borges fez sua primeira turnê por todo o Brasil com o disco “Sonho Real”. No início dos anos 2000, a parceria com Samuel Rosa na música “Dois Rios” trouxe Lô de volta aos holofotes.

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Lô Borges: gênio de sensibilidade rara e criador de melodias sempre jovens e universais, morre aos 73 anos

Desde 2019, o artista mantinha a tradição de lançar um álbum de músicas inéditas por ano. O último foi “Céu de Giz”, em agosto de 2025, uma parceria com Zeca Baleiro. Ao longo das décadas, ele manteve uma carreira discreta, mas fiel à sua essência. Mesmo longe dos holofotes, continuou compondo e se apresentando, sempre com uma legião de fãs fiéis à sua obra. Seu último álbum de estúdio foi lançado em 2024, intitulado Tobogã. Lô Borges lança em 23 de agosto o álbum ‘Tobogã’, batizado com o nome do livro publicado pelo pai do artista em 1987.

Sexto filho de uma família de 11 irmãos, Salomão Borges Filho nasceu no bairro Santa Tereza, na Região Leste de Belo Horizonte, e se mudou ainda criança para o Centro da cidade, durante uma obra na casa em que vivia. A mudança temporária transformou, para sempre, a vida de Lô e a música brasileira. Aos 10 anos, nas escadas do Edifício Levy, na Avenida Amazonas, ele conheceu o vizinho Milton Nascimento.

“Sentei na escadaria, dei de cara com um carinha tocando violão, era o Bituca. Eu tinha 10 (anos), e ele tinha 20. […] Fiquei vendo o Bituca tocando violão, e ele assim comigo: ‘Você gosta de música, né, menino?'”, contou Lô Borges em entrevista ao programa Conversa com Bial, em 2023.

A moradia no centro ainda rendeu outro encontro. “Dois meses depois, ao acaso também, andando pelas ruas do Centro de BH, eu conheci o Beto Guedes, que também tinha 10 anos, andando numa patinete. Eu fiquei encantado pela patinete, abordei o cara, o cara era Beto Guedes”, lembrou Lô Borges.

Lô, já mais velho, seguiu os passos dos irmãos e tomou gosto pela música nas ruas do bairro boêmio. E foi nas esquinas das ruas Divinópolis com Paraisópolis que músicas conhecidas mundo afora foram escritas. O Clube da Esquina se transformou em movimento musical e, em 1972, virou o nome do disco que foi considerado, mais de 50 anos depois, o maior álbum brasileiro de todos os tempos. Lô que era anônimo se tornou um ícone da música brasileira.

A notícia do falecimento do artista ocorrido na noite de domingo, comoveu seus fãs. Famosos usaram as redes sociais para lamentar a morte do cantor e compositor, considerado um dos mais importantes da MPB. Dentre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Milton Nascimento, Flávio Venturini, Fafá de Belém, Samuel Rosa, Wagner Tiso, Margareth Menezes, dentre outros.

Bernadete Alves
Morre Lô Borges: o gênio da musica brasileira e fundador do Clube da Esquina

“Hoje nos despedimos de um dos grandes nomes da nossa música popular brasileira, Lô Borges. Suas canções, que começaram a nascer nas esquinas de Belo Horizonte, ultrapassaram as fronteiras de Minas Gerais e estão gravadas não apenas em álbuns, mas na memória e no coração de milhões de brasileiros.

Conheci melhor as canções de Lô Borges através da Janjinha, que é fã desde sua adolescência e coloca seus álbuns para tocar nos nossos momentos de descanso.

Gerações de músicos foram influenciados pela sua obra. Seu álbum “Clube da Esquina”, em parceria com Milton Nascimento e Beto Guedes, é considerado um dos mais importantes de nossa história. E a própria MPB que conhecemos não seria a mesma se Lô Borges não tivesse nos dado a alegria de ter existido.

