Violência contra animais clama para uma sociedade mais empática, com menos violência e com maior respeito

B ernadete Alves
Violência contra animais é um reflexo perturbador da realidade social e da terceirização de valores

A violência contra animais gerou um debate no país nas últimas semanas, devido a morte brutal do cachorro Orelha, na Praia Brava, em Florianópolis-SC. As imagens, os relatos e a frieza com que o ataque contra o animal foi cometido, chocou o país e despertaram legítima e imediata indignação. O assunto dominou as redes e a imprensa desde que veio a público. No domingo protestos pedindo por justiça foram organizados em diferentes partes do país.

A revolta diante da crueldade cometida (segundo as investigações em curso, por menores de idade) contra o cão, que tinha por volta de 10 anos e recebia cuidados de forma comunitária, mesmo não sendo de ninguém, ele era ao mesmo tempo, de todo mundo.

Este caso bárbaro é mais um episódio de violência contra um animal indefeso. Um reflexo perturbador da realidade social, das falhas na criação e educação das crianças e adolescentes, da terceirização de valores ao se normalizar a violência. A banalização da violência está no centro das discussões, assim como a prevenção, a ressocialização e as medidas educativas. 

Bernadete Alves
Morte do Cão Orelha: é mais um caso bárbaro de violência contra um animal indefeso

O caso gerou comoção nacional e levou muitas indagações na sociedade e também nas organizações não governamentais (ONGs) voltadas ao apoio a animais abandonados ou vítimas de violência, de se unirem em prol uma sociedade mais empática, com menos violência e com maior respeito. 

Todos são unânimes de que o estímulo ao respeito, contato e os cuidados com animais podem prevenir e interromper ciclos de violência.

Todos sabemos que os cães são companheiros leais e desenvolvem um vínculo de amizade na vida das pessoas, oferecendo não apenas companhia, mas uma série de benefícios emocionais e físicos. A relação entre cães e gente é uma experiência única, proporcionando um ambiente de aprendizado e desenvolvimento saudável. A criança é um agente multiplicador, leva para sua família e sua comunidade informações e o entendimento de como é importante respeitar os animais.

O instituto Ampara Animal, por exemplo, que atua há 15 anos promovendo ações de cuidado, discussões públicas e apoio a abrigos e centros de adoção em todo o país, começará, nos próximos dias, a campanha “Quebre o Elo”, que chama a atenção para a gravidade da violência praticada contra animais.

A organização parte do pressuposto de que a violência com animais pode ser reflexo de outras às quais o praticante está exposto, sejam direcionadas a si ou a pessoas de seu convívio. Além disso, é um importante indicador da possibilidade de outras violências, principalmente contra grupos mais vulneráveis, como crianças, mulheres e idosos. 

Bernadete Alves
Abacate, Orelha e Negão: casos mais recentes de violência contra animais indefesos

“Temos que tentar ensinar saindo de uma visão e uma educação antropocêntricas. A Ampara sempre entendeu que a educação é o caminho para transformar em melhor a vida dos animais, principalmente quando voltada a crianças e adolescentes”, declara Rosângela Gebara, diretora de relações institucionais da Ampara.

A diretora da Ampara explicou que esse modelo é chamado de ‘educação humanitária em bem-estar animal’. Para Rosângela, essa aproximação tem que ser feita de forma gradual, sempre ensinando a criança a ser gentil com os animais, a respeitar o tempo e o comportamento de cada espécie, de preferência levando-a para ver os animais na natureza ou em locais que têm relação maior com o ambiente e modos de vida naturais. O desenvolvimento da empatia, defende, requer a interação com animais e ajuda a criança a entender os sentimentos e as necessidades do outro, o respeito e a reduzir comportamentos de violência e intolerância. 

Bernadete Alves
Violência contra animais clama para uma sociedade mais empática, com menos violência e com maior respeito

Quebrar a perspectiva do animal como um objeto ou um produto é outro passo importante. Viviane Pancheri, voluntária há 15 anos na ONG Toca Segura, cuida de cerca de 400 animais em um abrigo no Guará II, no Distrito Federal (DF), e em uma unidade maior na cidade do Novo Gama, em Goiás. O Toca desenvolveu por anos uma iniciativa direta em escolas do DF.

“É importante que as crianças tenham a percepção de que os animais sentem medo, abandono, felicidade, enfim, que são sencientes [ indivíduos capazes de sentir, perceber o mundo e vivenciar emoções]”, Viviane.

Ela conta que no local eles trabalham valores e a forma como as crianças percebem o cuidado, já no convívio com os cães da Toca, mostrando como o cuidado e a atenção são importantes. A partir daí, trabalham valores e a forma como as crianças percebem o cuidado, já no convívio com os cães da Toca.

Bernadete Alves
Sensibilização é porta de entrada para combater violência contra animais 

Essa interação é sempre pensada com bastante cuidado, tanto para acolher a criança quanto para não expor os animais a estresse ou alguma violência. “Lidamos com animais que já passaram por situações de abandono e de violência. Alguns passaram privações, outros têm um pouco mais de dificuldade, são mais arredios”, afirma Viviane.

