Estudo aponta que consumo de queijo com alto teor de gordura, pode proteger contra demência

Bernadete Alves
Medidas protetoras contra a demência

A demência é mais comum em idosos, mas não é consequência inevitável do envelhecimento. A nível mundial, a demência afeta cerca de 50 milhões de pessoas, com quase 10 milhões de novos casos todos os anos. Nos idosos, é uma das principais causas de incapacidade e dependência em todo o mundo.

Segundo especialistas a demência é uma síndrome, geralmente crónica e progressiva, em que ocorre uma deterioração da função cognitiva mais acentuada do que seria de esperar no normal processo de envelhecimento.

Pode afetar as capacidades de memória, raciocínio, orientação, compreensão, aprendizagem e linguagem. Estas alterações são habitualmente acompanhadas – e, por vezes, até precedidas – por alterações na capacidade de controlo emocional e no comportamento social. Contudo, a demência afeta cada pessoa de forma diferente, dependendo do impacto que a doença tem e da personalidade do doente antes do seu surgimento.

Bernadete Alves
Demência: o que é e como evitar o agravamento da doença

Existem diferentes tipos de demência, sendo a mais comum a Doença de Alzheimer, que contribui para 60-70 % dos casos. Estudos têm demonstrado que a adoção de alguns hábitos de vida podem reduzir o risco de desenvolver este tipo de doenças ou até atrasar a evolução dos seus sintomas.

Um estudo que acompanhou adultos na Suécia por 25 anos associou o consumo mais elevado de queijo e creme de leite com maior teor de gordura a um risco menor de demência. O estudo classificou como “queijos gordurosos” os produtos com mais de 20% de gordura, como brie, gouda, cheddar, parmesão e muçarela.

Pesquisadores analisaram dados de 27.670 participantes, com idade média de 58 anos no início do acompanhamento. Ao longo de cerca de 25 anos, 3.208 pessoas desenvolveram algum tipo de demência. O estudo de longo prazo foi conduzido pela Loughborough University e publicado na revista científica Neurology, uma das mais prestigiadas quando se trata de neurologia, sugere que pessoas que consomem queijos e cremes com maior teor de gordura ao longo da vida apresentam menor risco de desenvolver demência.

Bernadete Alves
Estudo aponta que consumo de queijo com alto teor de gordura, pode proteger contra demência

O trabalho avaliou separadamente diferentes tipos de laticínios, considerando o teor de gordura dos produtos. Segundo os resultados, participantes que consumiam 50 gramas ou mais por dia de queijo com alto teor de gordura apresentaram menor risco de demência em comparação com aqueles que ingeriam quantidades baixas. O estudo também identificou associação semelhante entre o consumo de creme de leite com maior teor de gordura e menor risco da doença.

Durante décadas, alimentos ricos em gordura foram vistos como vilões da saúde. Mas, quando o assunto é o cérebro, há sinais de que a história pode não ser tão simples.

A alimentação foi avaliada logo no início do estudo. Para isso, os pesquisadores usaram um método que combinou um diário alimentar de sete dias, um questionário sobre hábitos alimentares ao longo do último ano e uma entrevista presencial, conduzida por profissionais treinados para esclarecer porções, tipos de alimentos e formas de preparo. O objetivo não era registrar uma semana específica, mas traçar um retrato do padrão alimentar habitual de cada pessoa.

Outros produtos analisados pelos pesquisadores não apresentaram o mesmo resultado. O consumo de leite, laticínios fermentados, manteiga e versões com baixo teor de gordura não mostrou associação relevante com o risco de demência ao longo do acompanhamento.

A pesquisa também analisou subtipos da doença. O consumo mais elevado de queijo com alto teor de gordura esteve associado a menor risco de demência vascular. No caso da doença de Alzheimer, a associação apareceu apenas entre participantes sem o gene APOE4, que é um dos principais fatores genéticos de risco conhecidos para a doença.

Bernadete Alves
Estudo aponta que consumo de queijo com alto teor de gordura, pode proteger contra demência

Os autores destacam que o estudo é observacional e que os dados indicam associação estatística. A alimentação foi avaliada no início do acompanhamento, com base em registros detalhados de consumo, mas os hábitos podem ter mudado ao longo do tempo. Para reduzir distorções, análises adicionais excluíram participantes que desenvolveram demência nos primeiros anos, e os resultados se mantiveram.

Segundo os pesquisadores, os achados indicam que nem todos os laticínios têm o mesmo comportamento em relação ao risco de demência e que o teor de gordura pode ser um fator relevante na associação observada. Ainda assim, o estudo reforça que não é possível afirmar que o consumo desses alimentos reduza diretamente o risco da doença.

A nutricionista Lara Natacci, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), os resultados chamam atenção pelo tamanho e pelo tempo de acompanhamento do estudo. Ainda assim, ela reforça que se trata de um estudo observacional. “Ele mostra uma associação estatística, mas não prova que o queijo gordo seja a causa dessa proteção”.

Bernadete Alves
Alimentação balanceada e os benefícios para prevenção de doenças

Existe uma relação entre a adoção de uma dieta amiga do coração e um cérebro saudável. Uma dieta saudável, que inclui fruta e vegetais, frutos secos, cereais integrais, carne de aves, peixe e leguminosas, pode reduzir o risco de demência. Já o consumo de carne vermelha, açúcar, sal e gordura saturada deve ser limitado, segundo a especialista.