O Brasil agradece a Lô Borges. E aos seus familiares, amigos e fãs, registro minha solidariedade e apoio neste momento de despedida”, escreveu o Presidente Lula.

Bernadete Alves
Milton Nascimento presta homenagem a Jô Borges, parceiro do álbum “Clube da Esquina”

“Lô Borges foi – e sempre será – uma das pessoas mais importantes da vida e obra de Milton Nascimento. Foram décadas e mais décadas de uma amizade e cumplicidade lindas, que resultaram em um dos álbuns mais reconhecidos da música no mundo: o Clube da Esquina. Lô nos deixará um vazio e uma saudade enormes, e o Brasil perde um de seus artistas mais geniais, inventivos e únicos. Desejamos muito amor e força à família Borges, a qual acolheu Bituca em sua chegada a Belo Horizonte, lá nos anos 60 e, principalmente, ao seu filho Luca. Descanse em paz, Lô”, Milton Nascimento.

“Com o coração apertado, me despeço hoje de Lô Borges, um dos maiores gênios da nossa música. Um artista que, com o Clube da Esquina, transformou a música popular em poesia, liberdade e sentimento. Lô foi alma mineira, compositor de sensibilidade rara, criador de melodias maravilhosas. Sua obra é dessas que vão continuar iluminando mesmo depois que o artista parte. Que sua travessia seja de luz! E que a nossa cultura siga viva, inspirada pelo seu legado tão bonito”, cantora Margareth Menezes, Ministra da Cultura

“Devastado. Lô Borges nos deixou. Lô foi, afora os mais de 30 anos com meus amigos do Skank, o maior parceiro que tive na música. Com ele gravei um disco ao vivo, dividi turnês e composições. Começamos a fazer shows juntos em 1999, e a gente brincava que nossa turnê não tinha hora pra acabar. Trata-se daqueles casos clássicos em que um fã acaba tendo a sorte de dividir o palco com seu ídolo. Lô Borges foi um dos maiores compositores brasileiros, não por acaso, assina com Milton Nascimento, o disco “Clube Da Esquina”, considerado por muitos, o melhor disco já produzido em terras brasileiras, além de vários clássicos do cancioneiro nacional. Meu amigo, você vai fazer muita falta, seu legado é definitivo, você é um dos grandes, e eu o Brasil tivemos o privilégio de compartilhar sua nobre história. Obrigado meu irmão meu irmão, saudades eternas”, Samuel Rosa.

“Luto! Lô foi sempre uma grande inspiração para mim! Perder sua presença e a luz de suas canções será uma grande dor, mesmo com a certeza de que elas serão eternas! Querido Lô descanse em paz e obrigado por tudo”, Flávio Venturini.

“Meu querido amigo, amigo de chegada, junto com o Marcinho, seu irmão, com o Fernando Brant, Flavinho Venturini, com tantos amigos mineiros do meu coração, Milton Nascimento, Toninho Horta, Wagner Tiso, Beto Guedes… é tão difícil falar porque Lô sempre foi um menino, e se manteve menino até que virou um anjo. E agora voa para outras janelas laterais”, Fafá de Belém.

“É um dia triste. Porque a gente perdeu um grande amigo, mas o Brasil perdeu um grande músico, grande compositor. É uma tristeza enorme perder um parceiro desses. O Lô Borges era tarado por compor. Ele compunha no mínimo uma música por dia. O Brasil perdeu um grande compositor”, Wagner Tiso.

“Nascido em Belo Horizonte e cruzeirense fanático desde a infância, ele foi um dos grandes responsáveis por revolucionar a Música Popular Brasileira nas décadas de 1970 e 1980, com composições e interpretações que se tornaram ícones da história do estado e do país. Desejamos força aos familiares, amigos e fãs neste momento difícil. Eternamente, Lô é do mundo, é Minas Gerais”, publicou a Raposa em suas redes sociais.

Fotos: Reprodução/Redes Sociais