Para promover esses momentos de troca, uma das estratégias que adotaram foi promover pequenos eventos. Entre eles estão os domingos de passeio. Voluntários pegam um animal e o levam para um passeio. Rápido, breve, mas importante, pois acostuma os animais com a presença humana, os torna mais dóceis e isso ajuda na busca por famílias para adoção. Crianças que atuam nesses eventos também desenvolvem a interação com os animais.

Bernadete Alves
Ações educativas são estratégias para combater violência contra animais

Segundo Viviane, para as crianças maiores e adolescentes, existe a questão da responsabilidade. “É mostrar a importância de ter esse cuidado, de forma supervisionada. A supervisão na construção da responsabilidade é muito importante, também para os cães comunitários. Alimentar, por exemplo, os animais na rua é uma ótima maneira. Vê-la oferecer, fazer boas ações e elogiar isso, o que leva à formação de um ser humano melhor”.

Especialistas asseguram que a convivência entre crianças e animais é uma oportunidade única de aprendizado e crescimento mútuo. Enquanto as crianças se beneficiam do amor incondicional dos pets e aprendem lições de vida importantes, os animais também encontram carinho e cuidado em um lar.

Bernadete Alves
Cão pode reduzir significativamente os níveis de estresse e solidão em crianças, asseguram especialistas

A criança que tem convívio com um animal de estimação sabe, com mais facilidade, pela experiência, o que pode machucar e o que causa dor no outro. Essa ligação vai muito além de uma simples interação. Essa conexão pode moldar o desenvolvimento emocional, físico e social das crianças.

Cães são conhecidos por sua lealdade e afeto. Para crianças, ter um pet significa ter um companheiro. Essa amizade proporciona apoio emocional, ensinando lições valiosas sobre empatia, compaixão e amizade, tornando a criança mais solidária, afetiva e responsável.

A responsabilidade de auxiliar nos cuidados com um animal de estimação ensina sobre amor, comprometimento e a importância de se preocupar com o bem-estar dos outros. Vale lembrar que a responsabilidade pelo cuidado básico do pet é responsabilidade dos adultos, uma vez que algumas tarefas, como limpeza de orelhas e corte de unhas, podem ser um pouco invasivas e representar riscos, especialmente considerando a estatura menor e os reflexos mais lentos das crianças.

No entanto, as crianças podem participar ativamente de atividades relacionadas ao cuidado do pet, como alimentar e dar água ao animal. Além disso, acompanhando os pais em visitas ao veterinário, elas também têm a oportunidade de entender a importância da saúde e do bem-estar dos pets.

Bernadete Alves
Aproximação de crianças com animais é importante no combate à violência

Ter um cão muitas vezes significa ter um parceiro de brincadeiras. A atividade física regular promovida por essas brincadeiras contribui para a saúde física tanto das crianças quanto dos cães, ajudando a prevenir o sedentarismo. Além disso, de acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, as brincadeiras entre crianças e pets promovem mais estímulos ao cérebro e aperfeiçoam a habilidade motora dos pequenos. Lembrando que essas brincadeiras devem ser supervisionadas.

Além do mais, a presença de um cão pode reduzir significativamente os níveis de estresse e solidão em crianças, especialmente em casos de filhos únicos. A interação com o animal pode auxiliar na liberação de hormônios relacionados ao bem-estar, promovendo um ambiente mais tranquilo e feliz.

Um estudo conduzido pela Henry Ford Health, uma instituição de saúde dos Estados Unidos, com quase 800 crianças, revelou que a incidência de eczema, uma condição cutânea marcada por vermelhidão, coceira, ressecamento e sinais de inflamação, foi significativamente menor entre aquelas que compartilhavam o lar com cães.

A convivência entre cães e crianças é uma experiência que pode agregar benefícios emocionais e educacionais. No entanto, para garantir uma interação segura e harmoniosa, é essencial estar atento a alguns cuidados específicos.

Antes de escolher um cão, é importante considerar o temperamento e as características individuais do animal, independentemente da raça. O ideal é contar com a ajuda de um Médico-Veterinário especializado em comportamento animal.

Sendo assim, é fundamental observar o comportamento do cão em diferentes situações e ambientes para avaliar sua compatibilidade com crianças. Cães mais dóceis, brincalhões e pacientes tendem a se adaptar melhor ao convívio com os pequenos. De toda forma, é importante sempre estar atento às interações e brincadeiras entre eles, corrigindo comportamentos que podem comprometer o bem-estar um do outro.

Vale ressaltar que ter um pet exige muito comprometimento e responsabilidade. Afinal, o animal também é um ser com necessidades e que demanda cuidados exclusivos. Por isso, o planejamento adequado de toda a família ao ter um pet é fundamental.

O processo de adoção, que resulta muitas vezes da convivência e do cuidado com animais, tem algumas regras de ouro.

  • considerar se todos os membros da família estão de acordo e conscientes das responsabilidades que terão com o animal;
  • pensar de forma realista se a família tem condições de cuidar. Não apenas em relação à questão material, mas também a ter tempo e condições de adaptar a rotina;
  • refletir se o planejamento de vida da família se adequa à adoção;
  • planejar, para evitar abandono e manter cuidados de forma adequada. 

Fotos: Paulo Pinto/Agência Brasil e Reprodução