Morte de criança de 8 anos por desafio na internet leva deputada a querer CPI para apurar crimes no ambiente digital

Bernadete Alves
Perigos do uso excessivo das plataformas digitais sem supervisão

A morte de Sarah Raíssa Pereira, de oito anos, vítima provável do chamado “desafio do desodorante” – prática que circula nas redes sociais e consiste em inalar aerossóis pelo maior tempo possível – chocou o Distrito Federal pois uma mãe e um pai perderam a própria filha, num episódio trágico.

Bernadete Alves
Morte de Sarah Raissa Pereira de 8 anos por desafio na internet une parlamentares para apurar crimes no ambiente digital

Com apenas 8 anos de idade ela participou de uma trend promovida no TikTok que estimula crianças e adolescentes a inalar desodorantes. Foi encontrada desacordada pela avó. Sarah foi levada ao Hospital Regional de Ceilândia (HRC) após sofrer uma parada cardiorrespiratória. Os médicos tentaram reanimá-la por cerca de uma hora, mas sem sucesso. A morte cerebral foi constatada no mesmo dia, e o óbito foi declarado oficialmente três dias depois. O corpo de Sarah foi sepultado ontem. 

As redes sociais viraram terreno perigoso para as crianças. E nós não podemos mais assistir calados. Não podemos aceitar esta tragédia como algo normal. É impossível não se comover diante de tanta tristeza e com a dor dos pais em perder uma filha na tenra idade pelos criminosos. Hoje, infelizmente, a sociedade obedece às big techs. É urgente criar mecanismos para que a sociedade consiga efetivamente regulamentar os horrores das redes sociais. Essa pode ser a diferença entre a vida e a morte. O que as plataformas fazem é ganhar dinheiro e visibilidade ainda que se esforcem em criar uma imagem de “preocupação” com seus efeitos perversos.

Bernadete Alves
Autoridades se unem para instaurar CPI para apurar crimes no ambiente digital

Na teoria, menores de 13 anos sequer podem ter perfis no TikTok e no Instagram. Na prática, o acesso é liberado. E as tragédias se repetem pela falta de regulamentação das redes sociais. Chega de ver vidas perdidas pela irresponsabilidade das big techs.

Em fevereiro deste ano, na Calofórnia, o jovem Nnamdi Gleen Ohaeri Jr., de 13 anos, morreu depois de participar do “desafio do apagão”, que estimulava jovens a se autoasfixiarem pelo máximo de tempo possível.

Na Argentina, Milagros Soto, de 12 anos, foi encontrada asfixiada em janeiro de 2023. Sua tia escreveu: “Esta é Milagros, minha sobrinha, que hoje perdeu a vida fazendo um desafio no Tiktok. Por favor, peço que compartilhem. Minha família e eu não temos consolo”.

Uma reportagem de 2022 na Bloomberg contabilizou a morte de ao menos 15 crianças com menos de 12 anos em apenas 18 meses. Todas ligadas ao “Desafio do Apagão”.

O triste é ver que o ambiente digital, com o uso intensivo de redes sociais, plataformas digitais e até da inteligência artificial, ampliou as ameaças às crianças e adolescentes.

Bernadete Alves
Perigos do uso intensivo de redes sociais e plataformas digitais

Como a legislação não acompanhou essa transformação a internet se tornou uma terra de ninguém. Preocupada com a vulnerabilidade de crianças e adolescentes, a deputada federal pelo Rio Grande do Sul, Maria do Rosário, que foi ministra dos Direitos Humanos e Cidadania no governo Dilma Rousseff, resolveu agir para que mais vidas não sejam perdidas. A parlamentar está coletando assinaturas para a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar crimes cometidos contra crianças e adolescentes no ambiente digital.

Maria do Rosário afirma que a CPI pode ser um instrumento mais eficaz do que inquéritos policiais, já que tem poder de convocação, acesso a documentos e condições de propor mudanças na legislação. Esse é um assunto que deve ser tratado como prioridade nacional pela Câmara dos Deputados. Só quem é mãe e pai sabe dos riscos que seus filhos estão correndo.

“Fiz um levantamento do que temos hoje de denúncias e identifiquei que uma CPI pode ser importante. Isso porque, além de fazer a investigação, propõe medidas – que aconteceu em outros momentos na Câmara dos Deputados, nos crimes sexuais contra crianças. A Câmara teve três CPIs para investigar crimes sexuais, e as três produziram avanços legislativos para enfrentar esses crimes”, diz a parlamentar gaúcha.

“Tive acesso a diversas pesquisas publicadas sobre o tema e essas pesquisas indicam que não apenas indivíduos, mas organizações atuam no sentido do aliciamento para a violência e a formação de uma cultura que naturaliza a prática da violência, por exemplo, contra meninas, contra mulheres, contra as escolas”, informa Maria do Rosário.

Bernadete Alves
Sarah Raissa Pereira perde a vida para desafio e autoridades apuram crimes no ambiente digital

Proteger crianças e adolescentes é obrigação do Estado, da sociedade, das famílias, das escolas e principalmente dos políticos que foram eleitos para representar o povo.

A CPI pretende investigar a ação de grupos ou indivíduos que, por meio das redes sociais, induzem, estimulam e recrutam crianças e adolescentes para o cometimento de violência — seja contra si mesmos ou contra terceiros. Também estão no escopo da CPI a responsabilidade das plataformas digitais, a ação ou omissão dos órgãos públicos de regulação e a propagação de discursos de ódio, especialmente os voltados contra meninas adolescentes.

Bernadete Alves
Morte de criança de 8 anos por desafio na internet acende alerta das autoridades

O advogado-geral da União, Jorge Messias. Em publicação no X , destacou que “as circunstâncias da morte da criança Sarah merecem rigorosa apuração e convocam novamente a refletir sobre a necessidade de um marco normativo eficiente para as redes sociais”. Ele observou, ainda, que “a catástrofe remarca a essencialidade de termos ferramentas regulatórias para prevenir e responsabilizar, de forma efetiva, os divulgadores de conteúdos falsos/maliciosos nas redes sociais, bem como as big techs, quando essas se omitem apenas para transformar desinformação em lucro. Essa agenda não é apenas do governo, é uma pauta que interessa às famílias brasileiras”.

A Polícia Civil do DF prometeu notificar a plataforma para identificar o criador do desafio nas redes. E os professores alertam que O uso excessivo de celular por crianças pode prejudicar o desenvolvimento físico, mental e social.

Fotos: Reprodução