O risco de ter demência aumenta com a idade, mas ela também pode ser diagnosticada na meia-idade. Apesar de ela não ter cura, existem tratamentos e, claro, alguns meios de se prevenir. O importante é poupar nosso cérebro antes de ele envelhecer.

  • Ter níveis baixos de colesterol e pressão arterial
  • Tratar a ansiedade
  • Evitar o excesso de álcool
  • Manter a mente ativa
  • Dormir bem
  • Fazer exercícios
  • Montar puzzles
  • Resolver sudokus ou palavras cruzadas
  • Ler
  • Jogar jogos de tabuleiro
  • Tocar um instrumento musical
  • Dançar

Ao aprender continuamente coisas novas e desafiar o cérebro, fortalecemos as nossas capacidades cognitivas, o que pode contribuir para atrasar ou prevenir os sintomas de demência.

Bernadete Alves
Medidas protetoras contra demência

A prática de exercício físico pode atrasar a evolução dos sintomas de demência, como problemas de raciocínio, e reduzir o declínio cognitivo. Pode também ajudar a aliviar a ansiedade e depressão. Estudos demonstram que a prática de atividade física moderada – por exemplo, fazer exercício três vezes por semana – reduz o risco de demência. Os efeitos benéficos do exercício físico são potenciados quando varia o tipo de atividade praticada e parece haver benefícios mesmo que a sua prática seja iniciada apenas numa fase tardia da vida.

O ideal é fazer 30 minutos de exercício físico moderado – combinando cardio com treino de força – na maior parte dos dias da semana. É importante que a atividade escolhida seja segura e, seja uma aula própria para seniores ou atividades como caminhar, dançar ou jardinagem, tudo conta. Para quem não costuma praticar exercício físico, a dica é começar devagar e aumentar gradualmente a dificuldade. Evitar passar longos períodos de tempo sentado.

Existe uma relação entre a adoção de uma dieta amiga do coração e um cérebro saudável. Uma dieta saudável, que inclui fruta e vegetais, frutos secos, cereais integrais, carne de aves, peixe e leguminosas, pode ajudar a reduzir a inflamação, proteger os neurónios e as funções cerebrais, reduzindo o risco de demência. Já o consumo de carne vermelha, açúcar, sal e gordura saturada deve ser limitado.

Outras substâncias que podem proteger contra a demência são a curcumina (presente na curcuma) e os ácidos gordos ómega-3, presentes no peixe. A Dieta Mediterrânica – caracterizada por um elevado consumo de azeite, fruta e legumes, cereais integrais, peixe e carne de aves – está associada a um risco mais baixo de desenvolver Doença de Alzheimer e de Parkinson.

Fumar prejudica a circulação sanguínea de um modo geral, incluindo os vasos sanguíneos no cérebro, coração e pulmões. Não é, por isso, de admirar que o tabagismo aumente consideravelmente o risco de demência, assim como de outras doenças como diabetes tipo 2, acidente vascular cerebral (AVC) e de cancro, como o do pulmão.

Outra dica é manter os níveis de colesterol, glicemia e pressão arterial controlados. Zelar por uma boa saúde vascular pode beneficiar o cérebro. Controlar a pressão arterial e os níveis de colesterol pode ter efeitos benéficos tanto no cérebro como no coração.

Manter a mente ativa pode ajudar a reduzir o risco de demência. Por isso, pessoas que sofrem de demência devem praticar atividades mentalmente desafiantes e que considerem interessantes, para que a sua realização não seja uma obrigação e motivo de frustração.

Pessoas mais velhas que se envolvem regularmente em atividades sociais mostram um menor declínio cognitivo. Uma explicação para este efeito prende-se com o facto de as atividades sociais promoverem novas conexões entre as células do cérebro. Desde fazer voluntariado a combinar planos com os amigos e familiares, há muitas formas de socializar. Quanto mais socialmente ativo for, melhor poderá ser a capacidade de memória e de cognição.

Bernadete Alves
Dormir bem ajuda o cérebro a eliminar substâncias tóxicas

Dormir o número adequado de horas (cerca de 7h por noite) pode ajudar o nosso cérebro a eliminar substâncias tóxicas. As pessoas que sofrem de demência podem ter manifestações mais severas dos seus sintomas ao final do dia e, por isso, é importante que as suas rotinas sejam o mais calmas e regulares possível. À noite, evite ter a televisão ligada e não ingira café ou chá com cafeína.

Ver e ouvir bem assume especial importância para pessoas que sofrem de demência. Os problemas de audição ou de visão podem dificultar a capacidade destes doentes de reconhecer os seus familiares ou objetos. Além disso, podem agravar os sintomas de demência, como a confusão mental e facilitar a solidão. Fazer um check-up de audição e de visão é primordial.

As lesões na cabeça, sobretudo se repetidas, estão associadas a um risco aumentado de demência. Proteja a sua cabeça com um capacete quando estiver a praticar desporto, use cinto de segurança no carro, elimine da sua casa objetos que o possam fazer tropeçar (como tapetes) e evite desportos ou outras situações que envolvam possíveis lesões repetidas na cabeça.

O estresse é outro inimigo do cérebro. Ele prejudica a memória e o crescimento de células nervosas. Pode também agravar os sintomas de demência. Por isso a importância de zelar pela saúde emocional.

Fotos: Reprodução