Cientistas brasileiros avançam no desenvolvimento do 1º soro do mundo contra veneno de abelhas

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Anualmente, o Brasil registra cerca de 20 mil acidentes com abelhas e 50 óbitos. Nos últimos cinco anos, o país registrou cerca de 100 mil casos de acidentes desse tipo, de acordo com os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), divulgados pelo Ministério da Saúde. Entre os casos registrados, 303 foram fatais.

Para pessoas que têm casos graves de alergia, uma única picada da abelha pode desencadear choque anafilático – a forma mais grave de reação alérgica, que pode ser fatal. Para esses pacientes, o tratamento comum inclui medicamentos anti-histamínicos e anti-inflamatórios.

As regiões brasileiras com maior incidência de acidentes são o Sul Nordeste, mas as maiores taxas de letalidade ocorrem no Centro-Oeste e Norte, em áreas com maior dificuldade de acesso a atendimento médico. A maioria dos casos ocorre de outubro a março, na zona urbana, com homens de 20 a 64 anos, e os óbitos são mais frequentes em pessoas acima dos 40.

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Abelha africanizada,a Apis mellifera, conhecida como assassina

A boa notícia é que  cientistas brasileiros avançam no desenvolvimento do primeiro soro do mundo contra múltiplas picadas da abelha “assassina”, oficialmente conhecida como abelha africanizada (Apis mellifera). Graças a iniciativa de diferentes centros de pesquisa nacionais, como o Instituto Butantan, a Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) de Botucatu e Instituto Vital Brazil, o produto deve entrar na fase 3 de ensaios clínicos neste ano.

O soro brasileiro, que já foi patenteado, obteve resultados promissores nas fases 1 e 2 dos estudos clínicos. Os resultados foram divulgados no periódico científico Frontiers in Immunology. Quando os estudos forem concluídos, o medicamento deve ser distribuído gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS).

O estudo clínico de fase 1 e 2 contou com 20 voluntários adultos, com idade média de 44 anos. O número de picadas variou de sete a 2 mil. Não foi observado nenhum efeito adverso grave e todos os pacientes tiveram melhora. A pesquisa foi conduzida no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da UNESP-Botucatu e no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão (SC). Hoje, os pesquisadores estão desenhando o protocolo da fase 3, que deve durar cinco anos, para submetê-lo à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O medicamento é destinado a pessoas que levam múltiplas picadas de abelha. Nesses casos, os indivíduos recebem uma grande quantidade de veneno, que pode ser nociva à saúde. As toxinas podem causar hemorragias, queda de pressão, tontura, náuseas e taquicardia, como explica o pesquisador Daniel Pimenta, do Laboratório de Bioquímica do Butantan, um dos detentores da patente.

A aplicação do Soro tem o objetivo de neutralizar a melitina, que é o principal composto tóxico do veneno das abelhas, impedindo a ação de destruir músculos e rins. 

“O principal alvo do veneno da abelha é o rim. O paciente pode ter falência renal e morrer“, explica Daniel Pimenta, do Laboratório de Bioquímica do Butantan, em comunicado. Além disso, as toxinas podem causar hemorragias, queda de pressão, tontura, náuseas e taquicardia. “O soro antiapílico age neutralizando o veneno”, completa, o que poderá salvar inúmeras vidas.

Os cientistas explicam que efeito tóxico do veneno só ocorre a partir de dezenas de picadas, quando o indivíduo é atacado por um enxame. Para esses casos, o soro poderá ser aplicado quando disponível, após os processos de avaliação de segurança e de eficácia.

Etapas da pesquisa até à produção do soro

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Cientistas brasileiros avançam no desenvolvimento do 1º soro do mundo contra veneno de abelhas africanizadas

Para a formulação do soro, os pesquisadores se debruçaram sobre a análise das características bioquímicas do veneno. Após o entendimento da composição, os especialistas passaram a pensar na viabilização da produção do soro.

Tradicionalmente, os soros são produzidos em cavalos, a partir da inoculação de uma pequena quantidade de veneno de um animal peçonhento. Depois, ocorre a coleta e purificação do plasma, que contém os anticorpos produzidos pelo animal.

“No entanto, no caso do veneno da abelha, os cavalos podiam ter reação alérgica e choque anafilático. A solução que encontramos para isso foi remover, em laboratório, todas as substâncias alérgenas [capazes de provocar alergia grave] da toxina”, explica o cientista Daniel.

A estratégia tornou possível a produção do soro nos cavalos. Os primeiros lotes foram desenvolvidos na Unesp de Botucatu, e a produção em maiores quantidades foi feita no Instituto Vital Brazil, em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro. De acordo com o Butantan, se aprovado pela Anvisa, o soro também poderá ser produzido na sede do instituto em São Paulo.

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Butantan é responsável pelo 1º soro antiveneno, de abelhas africanizadas, do mundo

Vale explicar que as abelhas assassinas são uma criação do processo de “domesticação” do inseto pelo homem, no qual a abelha-africana (Apis mellifera scutellata) foi cruzada com a espécie europeia A. mellifera ligustica. A junção das duas espécies resultou em uma abelha adaptada ao clima tropical, perfeita para a produção de mel. No entanto, a nova espécie apresenta um comportamento defensivo mais acentuado (“agressividade”), além de formar enxames com maior facilidade, ter alta produtividade e resistir a inúmeras doenças.

Fotos: Reprodução